01/04/2012 - 0:00
Produção: Fiatikoski, no dia da primeira colheita da nova soja transgênica
No próximo Natal, o agricultor Paulo Roberto Fiatikoski, ou Ticão, como gosta de ser chamado, vai comer peru, tomar vinho e festejar até de madrugada, sem se preocupar com lagartas, o pesadelo que mais teme quando vão se aproximando as festas de fim de ano. É nessa época, principalmente entre o Natal e o Ano-Novo, que as pragas da soja atacam as lavouras sem dó nem piedade. “Se a gente descuidar, as lagartas podem acabar com uma safra em poucos dias”, diz Fiatikoski, dono da fazenda São Miguel, de 1,2 mil hectares em Piracanjuba, a 87 quilômetros de Goiânia. A produção de Fiatikoski é de 3,3 mil toneladas de grãos por safra, junto com a criação de gado anelorado em sistema de integração lavoura-pecuária.
O drama de quem planta soja é tão grande naquela época do ano, em que a maior parte da cultura está com cerca de 60 dias, que Feliz Natal foi um dos nomes sugeridos pelos produtores para batizar as novas linhagens de sementes de soja apresentadas em março pela americana Monsanto, líder mundial na produção de sementes transgênicas. As 12 linhagens foram aprovadas pela Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio), e parte delas chegará aos produtores nos próximos meses para o plantio da safra 2012-2013. “Também estamos esperando a aprovação dessa soja na China e na Europa, os maiores importadores do grão brasileiro”, diz Rogério Andrade, coordenador de projetos da Monsanto. “Estamos definindo também quais linhagens são as mais produtivas e se tornarão variedades comerciais.”
A escolha das variedades que irão para o mercado será determinada pelo desempenho dessas linhagens em testes de campo. Eles estão ocorrendo em 500 fazendas espalhadas por nove Estados e Distrito Federal, em parceria com a fabricante de máquinas agrícolas americana John Deere, que forneceu equipamentos exclusivos para o plantio e a colheita.
Fiatikoski faz parte desse grupo de agricultores que testaram a soja transgênica pesquisada pelos cientistas da Monsanto há uma década, em busca de soluções para minimizar os estragos causados pelo ataque de lagartas nas culturas de cereais. As lagartas são as pragas mais constantes em áreas de clima quente, como o do Brasil. “Esses animais precisam se alimentar vorazmente de plantas, para se transformar em vespas em poucos dias”, diz Andrade. Culturas de soja, milho e feijão – leguminosas de modo geral – são um manjar dos deuses para as lagartas.
Andrade, que também é o coordenador do projeto Intacta, o nome comercial das novas sementes de soja, diz que a tecnologia para o controle das principais lagartas que atacam o cereal foi desenvolvida para as condições brasileiras. “O País já é um grande consumidor de soja transgênica que tem em seu gene a capacidade de resistir ao herbicida glifosato”, afirma Andrade. “Agora, avançamos para uma segunda geração da transgenia, com plantas resistentes a inseticida.”
TERA BOA: Andrade diz que a soja transgênica de segunda geração será mais produtiva no campo, como mostraram os testes nas fazendas
No ano passado, foram plantados 30,3 milhões de hectares de transgênicos no País, dos quais a soja ocupou 20,6 milhões de hectares, segundo dados do Serviço Internacional para a Aquisição de Aplicações em Agrobiotecnologia (Isaaa). “Pela importância do Brasil para a Monsanto, esta é a primeira vez nos mais de 100 anos da empresa que um projeto é desenvolvido e lançado fora da matriz americana”, diz Andrade. “Outra decisão de peso foi a realização dos testes em fazendas e não em áreas experimentais, como é regra nos lançamentos de produtos.”
Para dar segurança aos testes, a Monsanto montou uma operação de guerra, que começou no fim de 2010. A primeira etapa foi escolher o grupo de agricultores para testar as linhagens da soja, entre 700 produtores que se interessaram em ceder parte de suas terras para o plantio. A segunda etapa foi montar uma equipe de quatro gerentes nacionais e 38 agrônomos para monitorar as plantações. “Nossa meta era entrar em uma propriedade e testar as variedades na área que o agricultor utiliza normalmente”, diz Andrade. Em cada fazenda foi reservado meio hectare protegido por uma espécie de cordão natural com cultivo de milho, para evitar que a soja em teste fosse colhida acidentalmente pelo produtor. “Além dessa proteção, não foi realizado nada fora do manejo tradicional de cada fazenda”, diz Andrade.
Fiatikoski diz que se interessou pelo desafio de testar as variedades de soja transgênica propostas pelos pesquisadores da Monsanto porque uma de suas preocupações é a quantidade de aplicações de inseticida que tem feito em suas lavouras, o que encarece o custo de produção. Hoje, o agricultor aplica inseticida em cada área plantada de três a quatro vezes por safra de soja, contra apenas uma aplicação há uma década. Em 2004, ele chegou a fazer mais de seis aplicações. Foi um ano catastrófico. “Na época cheguei a perder 30% da lavoura”, diz Fiatikoski. “As lagartas estão cada vez mais resistentes aos inseticidas e por isso toda tecnologia é bemvinda.” No Brasil, a média é 2,6 de aplicações de inseticida contra as três espécies mais comuns de lagarta – a lagarta da soja, a falsa medianeira e o elasmo. Segundo Lucas Ferreira, supervisor de campo da Monsanto, nos últimos anos têm surgido pragas oportunistas nas lavouras de soja, como os heliotes, espécie de lagartas do algodão. Hoje, o custo para o produtor combater as lagartas nas lavouras está entre R$ 30 e R$ 35 por hectare.
Além da proteção contra as lagartas, os testes de campo vão mostrar quais variedades são as mais produtivas e adaptadas às diversas regiões do País. Para o agrônomo Cristiano Palavro, coordenador de 15 campos de prova da Monsanto, em Goiás, a soja testada deve ser mais produtiva que a atual geração de sementes comercializada no mercado. “É natural que isso ocorra porque sem o ataque das lagartas as plantas expressam todo o seu potencial genético”, diz Palavro. Mas, para Gabriela Mascarenhas, que também é agrônoma da equipe e coordena outros 15 campos em Mato Grosso, Estado que concentra a maior parte das propriedades em teste, é preciso esperar pelo fim da colheita e analisar os dados de todas as propriedades que estão cultivando a nova soja. Os resultados deverão sair no próximo mês. “No País há muita variação de solo, clima e relevo que influenciam a produtividade”, diz Gabriela. “Mas, de fato, os testes têm mostrado que a soja resistente às lagartas sofre menos estresse na fase vegetativa, quando a planta está crescendo, e na reprodutiva, quando começam a nascer os grãos.” O combate a pragas passa a ser feito apenas na fase de maturação dos grãos, época em que pode ocorrer ataque de percevejos. Na fazenda São Miguel, a área de teste mostrou uma produtividade de 65,8 sacas por hectare, contra 55,3 sacas por hectare na área que serviu como testemunha. Nos dois casos, a umidade foi corrigida para 13% no grão, como é de praxe no momento da comercialização da soja. Fiatikoski diz que não esperava tanto. “Achei que daria uns 10% a mais de produção, mas ficou em 18%.”
AFINADOS: os agrônomos Gabriela e Palavro acompanharam o plantio e a colheita da soja em fazendas em Mato Grosso e Goiás
As novas sementes de soja transgênica serão comercializadas nas duas marcas comerciais que a Monsanto detém no País, a Monsoy e a Agroeste, e também por outras nove empresas. Entre elas estão a Brasmax, CCGL Tec, Coodetec, Don Mario, Igra, Nidera, Syngenta, TMG e até a Embrapa. “Desenvolvemos a tecnologia e é como se ela fosse um air bag para carro”, diz Andrade. “Todas as marcas de carro podem utilizar air bag em seus modelos.” Isso significa que as demais produtoras de sementes de soja poderão ser usuárias da tecnologia da Monsanto. Para o presidente da empresa, André Dias, o modelo de amplo licenciamento faz com que as biotecnologias avancem mais rapidamente. “As parcerias com outras empresas acabam gerando um volume maior de informações que são repassadas aos pesquisadores.” A Monsanto investe US$ 1,4 bilhão por ano em pesquisas de biotecnologia para soja, milho e algodão, em todo o mundo. Para a empresa de Saint Louis, no Estado americano do Missouri, o Brasil, com vendas de R$ 2,8 bilhões, é seu segundo maior mercado.