07/02/2026 - 7:00
A medicina tradicional chinesa está levando à dizimação de jumentos brasileiros. Isso porque, o colágeno desses animais tem um grande falar medicinal para os chineses, e sua exploração está entre os principais redutores da população de jumentos do país, pois faz parte de uma cadeia que envolve crueldade com os animais e falta de regulamentação.
O chamado “eijao” é um produto extraído da pele do jumento que pode ser usado para diversos medicamentos na China, um mercado que pode chegar a US$ 1,9 bilhão. No entanto, a desregulação nos abates desses animais pelo mundo liga o alerta: vai faltar animais para essa indústria.
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Pensando nisso, pesquisadores da Universidade Federal do Paraná (UFPR), a pedido do Ministério do Meio Ambiente, começaram a pesquisar um modo de conseguir produzir o colágeno de jumento de forma sintética, sem que seja necessário o abate dos animais.
“A exploração atual de jumentos é um beco sem saída fundamentalmente porque ela não se baseia em uma cadeia produtiva organizada, mas sim no extrativismo predatório. 55 países africanos baniram recentemente a venda de pele de jumentos numa tentativa de evitar a extinção da espécie. Isso pressiona outros mercados, como o brasileiro, mas a lógica permanece a mesma: sem produção organizada, o recurso é finito”, explicou a pesquisadora Carla Molento, PhD pela Universidade McGill, no Canadá, e coordenadora do Laboratório de Zootecnia Celular da UFPR.
A medicina tradicional chinesa utiliza de outras matérias-primas como chifres e pedras na vesícula de bois para a confecção de remédios usados em tratamentos de saúde. O eijao tradicionalmente é usado em tratamentos para nutrir o sangue, melhorar a pele e a fertilidade.
Biotecnologia como saída
Encomendada pelo Ministério do Meio Ambiente e fomentada pela Fundação Araucária, agência de fomento à pesquisa do estado do Paraná, a pesquisa quer utilizar a biotecnologia para produzir o colágeno de jumento sem a necessidade de abater o animal.
A pesquisadora explica que o processo é parecido com a fabricação de cerveja ou de um pão, onde o DNA do jumento será inserido em uma levedura que vai se multiplicar. Após isso, os especialistas vão separar uma parte desse material genético para a elaboração do colágeno sintético.
“Todo organismo produz proteínas baseadas em seu código genético. Então, nós isolamos a parte específica do DNA do jumento que codifica o colágeno e a utilizam como uma espécie de forma. Ao final do ciclo, em vez de processar a pele do jumento, nós separamos o colágeno diretamente da massa de levedura. O resultado é uma molécula idêntica à produzida pelas células do animal, mas obtida de forma muito mais pura e sem a necessidade de abater o jumento”, conta.
A ideia é que essa matéria-prima possa ser comercializada para empresas processarem esse material e venderem para a China.
Preocupação com o bem-estar animal x pragmatismo da indústria
Molento afirma que, para além da preocupação com o bem-estar do jumento, já que ele não precisaria ser sacrificado, há ganhos práticos na escala desse processo via laboratório, já que a cadeia seria muito mais rápida do que ela é hoje e o produto seria mais puro.
“Do ponto de vista produtivo, é muito mais eficiente investir em fermentação de precisão do que em fazendas de jumentos. Em um galpão, com alguns biorreatores, é possível produzir uma quantidade muito maior de proteína, com menos insumos e sem o abate”, explica.
No entanto, para a produção conseguir sair do laboratório da universidade e se tornar viável para a grande indústria, os pesquisadores estão buscando um financiamento de US$ 2 milhões.
“Hoje trabalhamos com pequenas quantidades, em um ambiente de laboratório da universidade. Para aplicação industrial, precisamos de financiamento a fim de instalar biorreatores maiores e testar a produção em escala piloto”, destaca.
População de jumentos despencou no Brasil
O Brasil tem cerca de 78 mil jumentos, segundo estimativa da FAO (Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura), o IBGE e a plataforma Agrostat, último levantamento em 2025.
De origem africana, o animal está presente nas Américas, Europa, Ásia e Oriente Médio. A Etiópia é o país com a maior população no mundo, com mais de 10 milhões de animais.
A mesma pesquisa também mostra que a população de jumentos no Brasil despencou 94% entre 1996 e 2024.
“De cada 100 jumentos que existiam há 30 anos, hoje restam apenas seis”, afirma Patricia Tatemoto, PhD em Ciências, com ênfase em Medicina Veterinária Preventiva e Saúde Animal pela USP, e coordenadora da organização The Donkey Sanctuary no Brasil.
