No último ano, a rotina do ex-ministro Pedro Parente passou por grandes mudanças. Parente, que já chefiou a Casa Civil e foi o titular da pasta de Minas e Energia durante o governo do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, no auge da crise do apagão, no começo da década, está dando uma virada em sua carreira profissional. Desde que assumiu, em janeiro do ano passado, a presidência das operações da Bunge Brasil, um dos maiores grupos agroindustriais do País, recrutado no conglomerado gaúcho de comunicações RBS, ele mergulhou de cabeça numa espécie de aprendizado intensivo sobre o agronegócio. Com a atenção típica de um novato empolgado, ele acompanha diariamente o sobe e desce da bolsa, e observa com olhos de lince cada detalhe do preço das commodities. O monitor de seu computador, com as informações sobre o mercado agrícola, fica o tempo todo ligado e se tornou uma ferramenta de trabalho inseparável. “É um aprendizado diário sobre o agronegócio e as peculiaridades de cada cultura com as quais trabalhamos”, afirma Parente.

Explica-se tamanha dedicação. Aos 58 anos de idade, Parente tem pela frente seu maior desafio como executivo do setor privado: integrar todas as frentes de negócio da empresa sob o guarda-chuva da Bunge Brasil, um colosso que faturou US$ 14,3 bilhões no ano passado, o equivalente a R$ 22,8 bilhões. Antes de Parente assumir a batuta, as operações da companhia eram divididas em quatro frentes de negócios: a Bunge Alimentos, com produtos voltados ao consumidor final, como óleos vegetais, margarinas, além de produtos para a indústria de panificação; a Bunge Fertilizantes, com as marcas Iap, Manah, Serrana e Ouro Verde; a Bunge Agronegócio, com produtos para nutrição animal, e a Bunge Açúcar e Bioenergia, dedicada à produção e comercialização de etanol. Juntas, as quatro frentes exportam para cerca de 30 países e reúnem um exército de 20 mil funcionários, distribuídos em 130 unidades em 16 Estados. Até a chegada de Parente, cada unidade funcionava quase que de forma independente, com seus respectivos diretores. Agora, esses executivos se reportam diretamente ao presidente de operações. Segundo ele, sua principal missão é integrar as culturas de todas as empresas, já que algumas foram adquiridas há poucos anos, como é o caso das usinas de cana-de-açúcar.

Os investimentos da Bunge no setor sucroalcooleiro marcam uma nova fase dessa estrutura remodelada. Só no triênio 2010-2012, a previsão de investimentos no setor é de R$ 750 milhões. Desde o início da atuação no segmento, em 2006, a companhia já investiu R$ 5 bilhões. Naquele ano, a Bunge começou a operar como trader na comercialização do açúcar. A partir de 2007, a empresa decidiu ir às compras. Primeiro, adquiriu a Usina Santa Juliana, em Minas Gerais. No ano seguinte, foi a vez da Usina Monte Verde, no Mato Grosso do Sul, e em 2010, desembolsou U$ 1,5 bilhão, na aquisição de cinco usinas que pertenciam ao grupo Moema, sendo três unidades no interior de São Paulo e outras duas em Minas Gerais.

 

O MAESTRO: sob a batuta de Pedro Parente, em 2011, a Bunge vai investir R$ 560 milhões em bioenergia

Para este ano, está prevista a inauguração de mais uma usina, ainda em fase de construção, no município de Pedro Afonso (TO). “Com as oito unidades, nossa capacidade de moagem alcançará 20 milhões de toneladas de cana-de-açúcar ao ano”, diz Adalgiso Telles, diretor de relações corporativas e sustentabilidade da Bunge. Com esse volume, serão produzidos cerca de três bilhões de litros de etanol ao ano. A empresa, passa, assim, a ser a terceira maior esmagadora de cana no País, atrás apenas da Cosan, com produção de 63 milhões de toneladas, e do grupo Louis Dreyfus, com aproximadamente 40 milhões de toneladas.

Para este ano, está prevista a inauguração de mais uma usina, ainda em fase de construção, no município de Pedro Afonso (TO). “Com as oito unidades, nossa capacidade de moagem alcançará 20 milhões de toneladas de cana-de-açúcar ao ano”, diz Adalgiso Telles, diretor de relações corporativas e sustentabilidade da Bunge. Com esse volume, serão produzidos cerca de três bilhões de litros de etanol ao ano. A empresa, passa, assim, a ser a terceira maior esmagadora de cana no País, atrás apenas da Cosan, com produção de 63 milhões de toneladas, e do grupo Louis Dreyfus, com aproximadamente 40 milhões de toneladas.

Para manter as usinas produzindo a pleno vapor, a Bunge não mediu esforços e nem poupou investimentos. Somente em 2011, serão injetados R$ 560 milhões em estrutura, modernização de maquinário, capacitação de funcionários e plantio. Quantia semelhante está prevista para 2012. A estratégia da empresa, após as aquisições, é expandir o cultivo da cana a novas áreas. “Vamos plantar 300 mil hectares este ano”, diz Parente. Atualmente, o fornecimento de cana é dividido entre áreas próprias e de produtores terceirizados. Esse equilíbrio varia, sendo 40% para um lado e 60% para outro, mas a porcentagem pode ser maior tanto para o produtor, quanto para a Bunge, dependendo de como for a safra. “Isso nos dá uma margem de segurança”, diz Telles. “Em caso de perdas em uma lavoura, temos a outra para fornecer matéria-prima.”

Mesmo com foco no setor sucroalcooleiro, a Bunge Brasil, subsidiária da Bunge Limited, um dos maiores grupos mundiais de agronegócio, com receitas de US$ 45 bilhões, em 2010, segue diversificando suas atividades, de olho na expansão dos negócios. “Só investimos em nichos onda há a possibilidade de sermos líderes”, afirma Telles. O grupo que está há 105 anos no Brasil, já chegou a ter 136 empresas – incluindo as tintas Coral, as marcas de pão Pullman e Plus Vita e o Banco Santista (a Santista Têxtil), entre outras –, quando a estratégia era controlar os nichos de mercado que tinham relação com as operações de agronegócio e alimentos. O objetivo, na época, era baratear custos, diminuir perdas e otimizar as operações. “Hoje isso não é rentável”, diz Parente. “É mais inteligente concentrarmos esforços nas áreas onde podemos ser mais fortes”.

Com esse mantra na cabeça, outra aposta de Parente à frente da Bunge é o segmento de atomatados. No início deste ano, a empresa lançou várias opções de molhos, com a marca Primor. Por enquanto, os investimentos e estimativas de crescimento nesse mercado não foram divulgados. “Mas assim como nos outros segmentos, o objetivo é o topo”, diz Parente. A marca Primor nasceu em 1958 para vender óleo de soja. Depois vieram as margarinas, a maionese e o arroz.