Uma longa fila de caminhões abarrotou as rodovias de acesso a Santos, no litoral paulista, nos últimos três meses. O caos rodoviário espelhou a falta de infraestrutura do porto de Santos, principal polo de exportação de commodities do Brasil. Bastou o volume de cargas aumentar para a questão – que é antiga, mas usa máscara de emergente – expor sua fragilidade. Uma vergonha nacional que atravanca a vida de produtores rurais, cooperativas e tradings e compromete a imagem do agronegócio brasileiro lá fora. Em 2010, o porto registrou os cinco maiores embarques agrícolas de sua história, movimentando US$ 38 bilhões. As cargas de soja trouxeram US$ 16,4 bilhões ao País, mas quem sofreu mais com falta de infraestrutura foram os exportadores de açúcar, cujas cargas somaram US$ 11,1 bilhões, 48% a mais que em 2009. “A quebra nas safras de açúcar da Índia, Tailândia e Rússia provocaram esta grande demanda por açúcar brasileiro e o mercado de commodities cresceu muito por causa da safra recorde de grãos. Esses fatores geraram proproblemas”, justifica José Roque, vicepresidente da Federação Nacional das Agências de Navegação Marítima. “Mas o Conselho de Autoridade Portuária e a Companhia de Docas do Estado estão se empenhando em eliminar os gargalos dos caminhões”, emendou. Promessas como essas são antigas e continuam a percorrer o vácuo. Por isso, é a iniciativa privada que arregaça as mangas para solucionar o problema. Pelo menos, o do açúcar. Usinas e empresas de logística se unem e investem R$ 3 bilhões para reverter a matriz de transporte do açúcar tornando a malha ferroviária uma importante aliada para o escoamento da safra nacional.

Desordem e espera: sem infraestrutura, caminhões fazem fila para descarregar açúcar em Santos

Estima-se que 11 milhões de toneladas serão enviadas ao mercado externo até 2014. É o que garante a Rumo Logística, braço da Cosan para o transporte da commodity. O investimento de R$ 1,3 bilhão é para consolidar o modal ferroviário como o principal meio de transporte. “Avaliamos que esses investimentos têm ótimas condições para solucionar o gargalo logístico, pelo menos em relação aos embarques de açúcar”, acredita Júlio Fontana, presidente da Rumo Logística. “O Brasil é responsável por mais de 60% do açúcar a granel exportado no mundo, suprindo importantes mercados internacionais, e não pode esperar.” Os investimentos da Rumo estão sendo feitos sob os trilhos da América Latina Logística (ALL ). “Compramos 729 vagões e 50 locomotivas especiais para o transporte de açúcar. De imediato, isso retira das rodovias 30 mil caminhões por mês e diminui as filas no porto, agilizando o embarque”, completa. Fontana crê que os investimentos sejam expandidos para o transporte de soja no futuro. “É um programa completo de melhoria da malha ferroviária, um tipo de transporte que reduz todos os custos envolvidos.”

 

 

A empreitada da Rumo incluiu a fusão dos terminais Cosan e Teaçu e a construção de terminais de transbordo e armazenagem de açúcar no interior. “Os investimentos nos permitem escoar 11 milhões de toneladas/ano no porto”, diz Fontana, que também assinou com o Grupo São Martinho. “Foi um bom negócio para ambos os lados: a Rumo tem a garantia de um volume mínimo e nós, a garantia do escoamento no tempo certo”, analisa Fábio Venturelli, CEO do grupo. A parceria incluiu investimentos no terminal férreo da unidade Pradópolis. “A usina prestará o serviço de transbordo para uma quantia expressiva de açúcar de fabricação própria e de terceiros.”

A Copersucar também acredita na revitalização dos trilhos para garantir as exportações. “A movimentação de açúcar por ferrovias melhora a eficiência operacional e traz benefícios econômicos e ambientais”, diz Paulo Roberto de Souza, presidente da Copersucar. Com a Ferrovias Centro Atlântica (FCA), braço da Vale S.A, a entidade investirá R$ 1,5 bilhão na expansão da malha ferroviária e modernização de vagões para escoar três milhões de toneladas de açúcar em Santos até 2015. “É um transporte ágil, de custos reduzidos, e capaz de escoar uma quantidade maior de açúcar em menor tempo, sem sobrecarregar as rodovias e sem espera nas filas”, defende o diretor comercial da FCA, Fabiano Lorenzi. Através da parceria, os vagões são carregados no terminal da Copersucar em Ribeirão Preto, com capacidade de armazenagem de 70 mil toneladas, e depois segue para Santos. “Será possível reduzirmos 80 mil viagens rodoviárias/ano, quando conquistarmos a capacidade total de escoamento”, afirma o diretor. Lorenzi diz que, da origem ao destino, um dia de viagem de trem corresponde a seis dias de uma viagem rodoviária. Os 500 vagões que fazem parte do contrato ainda receberam melhorias tecnológicas no valor de R$ 60 milhões para reduzir de uma hora para dez minutos o tempo de descarregamento de açúcar por vagão, com capacidade para 60 toneladas cada um. “É a forma mais ágil de incrementar o escoamento da produção agrícola sem comprometer o prazo de entrega.”

 

Fontana, da rumo: “Vamos mudar a matriz do transporte de açúcar no Brasil”

 

Nos trilhos do açúcar

A grande diferença entre caminhões e trens no trecho Ribeirão Preto-Santos

Viviane Taguchi