No verão do ano passado, enquanto a seca comprometia os pastos, na metade sul do Rio Grande do Sul, os preços do arroz estavam, como hoje, abaixo do valor mínimo estipulado pelo governo federal, de R$ 25,80 por saca de 50 quilos, e abaixo do custo de produção de, no mínimo R$ 25. Por causa das importações elevadas, em 2010 sobrou arroz no mercado. Neste ano, o fenômeno volta a se repetir. Não são as importações, porém, que enchem os silos, mas a abundância da atual safra (2011/2012) de 14 milhões de toneladas. Segundo a consultoria Safras & Mercado, sobra arroz, porque o consumo no País é de 12,9 milhões de toneladas. Sem contar ainda que o setor entrou, nesta safra, com estoque de 1,8 milhão de toneladas e importou 700 mil toneladas do grão. Mesmo com a exportação de 1,3 milhão de toneladas, neste ano, ainda sobra 1,5 milhão de toneladas de arroz.

Medida: a ideia é escoar o excedente da safra e garantir o preço mínimo ao agricultor

Já no verão de 2010, com os pastos secos, a opção para a engorda dos bovinos da Estância Guatambu, do criador Valter Pötter, localizada em Dom Pedrito (RS), foi substituir a alimentação dos animais, à base de de soja e milho, pelo arroz. “Como precisava entregar bois para um frigorífico, e com o milho em alta e o arroz não valendo nada, surgiu a ideia de testar arroz na ração”, diz. No início, segundo Pötter, o arroz em grão foi testado na ração de 20 bovinos. Os resultados apontaram um ganho de peso de 1,2 quilo por cabeça/dia e um custo 20% menor que o da ração à base de milho. “Normalmente, o ganho era de 1,3 quilo por cabeça.” Segundo Pötter, além da engorda satisfatória, o sabor da carne não sofreu alteração. A partir da experiência bemsucedida, a maioria dos pecuaristas da região começou a usar o arroz em grão na alimentação do rebanho. “De lá para cá, a ideia se multiplicou”, diz Pötter. Assim começou a pressão em cima do governo gaúcho para apoiar os rizicultores a escoar o excedente do arroz. O incentivo seria no grão do tipo 2 ou 3, de qualidade inferior para o consumo humano.

O pedido acabou sendo estendido ao governo federal, que autorizou, em agosto, a realização de leilões para apoiar os produtores de arroz do Sul. Serão 500 mil toneladas do grão, comercializadas até o final deste ano. A subvenção se destina ao agricultor que comprovar a venda do cereal para criadores de aves e suínos. Nem todo mundo, no entanto, apoia essa iniciativa. Para Francisco Turra, presidente da União Brasileira de Avicultura (Ubabef), o uso do arroz na ração do frango pode comprometer a qualidade da carne, tão apreciada no mercado externo. “O milho é o responsável pelo sabor da carne de frango do Brasil”, diz Turra. “Como desconheço estudos que comprovem que o arroz terá o mesmo resultado, não recomendo a substituição.”

 

Segundo Eduardo Aquiles, analista de mercado de arroz da Safras & Mercado, as 500 mil toneladas a menos do grão nas mãos dos produtores podem ajudar a desafogar o setor e elevar um pouco as cotações do cereal. O preço pago pela saca de 50 quilos foi de R$ 23,86 em agosto. “Em setembro, os preços devem subir, mas não vão ultrapassar o valor mínimo”, diz.

No Estado gaúcho, a ideia de fornecer arroz como ração repercutiu tanto que já há estudos envolvendo ovinos. A professora Marta Rocha, da Universidade Federal de Santa Maria, lidera uma equipe de alunos que pesquisa o desempenho de 30 ovelhas. “O ganho até agora foi positivo, de 200 gramas dia por animal.” Em outubro, serão definidas as próximas etapas da pesquisa. “A necessidade de maior produtividade na ovinocultura e a crise no setor de arroz nos motivaram.”