01/09/2010 - 0:00
E m meio às montanhas que cortam os pampas gaúchos, o criador Geraldo da Paixão Jesus observa atentamente seu rebanho de ovelhas que pasta livremente. A alguns metros dali, num pequeno armazém, seu braço direito na propriedade, Gildo Anhanha, se prepara para o trabalho mais importante do dia: a tosa, ou esquila como é chamado no Rio Grande do Sul, das ovelhas. Com habilidade ele deita o animal e com a ajuda de uma máquina vai raspando os pêlos cuidadosamente. Em poucos minutos, a ovelha já está “pelada” e pelo chão se espalha a lã. Um produto que há alguns anos deixou de ser valorizado por conta da grande alta no preço da carne do animal, mas que na pequena propriedade de Geraldo, a Cabanha Nossa Senhora, continua sendo um produto nobre. Nos 300 hectares da fazenda, localizada no município de Bagé (RS), ele mantém cerca de 300 ovelhas da raça merino australiano, todas focadas em genética voltada para a produção desses fios. Com isso, ele consegue produzir uma lã fina, de cor clara e fios longos. Características que tornam seu produto nobre, matéria-prima para roupas de grifes e que lhe oferece um preço diferenciado pelo produto. “A lã comum é vendida a US $ 2 o quilo, eu consigo obter US $ 5 o quilo. É um ótimo negócio”, garante o produtor, que ainda é uma exceção nesse negócio. “Mas mesmo com o bom preço, os criadores ainda não enxergaram as possibilidades desse mercado de lãs finas e poucos a produzem”, diz.
Coisa fina Com investimento em genética, criadores conseguem ampliar em seus rebanhos a presença de animais que forneçam fios mais claros, longos e, principalmente, mais finos, abaixo das 20 micras. Essa matéria-prima dá origem a roupas de grifes e ternos de alta qualidade, vendidos a R$ 5 mil.
US$ 5 é quanto o mercado paga pelo quilo da lã mais nobre. O valor é mais do que o dobro se comparado com o fio tradicional
Mas essa realidade em breve poderá mudar. Com objetivo de reduzir sua dependência internacional pela matéria-prima, a Paramount, um dos maiores grupos têxteis da América Latina, com faturamento de R$ 230 milhões, está investindo no fomento de produção de lãs finas no Sul do Brasil. Afinal, é esse tipo de fio que origina alguns dos ternos mais valorizados da marca, que chegam a ser vendidos a R$ 5 mil. “Hoje importamos da Austrália praticamente toda a lã fina que utilizamos. Mas o Brasil tem potencial para suprir boa parte dessa demanda e por isso estamos investindo”, diz o diretor da divisão de tops de lã da empresa, Cláudio Bortolini. Para tanto, a companhia mantém há seis anos, em parceria com a Embrapa, o Programa de Afinamento da Lã. Um projeto que trabalha disseminando a genética de animais aptos para gerar uma lã abaixo das 20 micras, padrão que determina a consistência do produto e, consequentemente, sua maior qualidade. A empresa adquire animais reprodutores e doa para cooperativas de criadores, que cruzam os animais nos seus rebanhos. Nos seis anos do programa já foram doados cerca de 300 animais, que já inseminaram 50 mil ovelhas. “Hoje conseguimos comprar fios de uma qualidade que antes não se via no País”, comemora o diretor, que acredita que a produção desse tipo de lã deverá crescer nos próximos anos. Hoje a empresa compra de 4 mil a 4,5 mil quilos de lã por ano, mas poderia comprar até 7 mil quilos. A ideia é que nos próximos anos, ela reduza a importação de lãs finas em pelo menos 10%. “Para nós, seria muito mais vantajoso comprar o produto de criadores do País do que arcar com todos os custos de importação, além de enfrentar toda a concorrência internacional.”
Do lado dos produtores, direcionar a produção para lãs finas pode significar um interessante nicho de mercado. “É vantajoso porque você atua em um segmento diferenciado com alto valor agregado. Até porque, os produtores podem fazer uma criação voltada para lã e carne lucrando nos dois lados”, pondera o criador Geraldo. Com experiência de quem há mais de 50 anos atua na comercialização de animais de elite e tem alguns dos exemplares mais premiados do País, ele explica que para isso é preciso ter um bom manejo de abate. “Você precisa trabalhar com a lã dos pais reprodutores e comercializar a carne dos filhos”, finaliza.