01/09/2010 - 0:00
João Capistrano de Abreu era cearense de Maranguape. Franzino e sábio. Com a ponta de seu lápis rabiscou anotações sem notória importância para a economia inicial do século passado. Atravessou o sertão no lombo de um jegue fazendo registros simplórios sobre os ciclos econômicos que moviam o Nordeste, o pau-brasil, a cana-de-açúcar, o ouro, o café e o gado. Daqueles papéis amarelados, amarrotados e rudemente guardados em surrados alforjes saíram versos verdadeiramente atuais para a economia mundial. Já dizia Capistrano de Abreu “…de couro são todas as cordas, a borracha para carregar a água, o mocó para guardar a roupa, a mochila para milhar cavalos, a peia para prendê-los. As bainhas das facas são de couro, as broacas e surrões, a roupa de entrar no mato, o gibão…” Hoje, as palavras rudes do poeta cearense, que por décadas passaram despercebidas, se medem em números para o agronegócio brasileiro: as exportações de couro nos sete primeiros meses deste ano já renderam US$ 1 bilhão ao País, registrando um aumento de 74% em relação ao mesmo período de 2009, mas ainda estão 16% abaixo do volume exportado em 2008. Analistas de mercado da Secretaria de Comércio Exterior, do Ministério da Indústria, Desenvolvimento e Comércio Exterior, dizem que estes números apontam para um segundo semestre difícil para o setor coureiro, e a previsão é de que o valor exportado em 2010 seja de US$ 1,7 bilhão, 51% a mais que no ano passado, quando a participação do setor no PIB, de US$ 3,5 bilhões, correspondeu a 7% do saldo da balança comercial. Apesar de já ostentar números poderosos para o agronegócio, recuperar as exportações de dois anos atrás agora é uma questão de honra para o segmento.
Os gargalos da economia brasileira são apontados como os principais entraves para que as exportações de couro voltem aos patamares registrados em 2008, quando atingiram US$ 2,2 bilhões, e a acirrada competição internacional, sobretudo com a China, também dificulta a recuperação das vendas externas. “Os setores industriais brasileiros, em vários segmentos, estão sofrendo com a supervalorização do real, o ‘custo Brasil’ (pesada carga tributária, elevadas taxas de juros e gargalos logísticos), além da lenta recuperação pós-crise de alguns mercados europeus”, explica Wolfgang Goerlich, presidente do Centro das Indústrias de Curtumes do Brasil (CICB). “Enquanto isso, a China tem uma política totalmente contrária e intensifica as exportações, fazendo mover a sua economia como bem sabemos.” Vicelíder na produção de couros, o Rio Grande do Sul registrou perdas de 39% nas vendas externas, na comparação entre os anos de 2008 e 2009. Dados da Associação das Indústrias de Curtume do Rio Grande do Sul (AI CSul) apontaram que o setor apresentou uma recuperação de 60% no faturamento com as exportações em 2010, totalizando US$ 258 milhões, mas o cenário ainda é visto como negativo. “Estes números nos animaram, mas eles retratam apenas uma ligeira melhora em relação a um quadro muito negativo, de grande dificuldade para o setor coureiro”, diz Francisco Gomes, presidente da AI CSul, entidade que reúne aproximadamente 80 indústrias no Estado. “Estamos vivendo um momento de calmaria geral e isso é muito assustador.” A produção brasileira teve destino certo no mercado externo neste primeiro semestre: 36% seguiram para a China, 32% para a Itália, 6% para os Estados Unidos e os outros 26% foram para novos mercados, como Noruega, Hungria, Uruguai, Costa Rica, Tunísia, Lituânia e Turquia. “O mercado está se ampliando sim, mas precisamos agregar valor ao nosso produto para não perder espaço para outros fornecedores”, analisa Goerlich.
Para tentar driblar os problemas econômicos, reconquistar os números do passado e seguir mantendose na vice-liderança da produção mundial, os curtidores brasileiros estão investindo pesado na produção sustentável, atendendo ao chamado Triple Botton Line, para agregar valor ao couro nacional e manter a competitividade no mercado externo. “Estamos conjugando três vertentes que devem ser mantidas em equilíbrio: fatores econômicos, sociais e ambientais”, diz Goerlich. “Neste momento, a cadeia produtiva está trabalhando na implementação de um certificado socioambiental, atestando a qualidade e as propriedades do produto oferecido.” Esta origem atestada transformou-se em item essencial para o sucesso das vendas externas. “Gigantes mundiais como a Adidas ou a Nike, por exemplo, colocam a rastreabilidade dos produtos importados como condição fundamental para comprar nosso produto. O mercado externo não aceita couro originário de florestas desmatadas, de fazendas que utilizam mão de obra escrava ou de propriedades que não mantêm o meio ambiente preservado. Agora, precisamos nos esforçar para mostrar que temos este produto que o mundo está querendo.” No sul, os produtores buscam ainda o selo de Denominação de Origem. “Temos aqui a tradição secular na produção de couros e hoje há uma intensa especialização na busca de produtos ecologicamente corretos. Isso faz diferença no mercado externo, que está cada vez mais exigente e preocupado com a origem de cada produto comprado”, reforça o presidente da AI CSul.