US$ 3,8 bilhões foi o valor desembolsado pela vale na aquisição dos negócios de fertilizantes da Bunge no Brasil

No dia 27 de janeiro, a Vale desembolsou US$ 3,8 bilhões para a aquisição dos negócios de fertilizantes da Bunge no Brasil, incluindo a fatia de 42,3% da Bunge na Fosfertil. A notícia que soou como novidade para muitos já era esperada há longa data pelo ex-ministro da Agricultura Marcus Vinícius Pratini de Moraes, hoje consultor do Friboi. Em 2000, quando ainda estava à frente do ministério, o economista teve acesso a um estudo que apontava o crescimento da dependência da importação de fertilizantes nas próximas décadas. “Aquilo nos trouxe preocupação não pela importação, mas por causa dos preços, fator que deixa a agricultura vulnerável”, conta Pratini de Moraes. Naquela época, o ministro não perdeu tempo.

“Fiz um apelo para que a Vale, com sua experiência, ingressasse na área dentro e fora do Brasil”, explica. A ideia era que não só a Vale, mas também outras empresas privadas com sede no Brasil entrassem no negócio de fertilizantes para aumentar a oferta no País. Dez ºanos depois, o pedido de Pratini de Moraes foi atendido. “A aquisição destes novos ativos facilita a estratégia de rápido crescimento da Vale, viabilizando a criação de um líder global na indústria de fertilizantes”, comentou Roger Agnelli, presidente da Vale, no dia da compra.

Mas a Vale não se deu por satisfeita. Logo na sequência, comprou por US$ 785 milhões a participação de 15,4% da norueguesa Yara na Fosfértil. Ainda adquiriu as fatias menores da Heringer e da Fertipar e, por último, fechou a compra de 20,27% da americana Mosaic. Conclusão: US$ 4 bilhões depois, a Vale passa a deter 78,9% do capital da Fosfertil. Agora resta a pergunta: o que isso significa para o setor? Na opinião de Mauro Osaki, pesquisador do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), “a médio prazo, não muda nada para o agricultor”. Os benefícios, segundo ele, podem vir em médio prazo, se a Vale for tão eficiente em fertilizantes quanto é em mineração. Para Pratini de Moraes, que falou com a reportagem da DINHEIRO RURAL de Nova York, onde participava de uma reunião sobre o papel do Brasil na agricultura global, o ingresso da Vale aconteceu na hora certa. “O Brasil dentro de seis anos vai ser o maior exportador de alimentos do mundo, mas tem limitações em três áreas: fertilizantes, logística e marketing”, diz. Mas o ex-ministro espera que a companhia invista em exploração de minas não só no Brasil, mas no Exterior, principalmente em cloreto de potássio.

Com as aquisições, aVale passará a tocar várias minas de rocha fosfática, diversas fábricas de produção de fertilizantes, uma unidade de ureia e outra de nitrato de amônio. A companhia ainda não revelou quem será o encarregado por tocar o setor. Por enquanto, tudo indica que será Ruben Fernandes, que já estava à frente do departamento de fertilizantes da companhia antes das aquisições. Outra possibilidade aventada pelo mercado é o executivo Mário Barbosa, até então presidente da Bunge Fertilizantes. No entanto, o executivo, quando procurado pela reportagem de DINHEIRO RURAL, não confirmou nem negou qualquer informação. O fato é que, além de estratégicas, as aquisições da Vale no setor podem, sim, beneficiar a agricultura nacional. “Esta operação é de fundamental importância para a consolidação da estratégia da Vale em focar o Brasil como o grande mercado para sua produção de fosfatados, tendo em vista o potencial das minas locais, bem como o crescimento dos projetos desenvolvidos no Exterior, como Bayóvar (no norte do Peru) e Evate (em Moçambique), todos com produção prioritariamente destinada ao mercado brasileiro”, diz Agnelli. Em outras palavras, a Vale ficou mais fértil e a Bunge mais saudável.