DEDICAÇÃO: há 50 anos melhorando a raça gir leiteira, o empresário Gabriel Andrade acredita numa revolução no Leite

JORDANE SILVA, GERENTE DA FAZENDA, DIZ QUE ANIMAIS SUPERIORES SÃO MUITO PROCURADOS

Nos últimos anos o homem do campo se acostumou a ouvir notícias sobre um seleto grupo de animais que alcançam preços quase inimagináveis. São vacas vendidas por mais de R$ 1 milhão, embriões que valem centenas de milhares de reais e reprodutores com valor tão alto que nem sequer são colocados à venda. Esta é a Fórmula 1 da pecuária, em que animais superprecoces e produtivos são negociados a peso de ouro. A festa, até então praticamente restrita à raça nelore, está prestes a incluir um novo ator: o gado gir leiteiro. Tido como patinho feio da pecuária de leite durante anos, a raça está para se tornar a nova coqueluche do mundo dos leilões. Criadores antevêem um ciclo de superleilões para estes animais, fundamentados num aumento da base de produtores de leite, ávidos por animais melhorados. Em meio a esse novo turbilhão que se anuncia está um homem de 82 anos de vida, dos quais 50 dedicados ao aprimoramento da raça. Este é Gabriel Andrade: além de dono da construtora Andrade Gutierrez, gigante da construção que fatura US$ 3 bilhões ao ano e controla a operadora telefônica Oi, é um dos mais tradicionais criadores de gado zebu para leite no Brasil.

UM EMBRIÃO DE UMA DOADORA DE PONTA É VENDIDO POR ATÉ R$ 49 MIL. PREÇOS NOS REMATES DE ELITE DEVEM EXPLODIR NO PRÓXIMO ANO

A história do gir leiteiro no Brasil está diretamente associada à figura de Andrade, que sempre acreditou na raça como solução para a produção de leite em áreas tropicais. Num passado não tão distante, suas investidas eram vistas como maluquices, já que o modelo recomendado esteve embasado na utilização de gado puro europeu, como holandês e jérsei. Hoje, porém, com o deslocamento das bacias leiteiras para regiões mais quentes, a necessidade de sangue gir é uma realidade incontestável. Graças ao trabalho do empresário-criador e mais uns poucos entusiastas, a raça escapou de ser extinta no Brasil. Neste ano, embriões produzidos em sua fazenda, a Calciolândia, localizada no município de Arcos (MG), têm sido comercializados com preço médio acima dos R$ 20 mil, alcançando o pico de R$ 49 mil.

Qual a tendência? Segundo especialistas, os preços desses animais vão explodir. “Há 50 anos, quando comecei a criar gir leiteiro para abastecer um laticínio comprado por minha família, percebi que a raça era o futuro do Brasil”, diz. Segundo ele, com o advento da tecnologia de produção e a possibilidade de comparar resultados, ficou evidenciada a adequação da raça no Brasil. “Acho natural que os animais se valorizem, mas é necessário que se multipliquem os melhores indivíduos para que cheguem bons animais para o produtor de leite”, analisa.

O CONSULTOR LUIZ RONALDO ACREDITA NUMA REVOLUÇÃO LIDERADA PELO GIR LEITEIRO

O PECUARISTA FELIPE PICCANI PODE FATURAR R$ 3 MILHÕES EM SEU MEGALEILÃO

Quem também observou essa oportunidade foi o criador Felipe Picciani, do Rio de Janeiro. No fim deste mês ele realizará um grande leilão no Copacabana Palace. O remate ganhou ares de superprodução e está sendo considerado como um divisor de águas no mercado. Criador premiado da raça nelore, ele comenta sobre a possibilidade de replicar no leite, o mesmo modelo que fez da carne brasileira um sucesso. “O gir vai fazer pelo leite o mesmo que o nelore fez pela carne”, prevê. Com a perspectiva de faturar algo em torno de R$ 3 milhões, ele acredita estar diante de um grande negócio. “Esses animais serão muito valorizados nos próximos anos.”

GRUPO DE ESTUDANTES DE PÓSGRADUAÇÃO DA UFMG QUE VISITOU A FAZENDA DE GABRIEL ANDRADE PARA “APRENDER” COMO SE FAZ

Mas não são apenas os criadores de gado de elite que estão empolgados com o avanço do gir. A Integralat, braço técnico da Parmalat, está construindo um dos maiores rebanhos comerciais do Brasil, tendo como base o cruzamento de gir com holandês, fazendo o chamado gado girolando. A idéia é produzir mais de 250 mil animais. Um dos responsáveis pelo projeto é o sócio-diretor da In Vitro, José Henrique Fortes, responsável pelas transferências de embriões e fertilizações in vitro. “Para cada região do País estamos adotando um modelo”, explica. “A aplicação de sangue gir leiteiro está viabilizando a pecuária leiteira no Centro-Oeste do Brasil”, diz. “O Brasil errou quando tentou forçar a produção de leite com gado holandês em regiões mais quentes”, avalia. Por isso, explica o especialista, para regiões mais quentes, estão sendo “confeccionados” animais com mais influência gir, enquanto para as regiões de temperaturas mais amenas predomina o sangue holandês. Ao fim dos trabalhos, segundo ele, será possível identificar quais os cruzamentos ideais. “Estamos testando diferenças entre cruzamentos usando touro gir em vaca holandesa, assim como touro holandês em vaca criagir, e quado identificarmos o cruzamento ideal vamos multiplicá-lo.”

ANIMAIS SÃO CRIADOS A PASTO PARA REPRODUZIR AS CONDIÇÕES REAIS DE VIDA

Até meados da década de 1990 o gir leiteiro sofria com uma série de entraves. De um lado, o criador enfrentava a concorrência dos criadores de gir para a produção de carne, até hoje reticentes à disseminação de animais para leite. Do outro, a implacável comparação com o gado holandês, extremamente produtivo, porém pouco adaptado ao clima brasileiro. “Há 50 anos falo que o holandês puro é inviável para as condições brasileiras e por isso decidi apostar no gir leiteiro”, explica Andrade.

Golpe de sorte, ou tino de gênio, o fato é que os ventos começaram a mudar em 1993, quando a Embrapa Gado de Leite concluiu um trabalho iniciado em 1985. No estudo, animais gir leiteiro foram profundamente avaliados e com os dados em mãos tornou-se possível comparar com outras raças. Diante dos números veio a confirmação: “Ali ficou provado que o gir leiteiro é capaz de gerar animais extremamente produtivos em relação à média brasileira e, acima de tudo, adaptados ao clima e às condições brasileiras”, explica o consultor Luiz Ronaldo de Oliveira. Em linhas gerais, o trabalho confirmou uma antiga teoria de Andrade sobre o que ele chama de “morfologia do desempenho”. “Pela primeira vez tivemos resultados de touros provados, capazes de passar adiante uma série de características importantes”, analisa o criador. Entre elas, capacidade digestiva, formato dos úberes, fertilidade, habilidade materna, entre outros.

Segundo o professor Fernando Enrique Madalena, chefe do curso de pós-graduação da Faculdade de Veterinária da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), o trabalho realizado por Andrade é um legado sem precedentes. “Vamos à sua fazenda para aprender, porque um trabalho de seleção de mais de 50 anos realmente não se encontra em qualquer lugar”, avalia. Segundo ele, o gir leiteiro terá nos próximos anos um papel preponderante no mercado de leite. “O Brasil precisará multiplicar esses elementos selecionados pela fazenda Calciolândia para melhorar o rebanho nacional, se quiser mesmo ter uma posição de destaque no mercado internacional”, pondera.

Enquanto isso, na fazenda de Andrade, os planos de melhoria continuam. Avesso à teoria de que a grande contribuição do gado gir leiteiro está apenas na rusticidade, ele enxerga grande espaço para evolução. “Os animais que desenvolvemos aqui são produtivos e rústicos, por isso, quando misturados com o holandês, ganha-se em rusticidade e praticamente não se perde em produtividade”, avalia. “Já conseguimos vacas girolando de 70 litros por dia e perfeitamente adaptadas às condições de ambiente”, diz o gerente da fazenda Calciolândia, Jordane José da Silva. “Quem nos procura quer animais superiores”, avalia. Para ele, porém, o mercado terá de evoluir em alguns aspectos.

“O pecuarista de leite ainda está muito ligado a questões de beleza e deve olhar mais para a funcionalidade”, adverte. A história, segundo ele, é a seguinte: diante de um animal cruzado, são mais valorizados os “pintados”, ou seja, com a pelagem mais escura. Mesmo que o criador esteja diante de uma vaca de 40 litros por dia, ante outra pintada de 20 litros a tendência é que seja dada preferência para a matriz mais escura, mesmo que seja menos produtiva. “É uma cultura que se criou, que não tem lógica, mas é assim”, lamenta.

Outro entusiasta da raça é o empresário Paulo Horto, da Programa Leilões, que é um dos grandes promotores de remates no País. “O gir é a bola vez”, diz Horto (leia sua entrevista abaixo). “Temos o melhor gir leiteiro do mundo”, diz o presidente da Associação dos Criadores de Girolando, José Donato Dias Filho. “Juntando o gir leiteiro e o gado holandês, temos uma opção incrível para gado adaptado”, atesta.

“COMPREM AGORA, ANTES QUE DISPARE”

Paulo Horto, maior leiloeiro do País, acredita no sucesso da raça

Paulo Horto, dono da Programa Leilões, acredita que o gado gir de elite irá revolucionar a pecuária leiteira, assim como o nelore fez com a criação de corte. Leia a seguir sua entrevista à DINHEIRO RURAL

O gir leiteiro viverá um ano de ouro em 2009?

Não tenho dúvida disso. O Brasil tem vivido uma série de mudanças nos últimos anos que mostram a necessidade desse gado. Por exemplo, as principais bacias leiteiras têm se deslocado para o Centro-Oeste e até mesmo para o Norte e Nordeste. E o gir leiteiro é o responsável por viabilizar a atividade nessas regiões.

Haverá um ciclo de animais valorizados?

Tenho dito ultimamente às pessoas que aproveitem para comprar seus primeiros animais agora, ntes que os preços disparem. A solução brasileira com esses animais é tão fantástica que pode viabilizar a produção de leite não só no Brasil, mas em outros países tropicais, como os da América Central e da África.

Dos seus negócios, o que muda?

Estamos tão confiantes que hoje a Programa Leilões abriu uma nova agência, a MP2, que vai cuidar desses leilões no Centro-Oeste, Norte e Nordeste, voltado para a pecuária extensiva e pecuária de leite. Não tenho dúvida que em 2009 o gir leiteiro será a raça com a maior valorização.