01/12/2008 - 0:00
“Nossas terras serão arrendadas e vamos criar um novo modelo de relação entre usinas e seus fornecedores, focado no longo prazo”
JOSÉ CARLOS GRUBISICH: ele quer fazer em cinco anos o que a Cosan, líder do setor, fez em 40
USINAS DO GRUPO: todas têm o mesmo padrão tecnológico e irão fornecer matérias-primas para a alcoolquímica da Braskem
Enquanto um sem-número de usinas de álcool e açúcar enfrenta os efeitos da crise financeira internacional, atrasando até pagamentos a fornecedores, o executivo José Carlos Grubisich, presidente da ETH Bioenergia, braço energético do grupo Odebrecht, não consegue esconder a felicidade. Sua empresa, fundada há pouco mais de um ano, está alheia aos problemas do setor e, trabalhando num ritmo frenético, nem pensa em brecar ou diminuir a velocidade dos investimentos. Ao todo, são mais de 5,1 mil funcionários, divididos em três pólos espalhados pelos Estados de São Paulo, Mato Grosso do Sul e Goiás. Até 2012 estão previstos investimentos de R$ 5 bilhões. Assim que for aplicado, este caminhão de dinheiro se transformará em dez usinas que vão moer até 2015 nada menos do que 45 milhões de toneladas de cana. Em produtos, isso significa a fabricação de três bilhões de litros de etanol, 1,3 mil megawatts de energia e dois milhões de toneladas de açúcar. Tudo isso em 520 mil hectares plantados, ou uma área quase três vezes maior que o município de São Paulo. De forma resumida será necessário fazer num total de oito anos mais do que a Cosan, de Rubens Ometto, demorou quase três décadas para concluir. “Ainda vamos inaugurar um novo modelo de relacionamento com nossos fornecedores, até porque não pretendemos comprar terras, toda área será arrendada ou compraremos cana no entorno das usinas”, explica Grubisich.
R$ 1,2 BILHÃO já foi investido em aquisições e na implantação de usinas em SP, MS e GO
As três usinas em funcionamento, segundo Grubisich estabelecem um novo conceito de produção. Isso porque todas obedecem a um mesmo padrão tecnológico, desenvolvido sob medida para os planos da empresa. Nele está a sinergia entre outras empresas do grupo, como a própria petroquímica Braskem. “Os níveis de controle de custos e operações de uma petroquímica são muito mais complexos do que os de uma usina, por isso os engenheiros da Braskem estão trabalhando para desenvolver processos que nos permitam trabalhar acima dos padrões de controle até mesmo das melhores usinas”, explica.
Esse pacote, segundo ele, “blinda” a empresa. Os problemas de caixa enfrentados por algumas empresas do setor sucroalcooleiro, na análise do presidente da ETH, podem ser passageiros, visto que todas as estimativas para o consumo de etanol para os próximos anos apontam crescimentos vigorosos (ver gráfico). Até 2015, estimativas da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) apontam um consumo interno de cerca de 60 bilhões de litros de álcool, mais do que três vezes o volume atual – dados da Anfavea também mostram que 65% da frota brasileira será de veículos flex fuel. “É nesse cenário que percebemos a grandiosidade deste mercado”, avalia Grubisich. “Não computamos neste panorama o aumento das exportações, que será uma realidade, ou mesmo a introdução de novas matérias-primas, como o plástico de etanol, que entrará no mercado no próximo ano”, explica. Por isso, na opinião do executivo, ter um bom relacionamento com os produtores será uma condição primordial para manter a rentabilidade no setor. Este, por exemplo, é o caso do pecuarista Ricardo Chedid, que arrendou dois mil hectares de sua fazenda, localizada no município com o sugestivo nome de Biodápolis, em Mato Grosso do Sul, para a ETH.
Aquisições estão nos planos
A estratégia da empresa para comprar concorrentes
Um bom negócio. Essa é a principal característica para que a ETH entre na disputa para aquisição de outras usinas. Isso porque, o diretor-geral da empresa, Eduardo Pereira de Carvalho, o modelo de negócios não prevê o funcionamento de unidades em diferentes padrões tecnológicos. “Se comprarmos alguma usina, teremos de aplicar o mesmo padrão tecnológico que estamos construindo em nossas áreas próprias”, avalia. Isso, diz ele, pode inviabilizar alguns negócios. “Pode sair mais caro modificar do que construir”, pondera.
Mesmo assim, na última semana de novembro, correu no mercado a notícia de que a ETH estaria na disputa do controle da Usina Nova América, do empresário Roberto Rezende de Azevedo. “É uma possibilidade que estamos estudando, mas teremos de estudar bem o modelo a ser adotado”, avalia Carvalho. Para ele, a prioridade é manter os planos de negócios. Procurada, a Usina Nova América, que passa por problemas financeiros, disse estar estudando possíveis negócios com diversos grupos, inclusive com a Cosan, maior grupo de açúcar e álcool do País.
“A oferta que a usina me fez cobria e muito a rentabilidade que eu vinha observando com os bois”, avalia. Com um contrato de oito anos, ele já faz as contas. “Correndo tudo bem, como está agora, acredito que, no futuro, em vez de arrendar, pretendo fornecer a cana para a empresa”, pondera. Segundo ele, mesmo que não consiga plantar os dois mil hectares, aos poucos chegará ao seu objetivo. “Acho que é uma parceria muito boa.” Quem também está satisfeito com o fornecimento de cana é o produtor Valdir Sator. Agricultor há muitos anos, sempre trabalhou com soja e milho, agora vê na cana a chance de diversificar a produção. “A cana me parece no longo prazo um excelente negócio”, diz.
Ao todo, ele arrendou 950 hectares para a ETH e continua com outros 500 hectares em rodízio de soja e milho. Quais os planos para o futuro? “Pretendo investir, comprar máquinas e fazer toda a minha colheita”, analisa. Sator explica que, de fato, toda a assistência técnica, seja para o plantio, seja para adubação ou mesmo a própria colheita é por conta da usina. “Mas mesmo assim acho importante investir. Até porque ficará mais fácil administrarmos nossos negócios no futuro.” Com um contrato de oito anos, ele acredita que a parceria vai prosperar. “A Odebrecht me parece uma empresa séria e isso ajuda no nosso planejamento”, destaca.
Outro ponto alto da empresa está na mecanização. Não haverá corte manual. A estratégia visa o acesso ao mercado internacional. Com o aumento do rigor em relação às regras socioambientais a ordem é não dar margem para futuros problemas. “Por isso, vamos investir pesado em sistemas que deixem claro que o nosso etanol será realmente verde”, diz o presidente da empresa. Além disso, como não poderia deixar de ser, espera-se uma integração entre as empresas do grupo Odebrecht, principalmente ETH e Braskem, da qual Grubisich já foi presidente. Em 2009, entrará em operação a produção do plástico verde, feito à base de etanol e produzido pela petroquímica. Com isso, abre-se a perspectiva de um amplo fornecimento de etanol, além do consumo tradicional de álcool para veículos bicombustíveis. “Claro que nós pretendemos fornecer etanol para a Braskem, até porque é possível conseguir condições muito vantajosas para os dois lados”, pondera. “Contudo, nosso modelo de negócio ainda está pautado em previsões mais conservadoras. Não fazemos planos ou investimento contando com esses novos negócios”, avalia.
Mas não é só o pessoal da ETH que vislumbra bons tempos num futuro próximo para o mercado de cana. Em visita ao Brasil, no mês passado, o CEO da Agco no Brasil, Martin Richenhagen disse acreditar num promissor mercado de máquinas movidas a etanol, matéria em estudo na sua empresa. “Será fantástico o produtor utilizar em suas máquinas o combustível produzido em sua própria fazenda”, analisa. Isso, segundo ele, representará um grande avanço econômico e ambiental. “E as empresas que se prepararem para isso com certeza estarão mais próximas dos principais mercados, mais exigentes em questões ambientais”, analisa.
Quanto à formação de um mercado internacional para o etanol, pelo menos na análise da ETH, pode ser prematuro. “Ainda temos possibilidades fantásticas no Brasil e só o mercado interno nos propiciará um crescimento orgânico e sustentável nos próximos anos”, diz o ex-presidente da União da Indústria da Cana (Unica) Eduardo Pereira de Carvalho. “Se o mercado internacional ou mesmo o americano se abrir de repente, talvez não tenhamos, como país, as condições para atender a todos”, pondera. Segundo ele, a grande vantagem da vitória do democrata Barack Obama nas recentes eleições presidenciais nos Estados Unidos está na formação de um mercado americano forte nos Estados Unidos. “Se eles resolvessem importar etanol do Brasil, não formaríamos um mercado, ao passo que aumentando a produção lá e em outros países divide- se o risco e abre-se a perspectiva de um comércio internacional”, avalia. “Por isso, ainda nem nos preocupamos com isso, até porque teremos uma demanda interna muito grande pela frente”, pondera. Para Grubisich, contudo, as perspectivas são ilimitadas. “Não há qualquer perspectiva de que o álcool ficará mais caro que a gasolina, mesmo com as quedas recentes do petróleo”, diz. “Além disso, há uma série de fatores ambientais que farão do etanol, no nosso modelo de produção sustentável, uma alternativa viável para o mundo”, comenta. “Esse é realmente o negócio do futuro.”
José Carlos Grubisich
Presidente da ETH vê no campo as oportunidades do futuro
Por que presidir a ETH?
Conseguimos fazer um processo bem-sucedido de consolidação na Braskem e os desafios de construir uma empresa como a ETH, baseada num novo modelo de negócios, é sem dúvida um desafio muito saboroso.
Qual o “grande objetivo”?
Queremos ser líderes em nosso mercado. Teremos de crescer muito nos próximos anos e não temos a menor expectativa de que outras empresas, como a própria Cosan, que é a atual líder, vão ficar paradas esperando o nosso crescimento. Ela, assim como as outras, vai crescer e caberá a nós buscar essa liderança ao longo dos próximos anos, mesmo que não seja logo.
Por falar em Cosan, como o sr. observa, como modelo de negócios, a aquisição das operações da Esso no Brasil?
Sem dúvida, foi um passo ousado. Contudo, se torna evidente que os grandes grupos terão de possuir algum tipo de relacionamento com os canais de distribuição. Isso não quer dizer que tenhamos que fazer aquisições desse porte, mas sim pensar em algum outro tipo de parceria.
Como não entrar no mesmo aperto financeiro de outras usinas?
Temos observado, que o problema vivido por muitas usinas tem muito a ver com autilização da venda de açúcar para financiar projetos. Acreditamos que isso não seja viável. Por isso, no nosso modelo de negócios, esse produto servirá apenas para fazer fluxo de caixa, enquanto os investimentos ficarão a cargo dos controladores da ETH.
E como estão as captações de crédito?
A ETH é financiada em 40% por seus acionistas. Desse total, 33% correspondem à parcela da empresa japonesa Sojitz Corporation. Os outros 60% são dívidas de longo prazo, em que o BNDES está envolvido, assim como o japonês JBIC. Temos uma linha de crédito praticamente aprovada no BNDES de R$ 1,2 bilhão.