14/04/2026 - 7:30
Sob um sol escaldante, o agrônomo Oliveiro Guerreiro Filho percorre uma miscelânea de plantas de café no Instituto Agronômico de Campinas, onde, ao contrário das fileiras uniformes da maioria das propriedades rurais brasileiras, cada cacho apresenta características distintas. Esse banco de germoplasma — composto por espécies algumas atarracadas, outras altas — inclui 15 variedades incomuns e não comerciais, como a racemosa, a liberica e a stenophylla. A expectativa dos pesquisadores, informa a Reuters, é que os genes dessas plantas possam sustentar o suprimento futuro do café arábica.
Cientistas alertam que as colheitas do café arábica, o grão mais consumido no mundo, serão severamente impactadas pelas mudanças climáticas, com a projeção de que a produção em grandes players como o Brasil, entre os maiores fornecedores globais, registre queda. De acordo com relatório recente da instituição financeira Rabobank, o aquecimento global poderá tornar 20% das áreas atualmente dedicadas ao arábica inadequadas para o cultivo até 2050. Diante desse cenário, os especialistas do instituto de pesquisa do estado de São Paulo buscam criar variedades mais resistentes por meio da introdução de material genético de espécies mais rústicas em novos híbridos.
Um dos exemplos de resiliência vem da espécie liberica, cuja robustez diante de condições extremas de calor e seca foi elogiada por produtores da Indonésia e da Malásia, que testaram o comportamento da planta em pequenos lotes. “A liberica tolera muito bem o calor e as altas temperaturas, além de ser resistente a doenças”, afirmou à Reuters o especialista Jason Liew, fundador da My Liberica, localizada no estado de Johor, na Malásia.
Embora agricultores valorizem tais qualidades em espécies menos difundidas, os pesquisadores brasileiros focam em transferir essas características para as plantas de arábica, que são mais produtivas e possuem maior aceitação de mercado. Guerreiro Filho explica que o instituto trabalha há anos para migrar genes de tolerância à seca da espécie racemosa para a arábica. Trata-se, contudo, de um processo de longo prazo: a produção de mudas cruzadas e a exposição dos híbridos a condições adversas para identificação das linhagens mais robustas pode demandar de 20 a 30 anos de estudos.
Além da adaptação climática, os híbridos são testados para ampliar a resistência a pragas e doenças. O cruzamento entre arábica e liberica demonstrou maior eficácia contra a ferrugem do café, uma infecção fúngica severa. Já a união com a racemosa apresenta melhores resultados no combate ao bicho-mineiro, principal praga da cafeicultura nacional.
Para Rodolfo Oliveira, chefe da unidade de café da Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária), tais investigações são vitais para o futuro da commodity. Segundo o executivo, o café arábica possui uma base genética extremamente estreita, o que o torna altamente vulnerável. Nesse contexto, a introdução de material genético novo e ‘selvagem’ de espécies alternativas torna-se uma estratégia fundamental para garantir a segurança da produção global.
Preço ladeira abaixo
Uma dinâmica mais recente de recuperação produtiva (somado a um efeito de recuo de consumo), pode derrubar as cotações globais de café em 2026, em um movimento similar ao visto recentemente no mercado de cacau. O assunto veio à tona em março em meio à convenção anual tradicionalmente organizada pela Nacional Coffee Association (NCA), que ocorreu em Tampa, Flórida, nos Estados Unidos. Carlos Mera, analista-chefe de café do banco holandês Rabobank, afirma que a demanda global por café ficou congelada em 2025, contrastando com o crescimento histórico de 2,3% ao ano registrado no período pré-pandemia.
No Brasil, o maior produtor e segundo entre os consumidores, o café saltou no varejo ao longo do ano passado, o que levou à retração de 2,3% entre novembro de 2024 e outubro de 2025, para 22 milhões de sacas de 60 quilos, informou recentemente a Associação Brasileira da Indústria de Café (Abic). As indústrias torrefadoras dizem que a matéria-prima subiu mais de 200% nos últimos cinco anos. Mas a recente queda do preço internacional do café, contudo, poderá impulsionar a demanda novamente, com alta prevista de 2% para 2026 no globo, projeta o Rabobank. Os especialistas do setor cafeeiro têm traçado paralelos entre os mercados de café e cacau, projetando que as cotações do grão sofrerão retração nos próximos meses pela alta de safra em países produtores do tipo arábica.
