O grupo Potencial, empresa brasileira familiar do setor de distribuição de biocombustíveis e do agronegócio, elevou para cerca de R$ 6 bilhões seu plano de investimentos até 2030, considerando ampliação das capacidades para seus projetos de etanol de milho e da esmagadora de soja que vai atender a sua indústria de biodiesel, disse um alto executivo da companhia à Reuters.

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A Potencial, com sede no Paraná, segundo Estado produtor brasileiro de grãos, havia anunciado em agosto do ano passado o projeto de etanol de milho. Mas decidiu mais do que dobrar a capacidade de processamento do cereal em relação aos planos iniciais, para 2,6 milhões de toneladas ao ano, pois considera que a guerra no Irã, que elevou os preços do petróleo, vai trazer oportunidades para o setor de biocombustíveis do Brasil.

Já a processadora de soja do grupo, inaugurada nesta quarta-feira, 25, no complexo da empresa em Lapa (PR), também terá sua capacidade mais que dobrada ante a atual para 2,5 milhões de toneladas ao ano, para atender a demanda por óleo de soja que será consumido na fábrica de biodiesel da companhia, segundo os novos planos da Potencial.

Hoje a usina de biodiesel da empresa já pode produzir 900 milhões de litros ao ano — sendo com isso a maior unidade produtiva individual do combustível nas Américas, segundo dados da Potencial. Mas ela passará a ter uma capacidade de 1,65 bilhão de litros até o início de 2027.

“A Potencial é uma empresa que acredita na verticalização dos processos… e um dos ‘starts’ para os planos de expansão foi questão da guerra dos EUA com o Irã…”, afirmou Carlos Eduardo Hammerschmidt, vice-presidente Comercial, Relações Institucionais e Novos Investimentos do Potencial, além de integrante da família fundadora da empresa.

A revisão dos investimentos elevou o total de aportes estimados na usina de etanol de R$ 2 bilhões para R$ 3,5 bilhões, com expectativa de entrada em operação em três fases, em 2028, 2029 e 2030, finalizando com a capacidade total de 1 bilhão de litros. “A ideia é de que comece a executar o projeto até final de 2027”, disse.

Já a segunda fase da construção da esmagadora vai começar em 2028, com um investimento adicional de cerca de R$ 800 milhões, para R$ 2,6 bilhões.

“Queremos ter uma parte da produção do óleo de soja dentro de casa, mas mesmo assim teremos de comprar óleo no ‘spot’ para suprir a fábrica de biodiesel”, disse o vice-presidente da Potencial.

Com os projetos, a Potencial espera elevar seu faturamento anual até 2030 para R$ 20 bilhões, versus R$ 12 bilhões no ano passado. Segundo o empresário, a maior parte dos empreendimentos está sendo bancada com recursos próprios.

Entre os planos complementares do grupo — para dar ganho de escala, aumentar eficiência e reduzir custos — estão a construção de dois dutos de 55 km cada (um para etanol e outro de biodiesel) que ligarão a produção da empresa até o polo de distribuidoras de Araucária, na região metropolitana de Curitiba.

Além disso, a companhia está investindo em uma estação de tratamento de efluentes que permitirá a produção de 9 milhões de metros cúbicos de biogás ao ano, combustível renovável que moverá as caldeiras do complexo para geração de energia, juntamente com biomassas, como cavaco de madeira. No processo, haverá tratamento de água que será utilizada no resfriamento da planta industrial.

Biocombustíveis e soberania

Segundo ele, os impactos da guerra, que elevaram os preços do petróleo e ampliaram o risco de escassez, demonstraram que “o Brasil ainda não está 100% preparado para suprir a necessidade de combustíveis”.

“Hoje o Brasil é dependente de 25% a 30% de diesel fóssil importado”, afirmou ele, notando que um aumento da mistura de biodiesel no diesel poderia reduzir o risco de desabastecimento, que é “grande”. O país usa hoje 15% de mescla do biocombustível.

O empresário destacou que “a preocupação não é só com a guerra, mas sim no pós-guerra”.

“A reconstrução de todas essas refinarias destruídas, estoques, portos, isso não vai acontecer em um ano”, afirmou, estimando que essa conjuntura deverá manter o petróleo próximo de US$100 o barril nos próximos anos. “Os biocombustíveis são a solução para o Brasil para se tornar independente da importação.”

Hammerschmidt lembrou que alguns países estão considerando aumentar o uso de etanol na mistura da gasolina, e que o Brasil teria opção de ampliar a mescla atual de 30%. Da mesma forma, o país poderia ampliar o uso de biodiesel no diesel, já que tem colhido safras recordes de soja e milho, além de ter uma indústria de álcool de cana-de-açúcar consolidada.

Ele comentou que a Indonésia já mistura 40% de biodiesel no diesel e está considerando elevar o percentual para 50%, enquanto o Brasil teria capacidade industrial para atender um B20 (diesel com mistura de 20% de biodiesel).

“O biodiesel e o etanol são garantia da soberania energética nacional”, afirmou.