01/08/2010 - 0:00
“Vamos produzir um cacau de qualidade diferenciada, de alto valor agregado, e conquistar melhores preços” Paulo Gonçalves, produtor de cacau no Espírito Santo
Enquanto o carro acelera pelas estradas de terra que cercam o município de Linhares, no interior do Espírito Santo, o empresário Paulo Gonçalves segue observando atentamente cada nova plantação de cacau que surge na paisagem. Vez por outra, ele estaciona o veículo, entra na mata e vai olhar de perto os detalhes desses cultivos.
Ouro negro: cultivo cuidadoso garante qualidade do produto final
Basta uma rápida examinada para que ele já saiba dizer como está o nível de produtividade, a qualidade dos frutos, o desenvolvimento das plantas, entre outras coisas. Conhecimento que ele adquiriu ainda criança, quando costumava acompanhar o pai nas andanças pelas plantações de cacau da família, e que o ajudaram a erguer uma das maiores produções dessa fruta no País.
Sua empresa, a Floresta do Rio Doce, possui cerca de 200 hectares, ocupados por mais de três milhões de pés, e produz cerca de mil toneladas por ano.Gonçalves também atua nas outras pontas do negócio, comprando a produção de outros produtores da região e fazendo o beneficiamento do produto. Tanta atenção ao fruto não se deve apenas à tradição familiar. De olho no bom momento do mercado, Gonçalves é um dos principais coordenadores de um projeto que quer fazer brotar, no interior do Espírito Santo, um novo ciclo da fruta que já foi símbolo de poder e riqueza no sertão da Bahia. Um plano que tem como foco uma parceria recémfirmada com a multinacional belga Puratos, uma das principais fabricantes de chocolates finos do mundo, e que pretende extrair das lavouras capixabas um tipo de cacau mais nobre, cultivado com manejo diferenciado, cujo sabor permitiria produzir o primeiro chocolate de origem do Brasil. Um modelo que colocaria o País na rota de um mercado bilionário, que cresce a passos largos em todo o mundo, gerando doces lucros para os produtores daquela região.
“Hoje o preço da commoditie no mercado internacional está em US$ 3 mil a tonelada, o que já é um bom valor. Com o chocolate de origem, acreditamos que o preço pago chegue a ser 50% maior, chegando a US$ 4,5 mil a tonelada”, afirma Gonçalves.
O sabor do cacau capixaba já agradou à companhia europeia, que há tempos planejava produzir esse tipo de produto no País. Para tornar o sonho realidade, a estimativa é de que a Puratos invista cerca de R$ 22 milhões na região. “Existe um mercado crescente para chocolates de alta qualidade e temos certeza que o Brasil tem potencial para ser um grande produtor nesse nicho”, revela o diretor-comercial da Puratos, Caio Gouveia.
Para transformar as rústicas plantações em fantásticas “florestas de chocolates”, os produtores apostam nos próprios aspectos naturais da região. Localizado no norte do Estado, o município de Linhares se destaca por seu solo rico em nutrientes. Ali o cacau cresce em meio à Mata Atlântica, sendo irrigado pelas águas de um rio que não poderia ter outro nome mais adequado: rio Doce.
Vanderlei Ceolin: o produtor estima ganhos de 50% no preço recebido pela fruta
São características que motivaram os produtores a pleitear, junto ao Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), o selo de certificação demográfica, que atesta que a natureza da região influencia o sabor do fruto, fazendo daquele produto o único no mundo. Diante disso, fica fácil entender porque a região detém 95% da produção do Estado, terceiro maior produtor nacional. No total, são mais de 18 mil hectares plantados e mais de 280 produtores envolvidos, de acordo com a Associação dos Cacaucultores de Linhares (Acal).
“Hoje 60% da produção da região está direcionada para a produção de frutos de maior qualidade, e a tendência é que cheguemos a 100% da produção certificada. O importante é termos padrão de qualidade, com volume para atender ao mercado”, ressalta o presidente da Acal, Guilherme Chicon Mosca. Dono de 65 hectares, 35 deles ocupados por cacau, o produtor se diz animado com a nova possibilidade de negócio. “Temos que encontrar meios de sair um estudapouco das oscilações do mercado convencional”, pondera.
Ganhos: Guilherme Mosca, presidente da Acal, defende foco em novos mercados
O projeto também trabalha com a renovação das lavouras do Estado. Com o uso de genética e técnicas de produção de “clones”, são desenvolvidas variedades de cacau bem mais produtivas e imunes à grande doença que quase varreu o fruto do solo brasileiro, a vassoura-de-bruxa. “As novas variedades oferecem um ganho de 50% na produtividade, além de produzirem frutos de melhor qualidade e serem resistentes às principais pragas”, revela o diretor da Comissão Executiva de Planejamento da Lavoura Cacaueira (Ceplac) – órgão vinculado ao Ministério da Agricultura e responsável pelo desenvolvimento de novas variedades, Paulo Siqueira. Para se ter ideia, a média de produção da região é de 500 quilos por hectare. Com as novas variedades esse número sobe para mil quilos, podendo, em alguns casos, chegar a 3 mil quilos por hectare.
Para quem já enfrentou a vassoura-de-bruxa e perdeu quase toda a sua produção, essa evolução é vista com entusiasmo. “Estamos vivendo o maior ciclo de desenvolvimento na cultura do cacau dos últimos 30 anos”, revela o produtor Antonio Manuel de Jesus, que há mais de 50 anos cultiva o fruto em uma área de 100 hectares. “As variedades que estamos plantando hoje são muito melhores, mais produtivas e sustentáveis”, revela.
Além de manejos diferenciados no plantio e na colheita, toda a produção, feita em forma de cultivo e não extrativista, é rastreada e fiscalizada quanto aos teores buscados para os chocolates mais finos.
Ciclo renovado: o produtor Antonio de Jesus comemora produtividade das novas variedades
Tudo é processado na fábrica construída por Paulo Gonçalves, com investimentos de R$ 8,9 milhões, da qual a Puratos adquiriu participação majoritária logo após a sua inauguração, em maio último. “Hoje temos capacidade de processar 2,5 mil toneladas de líquor, produto que origina o chocolate, por ano. Mas até outubro iremos dobrar essa capacidade”, revela Gonçalves, que já vislumbra melhoras no processo. “Já estudamos o uso de um tipo de levedura que poderia acelerar a fermentação do cacau, o que consequentemente melhoraria seu sabor”, prevê.
R$ 22 milhões É quanto a Puratos irá investir
na produção do Espírito Santo
perspectiva de um mercado tão “saboroso” já vem atraindo o apetite de novos investidores. Esse é o caso do empresário Vanderlei Ceolin, que há sete anos resolveu entrar de cabeça no mundo do cacau. Hoje ele planta 350 hectares, 100% irrigados, e já produz uma média de 2 mil quilos por hectare. “Desde que implantei minha produção, investi em genética e cuidados como fertirrigação. Minha expectativa é de que com esse modelo diferenciado e tendo um produto de grande qualidade, tenhamos um retorno muito grande. É um ótimo negócio”, diz.
Um fruto diferente
O capixaba:
Variedade desenvolvida no ES
O cacau é resistente a doenças como a vassoura-de-bruxa, o que reduz o custo de produção
O desenvolvimento genético garante produtividade média de uma tonelada por hectare
Menor quantidade de polpa reduz o tempo de fermentação e garante maior qualidade do chocolate
O forasteiro
Fruto cultivado no extrativismo
Como cresce na mata, é muito vulnerável a doenças e necessita de manejos caros
Plantada no meio da mata, a produtividade média dessa variedade é de 500 quilos
Os frutos são uniformes, o que dificulta uma produção de qualidade de forma constante