01/02/2012 - 0:00
Caio Brandão: “Nos bois castrados há uma significativa melhora da qualidade da carne”
De setembro de 2010 a janeiro deste ano, o pecuarista Caio Rebelo Brandão embarcou em 26 caminhões boiadeiros 571 bovinos para serem abatidos no frigorífico JBS de Naviraí, município localizado a 140 quilômetros de Dourados, em Mato Grosso do Sul. “Desta vez, os bois gordos estavam mais pesados que de costume”, diz Brandão, dono da fazenda Bom Princípio, de 2,4 mil hectares no distrito de Guassu, nas redondezas de Dourados, onde cria um rebanho de 4,6 mil animais das raças charolesa, brahman e nelore. As raças são utilizadas em sistema de cruzamento industrial e o abate dos animais foi um teste. Brandão diz ter usado no lote testado uma técnica que ajuda na engorda dos animais, mas que parecia estar desaparecida para sempre: a castração. No entanto, ao contrário do que era comum em décadas passadas, para castrar os animais o criador utilizou um medicamento – a chamada castração imunológica – no lugar do tradicional corte nos testículos para a retirada do saco escrotal do boi.
Conhecida como castração cirúrgica, a técnica era dolorida e sujeitava a rês castrada a infecções. Os animais da fazenda Bom Princípio, abatidos após a imunocastração – como vem sendo chamado o novo procedimento -, estão entre os primeiros lotes de gado que utilizaram a técnica após a fase de testes do medicamento em laboratório e campo.
Cirurgia, nunca mais: duas doses da vacina Bopriva, em um intervalo de 12 semanas, suspende a fertilidade do animal durante cinco meses, segundo os técnicos da norte-americana Pfizer
A castração cirúrgica era muito comum até meados da década de 1990, numa época em que os animais iam para o abate com idade muito acima de 24 meses. Por causa dos hormônios sexuais, caso não se fizesse a castração dos garrotes, era impossível o manejo de campo, em função da disputa entre eles por posições de liderança à medida que iam ficando adultos, como ocorre na natureza para toda espécie animal que vive em bando.
Com a modernização da pecuária nas últimas duas décadas, os bovinos passaram a se desenvolver mais rapidamente, por causa da alimentação em pastos de melhor qualidade e do aprimoramento genético. Dessa forma, o abate desses animais passou a ser mais cedo, antes de aflorarem os hormônios ou logo no início dessa fase.
Por isso, com o tempo, os pecuaristas foram deixando de castrar os machos que nasciam nas fazendas. “Mas os frigoríficos nunca gostaram dessa história. Para a indústria da carne, o boi castrado sempre foi melhor”, diz Brandão. “Nos castrados há uma significativa melhora da qualidade da carne, com mais gordura entremeada no músculo, se comparada à de bovinos inteiros criados nas mesmas condições.” O criador diz que entre as raças bovinas a nelore é a que mais se beneficiaria com o retorno da castração em larga escala. A carne desses animais, que praticamente está presente em 90% dos supermercados e açougues, possui pouca gordura muscular, em comparação com as raças britânicas, das quais o exemplo máximo de maciez provocada pela gordura intramuscular é o angus.
A técnica da castração imunológica foi desenvolvida pela Pfizer Saúde Animal, multinacional americana com sede em Nova York e presente em mais de 60 países. A apresentação oficial do produto, lançado no País com o nome comercial de Bopriva, foi realizada em maio de 2011. Segundo o laboratório, no segundo semestre deste ano, a novidade chegará ao México e no ano que vem será a vez de a Argentina começar a utilizar a tecnologia.
O medicamento, tratado como uma vacina pelos técnicos da Pfizer, deve ser aplicado nos animais em duas doses na tábua do pescoço, com um intervalo de 12 semanas entre elas. A primeira dose do produto serve para sensibilizar o sistema imunológico do animal. Somente com a segunda dose, de reforço, o medicamento passa a inibir completamente a produção de hormônios sexuais. “A suspensão da fertilidade dos machos é temporária e dura cinco meses”, diz Fernanda Hoe, gerente de produto da unidade de negócios Bovinos da Pfizer, em São Paulo. “No fim desse período, o animal pode ir para o abate ou receber uma terceira dose, aumentando a ação do medicamento para dez meses.” Duas aplicações do Bopriva saem por cerca de R$ 16, por animal.
Para Brandão, vale a pena castrar bovinos. Depois da experiência com a imunocastração, o criador vai comprar cerca de duas mil doses da vacina para usar a técnica em todo o rebanho a ser abatido nesta safra. “Vou aplicando a vacina em lotes de 170 animais para controlar o estoque no pasto e vender boi o ano inteiro”, diz. Brandão faz parte da Associação Sul-Mato- Grossense dos Produtores de Novilho Precoce (ASPNP), com sede em Campo Grande, e recebe a mais do frigorífico por negociar em conjunto com outros criadores que utilizam o mesmo processo os animais que vão resultar em carne de melhor qualidade. “Ganho um adicional entre R$ 40 e R$ 50 por animal.”