01/06/2011 - 0:00
Poucos setores do agronegócio viveram tantos ciclos de sobe e desce quanto o do etanol. No início dos anos 1980, o programa Pró-Álcool, que era a alternativa 100% nacional para a crise global do petróleo, entrou em colapso. Em meados da década seguinte, o combustível verde recuperou-se com a disseminação dos veículos flex. No embalo dessa retomada, a partir de 2003, durante a era Lula, o etanol de cana-de-açúcar se tornou o cartão de visita do País, um exemplo para o mundo em combustíveis renováveis. Hoje, porém, o setor vive um novo e decisivo capítulo. Com sua reputação arranhada por conta das fortes oscilações de preço, a indústria alcooleira tem pela frente o desafio de se renovar novamente. “No mundo dos negócios, nada é pior do que vender, prometer, propagandear e, depois, não entregar”, diz o economista Gilson Ramos, sócio da Agromerc, consultoria agrícola de Goiânia.
“Se a competição continuar desigual, a gasolina matará o etanol”
Marcos Jank, presidente da União da Indústria de Cana-de-Açúcar
A afirmação de Ramos faz todo sentido e expressa o desapontamento do mercado interno com os problemas gerados pelo combustível de cana-de-açúcar. A recente disparada do preço do álcool nas bombas dos postos expôs a fragilidade da indústria sucroalcooleira e sua incapacidade de evitar o desabastecimento. O preço médio no País passou de R$ 1,20 para R$ 2,30, por litro, em menos de 12 meses, o valor mais alto em dez anos. Agora, com a colheita a todo vapor, os preços voltaram a cair. Na mente dos consumidores, no entanto, persiste a pergunta: até quando? “As incertezas são ruins para o consumidor e para o produtor”, afirma Marcos Jank, presidente da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica). “Pode ter certeza que ninguém ganha com essa oscilação.”
A preocupação em preservar a imagem do etanol é fundamental para garantir a prosperidade das usinas brasileiras. No ano passado, em decorrência da instabilidade de preços, pela primeira vez desde 2003, o consumo de álcool hidratado diminuiu. Foi uma queda de 8% em relação a 2009. Como consequência, a demanda de gasolina, que ganhou competitividade em relação ao etanol, teve incremento de 17% no mesmo período. “Perder para a gasolina é inadmissível”, reconhece Jank. “Se a competição continuar desigual, a gasolina matará o etanol.” Para evitar o fracasso de um setor que emprega mais de um milhão de pessoas no Brasil, algumas iniciativas públicas e privadas começam a ser colocadas em prática.
Recorde: Disparada do preço do etanol na entressafra fez a gasolina se tornar mais vantajosa em todas as regiões do País
No lado do governo, as medidas em estudo para equacionar os obstáculos do etanol são ousadas. Entre as hipóteses levantadas está a definição de bandas de preços, mesmo na entressafra. Em outras palavras, trata-se de um camuflado congelamento sazonal de preços. Uma das ações já tomadas se refere à fiscalização das usinas e distribuidoras. Antes uma atribuição do Ministério da Agricultura, essa tarefa foi transferida para o Ministério de Minas e Energia, capitaneado pelo ministro Edison Lobão e pela Agência Nacional do Petróleo (ANP), sob a responsabilidade de Haroldo Lima. A primeira medida contra a alta do etanol partiu de Lobão. O ministro encaminhou à ANP e ao Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) uma avaliação sobre a suspeita de prática de cartel na venda do combustível em várias cidades do País, começando por Brasília (DF) e São Luís (MA).
Responsáveis pela produção de quase metade de todo o açúcar consumido no mundo, os usineiros determinaram que, pela primeira vez, o etanol será prioridade máxima. Nesse início de safra, 65% da produção será de etanol e 45% de açúcar. Historicamente, essa relação varia entre 45% e 55%, ora para um, ora para outro. “Nunca houve um empenho tão grande em produzir combustível de cana”, afirma o diretor técnico da Unica, Antonio de Padua Rodrigues. Segundo ele, priorizar o etanol é um reflexo do comprometimento do setor sucroenergético para o restabelecimento da normalidade no mercado de combustível. “Neste início de safra, a maior parte das unidades operou próximo da capacidade de produção de etanol”, diz Rodrigues.
Os produtores têm vários argumentos para explicar a drástica modificação de cenário do etanol. Segundo eles, a crise financeira mundial e a valorização contínua do real minaram os projetos que visavam à exportação do etanol brasileiro, afetando a dinâmica da oferta de longo prazo. Além disso, as condições climáticas não foram favoráveis para a safra 2010/2011 de cana-de-açúcar. O crescimento da produção em relação à safra 2009/2010 foi de apenas 3,1%, percentual muito inferior à média dos cinco anos anteriores, de 9,5%.
No entanto, o principal problema foi o aumento da produção de açúcar. Motivado pelo elevado preço da commodity no mercado internacional, o plantio de cana para a produção de açúcar aumentou 7,8%, enquanto para o etanol caiu 0,5% em relação à safra anterior (2009/2010). “Caberá aos usineiros minimizar os gargalos que têm ameaçado o futuro dessa importante indústria”, diz Plínio Nastari, presidente da consultoria Datagro, de Curitiba.