O uso dos agonistas do GLP-‘, remédios popularmente apelidados de “canetas emagrecedoras”, está pressionando o consumo de açúcar nos Estados Unidos, e os primeiros efeitos foram sentidos por alguns produtores brasileiros. O escritório CSA advogados afirma ter acompanhado a renegociação de contratos firmados com importadores do país.

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“A gente tem visto renegociação de contratos de exportação de longo prazo para evitar penalidades dos compradores se eles diminuírem. Porque o comprador vai acabar tendo um estoque muito alto daqui um tempo e não vai ter para onde jogar esse estoque”, explica a advogada Ieda Queiroz, coordenadora do setor de agronegócio do escritório.

A consultoria Czarnikow afirma que as canetas emagrecedoras podem “minar a longa história de crescimento do açúcar” e ter um “efeito profundo nos produtores”. Já o Departamento de Agricultura dos EUA (USDA, na sigla em inglês) reduziu a estimativa de consumo de açúcar no país em 2026 em 23 mil toneladas. Em fevereiro de 2026, os preços do açúcar nos contratos futuros do país chegou ao patamar mais baixo desde 2020, de acordo com dados publicados pelo Financial Times.

No Brasil, a União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica) ainda não tem dados ou monitora qualquer impacto do medicamento em seus negócios. Mas um relatório publicado pelo Itaú BBA indica que fabricantes de comidas açucaradas já começam a sofrer impactos, com uma queda de 10% na demanda por biscoitos e massas entre os usuários de GLP-1.

Contornando impactos das ‘canetas emagrecedoras’

A advogada Ieda Queiroz esclarece que os produtores tem alcançado sucesso em direcionar sua produção para outros países, por exemplo com leve crescimento das quantias embarcadas para a África. Já no longo prazo, as usinas poderão estudar alternativas como direcionamento de uma parte maior para o mercado de etanol.

Fundada em 2000 e com atuação no ramo de biocombustíveis, a SCA Brasil já projeta uma maior oferta de etanol na esteira dos preços pressionados do adoçante de cana. “Projetamos um recuo no mix de produção de açúcar das usinas do Centro-Sul de 51% para uma margem entre 47,5% e 48,5%”, diz o CEO da empresa, Martinho Seiiti Ono.

Máquina corta cana-de-açúcar em canavial da São Martinho em Pradópolis 13/09/2018 REUTERS/Paulo Whitaker
Máquina corta cana-de-açúcar em canavial da São Martinho em Pradópolis
13/09/2018 REUTERS/Paulo Whitaker

Todavia, trocar o uso da produção de cana da indústria do açúcar para o etanol não é um processo simples. Demanda adaptações de armazenagem e readaptação do processo produtivo como um todo. Exigirá ainda garantir venda para uma produção maior de biocombustível, com preço ainda competitivo.

Maior valorização do açúcar à vista

Pesquisa com dez operadores e analistas feita pela agência Reuters aponta expectativa por uma correção com os contratos futuros de açúcar bruto negociados 10% acima dos atuais na ICE (Intercontinental Exchange).

Os dados apontam que o mercado foi afetado por um superávit global de 1,39 milhão de toneladas métricas na atual safra de 2025/26. Para o biênio 2026/27, a expectativa de um déficit de 1,50 milhão de toneladas mudaria a dinâmica.

Os consultados estimaram ainda um aumento na safra de cana-de-açúcar do centro-sul de 610 milhões para 625 milhões de toneladas, mas uma proporção menor de 48,8% será usada para produzir o adoçante, abaixo dos cerca de 50,7% dessa temporada. “Uma mudança maior do que a prevista para o etanol no centro-sul do Brasil elevará os preços”, disse um participante.

O conflito no Oriente Médio entre Estados Unidos, Israel e Irã é um dos fatores a impulsionar uma maior demanda por biocombustíveis. “Petróleo mais caro é igual a preços mais altos do etanol, que é igual a menor produção de açúcar no Brasil. A suposição é que, em algum momento, a Petrobras aumentará os preços internos da gasolina”, disse um consultor experiente do setor sucroalcooleiro à Reuters.