“Estamos na lista porque fizemos tudo certinho. A outra fazenda ficou de fora sem nenhum motivo aparente”

Paulo César Paiva, pecuarista

O ano de 2008 poderá ficar para sempre na memória do mineiro Paulo César Paiva. Proprietário de uma das 106 fazendas liberadas pela União Européia, o pecuarista ficou sabendo da inclusão de uma de suas propriedades na seleta lista divulgada em fevereiro apenas por meio da imprensa. Na hora, não entendeu muito bem o que estava acontecendo ou quais vantagens teria, mas mesmo assim comemorou, afinal seria um dos poucos habilitados a fornecer “matériaprima” para o cobiçado mercado europeu. Um prêmio para quem sempre primou pelas boas práticas no manejo de seus animais. Mas um pequeno detalhe ainda incomodava o pecuarista…

Paiva conta que passou a rastrear seus animais logo que o Sisbov foi implantado, em meados do ano 2000, e sempre tocou o negócio dentro das regras estabelecidas. Com isso, sempre teve a certeza de que seria aprovado. Acertou em parte. Isso porque uma de suas fazendas, em Araguari, no triângulo mineiro, atendeu a todas as exigências sanitárias e burocráticas da União Européia e passou pela rigorosa fiscalização. Já sua outra propriedade, distante poucos quilômetros dali e que também atende às exigências, ficou de fora. O motivo? Ninguém sabe ao certo.

TUDO EM ORDEM: Paiva exibe os documentos que comprovam a rastreabilidade de seus animais, agora mais valorizados

“Estamos na lista porque fizemos tudo certinho. Mas tem muita gente que também fez e ficou de fora. Se eu não estivesse na lista, com certeza ficaria indignado pela falta de critério”, afirma Paiva. “A outra fazenda ficou de fora sem nenhum motivo aparente. Talvez seja porque ela está rastreada há menos tempo, mas nada é muito claro. A outra propriedade é administrada exatamente da mesma forma, com os mesmos cuidados, só que está no Sisbov há menos tempo”, argumenta o pecuarista, que, no entanto, não se mostra muito preocupado com a situação.

Mesmo com uma propriedade e mais de 400 cabeças de gado fora da lista, Paiva pode usar a fazenda aprovada para exportar. Basta transferir os animais de uma de suas fazendas para a outra, uma vez que todo animal rastreado precisa ficar apenas 40 dias na propriedade habilitada antes de ser vendido. “Respeitando isso, você pode transferir os animais sem problemas. Eles estarão aptos para a exportação do mesmo jeito”, conta. Com a escassez de fazendas aprovadas neste primeiro momento e a significativa diminuição na oferta, os preços dispararam. Hoje os frigoríficos pagam um prêmio de até R$ 10 por arroba para as fazendas que figuram na lista.

Mas os altos preços não convenceram a todos. Muitos criadores seguem resistentes e não pretendem rastrear seus animais. De acordo com eles, os investimentos não compensam. Em visita ao triângulo mineiro, uma das regiões agraciadas pela parca lista ministerial, muitos pecuaristas consultados por DINHEIRO RURAL disseram não estar preocupados por ficarem de fora. Eles afirmam que focarão apenas o mercado interno. Mas há também o grupo dos revoltados. É o caso de Thiago Fonseca, dono da Fazenda São José, tida como modelo inclusive pelos frigoríficos da região. Fonseca conta que nem sequer foi visitado pelas autoridades de fiscalização e, segundo ele, só por isso ficou de fora da lista.

Uma nova lista de fazendas aprovadas deve ser divulgada no início de abril e, de acordo com especialistas, o Estado de Minas Gerais pode mais uma vez ser o destaque, assim como na primeira relação, quando teve 87 das 106 fazendas aprovadas, graças ao bom trabalho realizado por Gilman Viana, secretário da Agricultura do Estado.

Agora, só resta aos pecuaristas aguardar pela nova lista, que será elaborada por auditores treinados para trabalhar de acordo com a metodologia da União Européia. É aguardar para ver.

OS NÚMEROS DA CARNE NO BRASIL

106 fazendas estão na lista de aprovadas para exportar para a União Européia

87 destas propriedades estão localizadas no Estado de Minas Gerais

R$ 10 por arroba é o bônus pago pelos frigoríficos aos fazendeiros certificados

R$ 140 mil animais foram exportados do Pará para o Líbano apenas em 2007

R$ 140 milhões foi o faturamento dos paraenses com a exportação do gado em pé