01/09/2010 - 0:00
“Quando fiz o primeiro megaleilão, fui chamado de louco. Agora o modelo irá para todo o País”
Maurício Tonhá,
O leiloeiro das grandes boiadas
Boi no piquete:
com boa estrutura, fazenda pode receber até 30 mil cabeças por ano
Os leilões promovidos pelo empresário já venderam 190 mil animais, o que fez com que o evento passasse a fazer parte do Guinness Book, o livro dos recordes
A pequena cidade de Água Boa, no interior de Mato Grosso é um desses lugares pacatos, onde o tempo parece passar mais lentamente, tamanho é o sossego de suas ruas. Localizada próximo ao rio Araguaia e a 600 quilômetros da capital Cuiabá, é raro ouvir o som de buzinas e a grande diversão dos moradores ainda são as longas conversas travadas despreocupadamente nos bancos da praça central. Mas, pelo menos uma vez por ano, mais precisamente durante o segundo fim de semana de abril, a cidade se transforma e toda calmaria é interrompida: dezenas de aviões particulares pousam na acanhada pista do município, centenas de visitantes lotam seus hotéis e restaurantes e até congestionamentos podem ser vistos por suas ruas. Toda essa confusão tem um culpado: o empresário Maurício Tonhá. É nessa época do ano que ele realiza seu megaleilão, um evento que reúne milhares de pecuaristas e que vem se consolidando como um dos maiores leilões de gado do Brasil. Para ter ideia, na edição deste ano, o pregão reuniu cerca de três mil criadores e, em pouco menos de sete horas, comercializou nada menos do que 30 mil animais, registrando um faturamento de R$ 26 milhões.
Maurício Tonhá é também um dos grandes confinadores do País e permite que outros criadores engordem o gado na sua estância
Ao longo de todas as edições, já foram comercializados cerca de 190 mil animais, o que fez o evento constar no Guinnes Book, como recordista mundial de venda de gado. Além dos números impressionantes, o que torna esse leilão realmente diferente é o modelo de negócio no qual foi desenvolvido. Tonhá não vende animais próprios e sim de vários criadores que fazem parcerias para colocar seu gado dentro do evento e utilizar a estrutura da Estância Bahia, propriedade erguida pelo empresário há quase 20 anos. “Fizemos um trabalho com boas instalações e logística eficiente, apostando em parcerias. Isso ajudou a tornar o evento um grande sucesso”, afirma o empresário, conhecido como o leiloeiro das grandes boiadas. “Para um criador reunir todo esse volume de animais seria um investimento muito alto. Aqui ele consegue ter uma boa vitrine”, garante. O modelo vem dando tão certo que a ideia agora é expandir o megaleilão, que atualmente acontece em Água Boa (MT) e Cuiabá (MT), para novas fronteiras, fechando cinco grandes eventos por ano. “Devemos ter um megaleilão em Sinop (MT) já em 2012 e também estudamos cidades em Mato Grosso do Sul e Goiás”, diz “Mauricião”, como é chamado pelos pecuaristas.
De jeito quieto e fala mansa, o baiano Tonhá chegou em Mato Grosso há 40 anos para trabalhar em uma agência do Banco do Brasil. Porém, a vida de bancário durou pouco e em alguns anos ele já adquiria terras pensando em investir em pecuária, paixão herdada de seu pai. Sem capital para comprar animais, começou a intermediar algumas vendas de gados e “alugar” sua área para engorda. Logo passou a promover pequenos leilões e viu que a atividade era lucrativa. Nascia ali o embrião do modelo de negócio focado em parcerias que daria início aos grandes pregões que reunem vários criadores em um único evento. “Quanto tive a ideia do primeiro megaleilão, que colocaria dez mil animais à venda, fui chamado de louco. Ninguém acreditava. Mas montamos o evento e foi um sucesso. Sem dúvida, esse foi o pulo do gato”, relembra o produtor, que se diverte ao lembrar de uma ligação em que um gaúcho o chamou de picareta por anunciar um leilão com dez mil animais, algo impensado para a época. Intempestivo, Tonhá não pensou duas vezes para responder. “Se você não acredita faço questão de pagar um avião para te buscar para que possa assistir o evento. E digo mais, agora não serão dez mil animais e sim 10.001”. Não se sabe se o tal gaúcho compareceu ao leilão, mas o certo é que o evento não só aconteceu como superou todas as metas de venda consolidando o grupo Estância Bahia como um dos maiores canais de venda de gado, com direito a programa de tevê e clientes em todas as regiões do Brasil.
Para os pecuaristas, a vantagem é usufruir dessa estrutura que inclui transporte e todo o manejo com o gado. Para garantir a qualidade dos animais oferecidos, uma equipe da fazenda viaja até as propriedades vendedoras para verificar se os lotes atendem aos padrões estabelecidos nos leilões. “Isso dá confiança para o investidor”, diz o promotor, cujos ganhos vêm das robustas porcentagens que giram em torno de 8%, pagas tanto por quem vende quanto por quem compra os animais. Já quem participa desses leilões garante que o sistema é vantajoso. “O megaleilão nos proporciona grande facilidade em obter animais de reposição em quantidade e qualidade indiscutíveis, se enquadrando com nossa filosofia de trabalho em produzir um gado mais rentável e com as características que o mercado exige”, afirma João Destro, gerente-geral do grupo Primo Menegalli. Com fazendas de recria e terminação em várias regiões de Mato Grosso, o grupo foi o principal comprador do último pregão. “É um evento sem igual no Brasil”, diz.
Um dos participantes mais antigos do megaleilão, o criador Antonio Medeiros garante que o evento é extremamente lucrativo. “Trata-se de uma vitrine incrível. Maurício Tonhá conhece bem o mercado e conta com uma estrutura excelente o que proporciona grandes negócios”, afirma o pecuarista, que se consolidou como o principal vendedor no último pregão, com oferta de três mil cabeças.
Embora o foco principal da Estância Bahia seja a realização dos leilões, o grupo mantém ainda um sistema de armazenagem com capacidade para 250 mil sacos, para recebimento, secagem e armazenagem de grãos. Além disso, atua na prestação de serviços na colheita e produção de silagem. Mas a grande atividade é o confinamento para terceiros. Com capacidade para engorda de até 30 mil animais por giro, a estrutura funciona com dois modelos. O primeiro é uma parceria, em que o dono do animal divide os custos do confinamento e o ganho do animal com Tonhá. “Nesse caso, a vantagem é poder usar a estrutura do confinamento, que teria um alto investimento”, diz Tonhá.
Outro sistema, mais procurado, é o chamado “boitel”. Nesse modelo o produtor paga uma “diária” para manter seu animal engordando nos cochos da Estância Bahia. “Em média a diária custa R$ 4 e o boi fica em média 80 dias na área”, diz o empresário, que registra faturamento de R$ 10 milhões com esse serviço. Para o consultor da Scot Consultoria Gustavo Aguiar optar por boitel pode ser um bom negócio pelo baixo custo do investimento. “Quem coloca seu gado em confinamentos de terceiros não precisa investir em benfeitoria, nem imobilizar capital em estrutura que irá se degradar com o tempo”, diz. “Além disso, o confinador trabalha com grandes volumes e consegue um preço melhor no alimento. Dessa forma, o custo da diária paga, em média, é menor do que o gasto que o produtor teria para manter essa alimentação em sua propriedade”, completa. É assim, sem medo de grandes apostas, que esse baiano bom de conta pretende expandir seus serviços e ajudar a tocar as grandes boiadas do Brasil.
O empresário também faz dos leilões uma vitrine para a genética do seu plantel e dos parceiros