No começo da década passada, o economista americano Paul Krugman, Nobel de Economia de 2008, previu que nos dias de hoje haveria uma crise de alimentos sem precedentes e em escala global. A escassez seria causada, principalmente, pela multidão de chineses que, ao se mudar do campo para a cidade, estariam comendo mais. A julgar pela disparada recente dos preços de carnes e grãos, Krugman acertou na mosca. No final de março, o Banco Mundial divulgou um amplo estudo com uma conclusão devastadora: o aumento constante dos preços internacionais dos alimentos foi um dos fatores responsáveis por levar cerca de 44 milhões de pessoas à situação de pobreza nos países em desenvolvimento. Em outras palavras, o mundo já vive a tão temida crise prevista por Krugman. “Alimento barato, assim como o petróleo barato, se transformou em algo do passado”, disse o Nobel, dias atrás, logo após concluir que o relatório do Banco Mundial endossara sua projeção.

 

154 milhões de toneladas deverão ser produzidas pelo agronegócio brasileiro na safra 2011/2012, acima dos 147 milhões da safra anterior

Ao que tudo indica, o cenário tende a se agravar. A população mundial está em franca expansão. Segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), passará dos atuais 6,6 bilhões de pessoas para 8,3 bilhões em 2030 e 9 bilhões em 2050. O efeito do aumento do número de habitantes que se alimentam ganha ainda mais relevância porque a maioria deles nasce na Ásia e na África, onde o consumo de alimentos cresce em ritmo mais rápido devido ao surto recente de desenvolvimento econômico desses continentes. E mais: nas próximas duas décadas, dois em cada três chineses incluirão carne vermelha e uma infinidade de grãos em sua dieta diária, segundo estimativa da FAO, o organismo da ONU para agricultura e alimentação. O que isso significa para o Brasil? Por um lado, trata-se de uma oportunidade inegável de consolidar o País como principal produtor de alimentos do planeta – ou seja, uma chance rara de bons negócios para o agronegócio. Por outro, dispara o sinal de alerta para que o País organize definitivamente o setor produtivo agrícola. “O Brasil tem um potencial gigantesco para expandir sua produtividade e, desta forma, cumprir com excelência sua função de celeiro do mundo”, afirma Gerson Eher Júnior, consultor da Safras Consult.

 

duas realidades, um problema: cultivo de trigo na Rússia destruída pela seca e chineses comendo mais. Menos oferta e mais demanda geram inflação

A produção agrícola brasileira já está nesse caminho. A safra 2010/2011 atingiu 147 milhões de toneladas, e a estimativa para a safra 2011/2012 é de 154 milhões de toneladas, segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). E quanto mais o País produzir, mais venderá. Nos últimos dois anos, o trigo, o milho, o arroz e outros alimentos básicos dobraram ou triplicaram de preço, com grande parte do aumento ocorrendo no final de 2010 e início deste ano. O que aqui gera riqueza no campo, em alguns lugares representa aumento de custo de alimentos com consequentes tumultos. Alguns países fornecedores de alimento estão limitando as exportações em uma tentativa de proteger os consumidores domésticos, desencadeando protestos dos seus produtores rurais. Ao mesmo tempo, esse protecionismo às avessas acaba tornando as coisas ainda mais difíceis para os países dependentes das importações de alimentos. No caso do Brasil, o encarecimento dos alimentos não chega a se tornar um problema social, mas preocupa no campo econômico.

 

 

 

A culpa da crise, no entanto, está longe de ser apenas responsabilidade dos consumidores de carne da China. Apesar do ganho de produtividade nos últimos anos, o setor agrícola ainda precisa sofisticar seus mecanismos de redução do desperdício. Segundo estimativas da FAO, aproximadamente 64% do que se planta no Brasil se perde ao longo da cadeia produtiva: 20% na colheita, 8% no transporte e armazenamento, 15% na indústria de processamento, 1% no varejo e 20% no processamento culinário e devido a hábitos alimentares. Tudo isso representa 1,4% do Produto Interno Bruto (PIB), algo próximo a R$ 20 bilhões anualmente.

 

Transgênicos voltam à pauta : escassez de grãos e biocombustíveis reacendem a polêmica da biotecnologia

Há outros fatores, além das perdas do campo, que têm gerado a crise global dos alimentos. Um deles é o próprio petróleo – que passou de US$ 60 o barril, há menos de dois anos, para os atuais US$ 100. A agricultura moderna é altamente dependente de energia, especialmente para a produção de fertilizantes, na operação de tratores e no transporte dos produtos agrícolas aos consumidores. Com a cotação do petróleo em alta, os gastos com energia se tornaram o principal fator por trás dos aumentos dos custos agrícolas.

 

 

64% da produção

agrícola se perde em decorrência da ineficiência da colheita, do transporte e ar mazenamento

Não bastasse o descompasso entre oferta e demanda e custos da produção, fatores climáticos estão entre os principais vilões da agricultura. Nos últimos dez anos, uma sequência de condições meteorológicas adversas em áreas-chave de cultivo afetou a produção global. A Austrália, a segunda maior exportadora de trigo do mundo, sofreu uma série de secas – a mesma causa de quebra de safra na Rússia. O Sudeste Asiático, principal produtor mundial de arroz, reduziu a colheita em quase 30% em decorrência do excesso de chuva. “O efeito estufa e as transformações do clima indiscutivelmente atrapalharam os esforços para aumentar a produção de alimentos”, afirma José Tales Fontes, professor da PUC-SP, especialista em geopolítica e agricultura. “Quem foi menos afetado, como Brasil e Estados Unidos, direcionou seus excedentes para a produção de biocombustíveis.”

Nesse polêmico campo dos combustíveis verdes, o Brasil se tornou referência. A conversão de produtos agrícolas em combustível tem contribuído para promover a independência energética e ajudar a limitar o aquecimento global, mas, por outro lado, é acusado de “roubar” alimentos das mesas. “Isso é mais evidente em relação ao etanol de milho, pouco eficiente em comparação ao etanol de cana-de-açúcar”, afirma o presidente da União da Indústria Canavieira (Unica), Marcos Jank. “Mas, antes de conquistar novos mercados com o nosso etanol, é fundamental que criemos um marco regulatório moderno e seguro, uma política de estoques reguladores e uma ação sincronizada com o governo para difundir o etanol fora do Brasil.”

 

44 milhões de pessoas em todo o mundo entraram para a pobreza em razão da alta dos alimentos, segundo o Banco Mundial

Uma das alternativas para equacionar a crise dos alimentos é tão polêmica e complexa quanto o debate sobre os biocombustíveis: os transgênicos. Com a crise atual de alimentos no mundo, os defensores dos transgênicos estão ganhando adeptos. Além de afirmarem que os produtos GM são mais resistentes à secas, pragas e chuvas, eles garantem que a biotecnologia é capaz de suprir o déficit alimentar global, sem prejuízo ao setor de biocombustíveis. Nem todo mundo pensa assim. Alguns opositores da liberação dos transgênicos sustentam que isso não passa de falsa promessa e que modificações feitas podem ter impactos imprevisíveis sobre outras funções da planta, o que pode ser maléfico. Polêmicas à parte, enquanto os gurus globais do agronegócio não chegam a um consenso sobre a saída para a crise mundial dos alimentos, o Brasil pavimenta um caminho promissor para se consolidar como celeiro do mundo. Alguém duvida?