01/04/2011 - 0:00
Frank Hardimon: acompanha de perto os testes e cultivos da planta
Esguia, saudável e alta, ela não está nas passarelas mais badaladas do mundo, mas, mesmo assim, causa alvoroço aonde chega. Há quem diga que se parece bastante com o capim cidreira, planta utilizada para fazer chás calmantes. Outros acham até que ela tem uma leve semelhança com a cana-de-açúcar. Talvez esta última afirmação faça algum sentido, já que, nos Estados Unidos, ela mostrou ser altamente rentável na produção de biocombustível, superando o rendimento do etanol de milho, por exemplo. Apesar das comparações, a gramínea batizada de Switchgrass tem algo especial que a diferencia de todas as outras plantas. É altamente resistente ao sal. Isso, graças aos anos de pesquisas, encabeçadas pela empresa americana Ceres, voltada para o desenvolvimento de plantas e sementes mais resistentes. Desde 1997, o grupo já investiu US$ 150 milhões em pesquisas de novas variedades.
Os estudos começaram no final dos anos 1990. Os pesquisadores da Ceres conseguiram desenvolver uma variedade da gramínea que tolera até seis vezes mais sal que a planta convencional.Também chegaram a um tipo de arroz tolerante ao mesmo mineral, que, por enquanto, vem sendo testado em campos na Índia e China. “Temos estudado cerca de 100 mil genes e este especificamente fez todo mundo dizer: uau!”, diz Frank Hardimon, diretor de vendas da Ceres nos Estados Unidos, ao explicar o que a descoberta dessa variedade representa para a companhia e também para o mercado.
A nova planta significa um alento para regiões onde o solo está muito degradado ou sujeito a condições adversas de clima. Geralmente, esses locais são impróprios para o cultivo, representando prejuízos ao proprietário da terra. Ou, então, necessitam de altos investimentos para que o solo seja corrigido, o que muitas vezes não compensa. Segundo Hardimon, testes em áreas onde a seca prejudica o cultivo de grãos, a Switchgrass demonstrou rendimentos de aproximadamente 19 toneladas de biomassa por hectare. Assim, mostrou-se rentável para a fabricação de biocombustíveis e geração de energia limpa a partir da biomassa que já vem sendo testada em usinas para geração de energia. Em condições de solo e água com grande concentração de sal, a variedade se desenvolve normalmente, enquanto outras plantas similares secam e morrem em pouco tempo. “A Switchgrass necessita de poucos cuidados e isso faz com que os custos e perdas sejam reduzidos, aumentando o lucro do produtor”, afirma Hardimon. Além disso, a planta vem sendo usada como forrageira, alimentando rebanhos.
testes: em solos degradados, a Switchgrass se desenvolve, enquanto a similar não sobrevive
resistência: a planta cresceu inclusive dentro da água salgada
multiuso: seus resíduos se convertem em energia limpa
O executivo explica ainda, que a Ceres vende outros dois tipos de sementes de gramíneas. Todas elas, mostram as pesquisas com os clientes, vêm apresentando ganhos entre 5% e 30% superiores às similares nos mercados americano e europeu.
geração de energia: a empresa testa a biomassa resultante do cultivo para produzir energia na Califórnia
Mas, atenção: os pesquisadores alertam que a variedade foi desenvolvida especificamente para solos dos Estados Unidos e que não são adequadas à realidade brasileira. “Temos outros produtos voltados especificamente para o agronegócio brasileiro”, diz Willian Burnquist, diretor de operações da Ceres no Brasil. A empresa, de olho no potencial do mercado nacional, deve instalar em breve sua primeira unidade por aqui, com centro de pesquisas para desenvolver variedades de sorgo sacarino, também uma alternativa para a produção de etanol.
No Brasil, existem algumas gramíneas similares ao Switchgrass. Os capins Colonial, Mombaça, Tanzânia e Elefante são alguns deles. Porém, todos eles são utilizados como forrageiras ou pastagens. “Pesquisas para uso dessas plantas para geração de combustível ainda estão muito no começo”, afirma Hugo Molinari, pesquisador da Embrapa Agroenergia. Segundo ele, a estatal vem desenvolvendo estudos para verificar o volume de biomassa produzido por essas e outras variedades. “No futuro, pode ser que elas se mostrem rentáveis para a produção de biocombustíveis também”, diz Molinari.
A superplanta
Testes demonstraram que a Switchgrass, variedade de gramínea desenvolvida pela Ceres, é mais rentável do que as concorrentes convencionais
Diferencial:
tolera até 6 vezes mais sal que as gramíneas comuns
Utilidade:
produção de biocombustível, energia e forrageiras para bovinos
Rendimento:
entre 5% e 30% superior às variedades comuns
Biomassa:
em média 19 toneladas por hectare