01/09/2011 - 0:00
O dia 18 de agosto foi um dia especial para os executivos Fábio Venturelli e Miguel Rossetto. Venturelli, CEO do Grupo São Martinho, de Limeira, controlado pela família Ometto, e Rossetto, presidente da Petrobras Biocombustível, riam à toa. E com razão. Parceiros na joint venture que deu origem à Nova Fronteira, companhia para a produção de biocombustíveis e bioenergia, formada em junho do ano passado, eles anunciaram investimentos de R$ 520,7 milhões em um projeto e tanto: transformar a usina Boa Vista, localizada em Quirinópolis, no interior de Goiás, na maior produtora de etanol de cana-de-açúcar do mundo.
“ Queremos alcançar 500 mil megawatts de energia gerada em nossas unidades ”
Pedro Parente,
presidente da Bunge
“ Vamos gerar 1,2 milhão de megawatts de bioeletricidade de cana em 2014” ”
Jacyr Costa Filho,
presidente da usina Guarani
Nela, o grupo pretende ampliar a capacidade de moagem da cana dos atuais três milhões de toneladas para oito milhões de toneladas até a safra 2014/2015. Esse volume será revertido para a produção de 700 milhões de litros de etanol e 600 mil megawatt/hora (MWh) de energia elétrica excedente. “Os investimentos são essenciais para alavancarmos a nossa capacidade de produção e aumentarmos a oferta de etanol no mercado”, diz Venturelli, que irá presidir a Nova Fronteira Bioenergia. Assim como ele, os comandantes dos grupos Bunge, Odebrecht e Tereos Internacional estão aproveitando a expansão do etanol para gerar cada vez mais energia elétrica a partir dos resíduos da cana-deaçúcar utilizada nas usinas. Há bons motivos para investir nessa terceira onda da cana-de-açúcar.
Primeiro, o aquecimento da economia brasileira, que cresceu 7,5% em 2010 e irá aumentar mais 4% a 5% este ano, faz voltar à tona o receio de um novo apagão energético, que possa comprometer as atividades da indústria. Some-se a isso o gosto amargo que o setor sucroenergético ainda sente, graças à baixa produtividade da safra 2010/2011, em grande parte devido aos problemas climáticos enfrentados e ao envelhecimento dos canaviais. A colheita de uma cana de baixa qualidade significou uma menor concentração de açúcar e baixa rentabilidade. “Não tínhamos queda na produção nacional há pelo menos dez anos”, diz Amaryllis Romano, economista da Tendências Consultoria, em São Paulo. Segundo a União da Indústria de Cana-de- Açúcar (Unica), a safra 2010/2011 colheu 556,74 milhões de toneladas de cana na região Centro- Sul, enquanto a previsão para o período 2011/12 é de 568,50 milhões de toneladas, um crescimento de apenas 2,11%.
Diante desse cenário, investir nos canaviais e nas usinas pode significar a saída para os dois problemas e uma oportunidade de negócios. Cada vez mais, as empresas enxergam na geração de energia elétrica a partir do bagaço da cana uma alternativa sustentável de eliminar resíduos e atrair mais divisas. Segundo dados da Unica, das 438 usinas de cana existentes no Brasil, 129 já geram energia excedente para a venda em leilões públicos. Isso significa que, além de serem autossuficientes no consumo de energia, elas ampliam a oferta, abastecendo as distribuidoras. Entre 2005 e 2010, o setor deu um salto e tanto na comercialização de energia. Passou do 1,1 milhão de MWh para 9,2 milhões de MWh, um acréscimo de 736%. Esse volume significa uma receita extra para o setor, de R$ 1,3 bilhão. “O que as usinas geram de excedente corresponde a cerca de 3% do total consumido no País”, afirma Zilmar José de Souza, gerente de bioeletricidade da Unica. Essa produção é suficiente para abastecer cinco milhões de residências durante o ano inteiro.
Um estudo elaborado pelo Comitê de Bioeletricidade do Centro Nacional das Indústrias do Setor Sucroenergético e Biocombustíveis (Ceise Br) indica que há potencial de inserção anual de cerca de mil megawatts (MW) ao ano de energia gerada a partir do bagaço da cana. “Se houver investimentos nessa área, até 2020 seremos capazes de atender a 15% da necessidade do País”, diz Souza. O percentual significa aproximadamente 13.158 MW médio, o que equivale a três vezes a capacidade da polêmica usina hidrelétrica de Belo Monte, no Pará, a terceira maior do mundo, cuja garantia física instalada será de 4.571 MW médio, em 2019, quando estiver operando com capacidade total. “Além disso, o impacto ambiental com o uso do bagaço de cana também é menor, porque a geração de energia é feita dentro da própria usina”, diz o consultor Onório Kitayama, ex-presidente da Unica, que participou da implantação do Proálcool. Kitayama sabe do que está falando: um estudo da Unica mostra que no ciclo total da bioeletricidade são emitidos 60 quilos de CO2 por MWh de energia gerada, enquanto a emissão do ciclo total na queima de óleo é de 870 quilos por MWh e 380 quilos por MWh no gás natural.
Infraestrutura: o investimento mínimo necessário para a geração de energia elétrica em uma usina de cana-de-açúcar é de R$S 241,5 milhões
Com esse potencial, as grandes empresas já investem na cogeração. É o caso da subsidiária brasileira do Bunge, um dos maiores grupos com origem no agronegócio do mundo. Comandada pelo ex-ministro-chefe da Casa Civil, no governo FHC, Pedro Parente, a empresa atua desde 2006 no setor sucroalcooleiro. Começou com uma usina, e hoje tem oito unidades que, além do açúcar, produzem etanol e geram energia excedente. Só a usina de Pedro Afonso, no Tocantins, receberá investimentos de R$ 32,2 milhões para gerar 180 mil MWh de energia a partir de 2013. No total o grupo investirá R$ 3,9 bilhões no setor sucroenergético até 2016 e deve ampliar em 50% a capacidade de moagem no Brasil, chegando a 300 milhões de toneladas por ano, o que significa aumento na produção de açúcar, etanol e energia. “Queremos alcançar os 500 mil MW de energia gerada pelas nossas unidades até 2013. Com isso, reforçamos nosso compromisso em continuar ajudando no desenvolvimento do agronegócio”, diz Parente. O volume seria suficiente para abastecer por um ano, uma cidade com cerca de quatro milhões de habitantes. Atualmente, a companhia gera 250 mil MW de energia por ano. Desse total, cerca de 30% é comercializado e o restante utilizado no consumo das próprias usinas.
Outras empresas também enxergam essa nova fonte de renda e geração de energia limpa como um bom negócio e apostam em investimentos. É o caso da ETH, do Grupo Odebrecht. “Desde o início da empresa, há quatro anos, pensamos em um projeto integrado, que pudesse extrair o máximo de produtividade de nossas plantas, de forma sustentável”, diz José Carlos Grubisich, presia g r o n e g ó c i o s dente da ETH. Até o final deste ano, o grupo terá todas as suas nove usinas gerando energia excedente. No final de 2012, serão R$ 8 bilhões de investimentos nas unidades, o que possibilitará à ETH produzir 3 bilhões de litros de etanol e 2,7 milhões de MWh de energia por ano. “Desse total, 80% da energia será comercializada”, diz Grubisich. A Usina Guarani, do grupo Tereos Internacional, também tem autossuficiência em todas as suas oito unidades e na safra 2010/11 comercializou 257 mil MWh de energia excedente. Há alguns meses, o grupo anunciou investimentos da ordem de R$ 767 milhões. Com isso, a capacidade de processamento anual de cana passará dos 21 milhões de toneladas, para 24,5 milhões. “Também teremos um salto na geração anual de energia, passando dos 259 mil MWh para 1,2 milhão de MWh em 2014”, diz Jacyr Costa Filho, presidente da Guarani.
“Pensamos em um projeto integrado, que pudesse extrair o máximo da produção” José Carlos Grubisich, presidente da ETH Bioenergia
“A bioeletricidade é capaz de sanar o déficit das hidrelétricas”
Onório Kitayama,
ex-presidente da Unica
Viabilizar um projeto bioenergético a partir da cana requer investimentos tanto do setor privado, quanto do setor público. Nas usinas, os investimentos mínimos previstos para a construção da estrutura para a geração de energia giram em torno de US$ 150 milhões, o equivalente a R$ 241,5 milhões, para instalação de caldeiras, turbogeradores e processadoras do bagaço e também da palha da cana, que tem o dobro de capacidade para gerar energia. Além disso, para que a produtividade energética seja suficiente para gerar excedente, é preciso investir na reforma dos canaviais, que com idade avançada, começam a perder produtividade. “Mas também precisamos de investimentos em infraestrutura, na ampliação das redes de transmissão, por exemplo”, explica Kitayama.
sustentabilidade: o bagaço de cana pode gerar a energia equivalente a três vezes a capacidade da polêmica usina hidrelétrica de Belo Monte, no Pará, que será a terceira maior do mundo
Segundo ele, a energia gerada a partir do bagaço da cana é só uma parte do potencial produtor. “Se considerarmos a geração a partir da palha, teremos aí um acréscimo de 50% no total de energia a ser gerada pelo setor”, diz. Ele explica ainda que a grande vantagem da bioeletricidade é que ela sirva como energia complementar à hidroeletricidade, nos meses de estiagem, quando os reservatórios costumam ficar com níveis baixíssimos, durante os meses de abril a novembro. “Assim a bioeletricidade é capaz de sanar o déficit das hidrelétricas, afastando risco de racionamento”, diz Kitayama.
Outro ponto polêmico do setor refere-se ao modelo atual de realização dos leilões públicos de energia. O primeiro leilão deste ano foi realizado em 17 de agosto para atender à demanda do mercado das distribuidoras. O pregão negociou para 2014 um total de 285,509 milhões de MWh, movimentando R$ 29,14 bilhões, com preço médio final da licitação de R$ 102,07/MWh. “O problema é que a bioeletricidade concorre com outras energias, como a eólica e as térmicas de gás natural, por exemplo”, diz Souza, da Unica. “São coisas diferentes.” Para Adalgiso Telles, diretor de sustentabilidade da Bunge, o mais preocupante é a insegurança jurídica. “Para quem investe, ter uma legislação consistente é fundamental para poder planejar no longo prazo e obter retorno”, diz. Ele cita como exemplo a questão da discussão da porcentagem de etanol na gasolina. “São muitos os desafios. Temos discutido tudo isso com o governo federal, mas falta empenho para viabilizar essas mudanças”, diz Souza.