Aposta: pecuarista seleciona animais menores, mais parecidos com o padrão de gado europeu

À primeira vista, o pecuarista Luciano Borges Ribeiro pode até parecer um nelorista tradicional. Afinal, ele faz parte da quarta geração de sua família criando nelore Puro de Origem (PO). Sua propriedade, o Rancho da Matinha, fica instalada na cidade de Uberaba (MG), um dos mais tradicionais polos de pecuária do País. Mas o perfil tradicionalista acaba por aí. Na verdade, Borges está longe de ser um criador conservador e sua proposta de criação pode até soar como heresia aos mais avessos a mudanças. Afinal, seu plano é nada menos que “inventar” um novo nelore.

Campeão: foram vendidas 21 mil doses de sêmen do touro Hanuman em um único leilão no ano passado. Foi um recorde de venda

Engenheiro de formação, esse mineiro de fala mansa e jeito simples promove há 34 anos, nos 1.200 hectares de sua fazenda, onde mantém um rebanho de 500 prenhezes e 600 matrizes, uma rigorosa seleção genética que busca, em vez de bichos uniformes e belos, animais com atributos que privilegiem a produção de carne e leite.

O resultado é um gado mais baixo e “troncudo” do que o padrão da raça nelore e com ciclos mais curtos. Um modelo que vem fazendo sucesso no mercado. No ano passado, os leilões do Rancho da Matinha registraram algumas das maiores médias de preço. Somente o leilão Touros de Uberaba, principal pregão da fazenda, obteve média de preço superior a R$ 11 mil, com faturamento acima de R$ 2 milhões. “Estamos desenvolvendo uma nova morfologia para o nelore, produzindo animais mais produtivos e com características mais próximas às do gado europeu”, afirma o criador, que faz questão de ressaltar: “Estamos buscando um novo tipo de nelore.”

Outro ponto que mostra o crescimento do rebanho é a venda de sêmen, que no ano passado alcançou 110 mil doses, um crescimento de 30% em relação a 2008. A estrela da companhia é o touro Hanuman. Durante um leilão no ano passado, em apenas seis horas foram vendidas 21 mil doses de seu sêmen, cujo preço é de R$ 40. “São resultados expressivos e que explicam por que eu não vendo apenas animais. Estou vendendo um novo modelo de produção que pode ser muito rentável”, avalia Ribeiro.

Todo o trabalho é feito em cima de um programa de criação batizado de “Nelore de Ciclo Curto”. Entre as características almejadas estão precocidade reprodutiva, fertilidade, desenvolvimento, habilidade materna e terminação de carcaça. Assim, suas vacas ficam prenhas já aos 12 meses de idade, um ano de antecedência em relação à média da raça. Já o gado chega ao ponto de abate com 24 meses, pesando 18 arrobas, também um ano antes em relação à média. Segundo o geneticista e professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), José Aurélio Bergmann, essa evolução é um fator imprescindível para manter a pecuária brasileira competitiva. “Cada vez mais pecuaristas estão enxergando a importância de investir na seleção genética de animais com características voltadas à produção. Isso irá elevar o nelore brasileiro a um outro patamar”, pondera.

R$ 11 mil foi a média dos leilões de tourinhos, no ano passado em Uberaba (MG)

A vantagem desse modelo é que é um ciclo mais curto, no qual o produtor consegue antecipar a vida reprodutiva de suas matrizes, o que aumenta a liquidez. “Hoje calculamos uma rentabilidade de 18%, não apenas com o ganho de um bezerro a mais, mas também com a redução do período do gado no pasto”, diz. Para o analista da Scott Consultoria, Rafael Ribeiro de Lima, o modelo também pode contribuir para melhorar a taxa de desfrute, ou seja, o número de animais que são comercializados pelas fazendas. “Colocando em prática esse modelo, o Brasil conseguiria aumentar o giro de animais, reduzir os gastos e aumentar o desfrute do rebanho, de 20% para 30%, o que significa 1,5 milhão de animais a mais por ano”, explica.

Porém, Ribeiro pondera que não há mágica e que para se chegar a essa “linhagem” precoce é preciso investimento e manejo adequados. “Hoje o custo de um animal no pasto é de R$ 20 por mês, em média, enquanto no ciclo curto esse custo sobe para R$ 22 por mês, por animal”, diz o criador. Ele garante que se trata de um custo que compensa. “Não estou inventando a roda. Esse tipo de trabalho já existe em raças europeias, como o angus. Nós é que estamos atrasados. O angus só não acabou com o nelore por não se adaptar aos trópicos”, afirma o produtor.