01/03/2010 - 0:00
Sem receio: Paiva, pesquisador da Embrapa, diz que não tem medo dos ambientalistas
Protestos: segundo Paiva, a CTNBio está atenta aos protestos da sociedade, mas decide de forma científica
Famoso por ter uma postura em defesa dos transgênicos, o agrônomo Edilson Paiva acaba de ser nomeado para uma tarefa de grande responsabilidade: presidir por dois anos a Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio), órgão colegiado responsável por assessorar o governo federal no desenvolvimento da política nacional de biossegurança. A entidade cuida especialmente dos organismos geneticamente modificados (OGMs), que respondem por cerca de 125 milhões de hectares plantados em 25 países e movimentaram aproximadamente US$ 50 bilhões entre 1996 e 2008, segundo dados do Serviço Internacional de Aquisição de Aplicações em Agrobiotecnologia (ISAAA, sigla em inglês).
O novo presidente foi escolhido em 10 de fevereiro pelo ministro da Ciência e Tecnologia, Sergio Rezende, e já tem um importante desafio: conciliar as duas alas do colegiado, atualmente dividido em um grupo pró-transgênico, com 19 pesquisadores, e outro grupo menor, a ala “ambientalista”, com oito pesquisadores, que defendem maior cautela do órgão na hora de aprovar novos produtos. “Opiniões contrárias e embates de ideias são sempre positivos, porque nos estimulam a melhorar”, disse Paiva à DINHEIRO RURAL.
Mas Paiva tem fundamentos para defender os organismos geneticamente modificados, já que atuou durante 35 anos como pesquisador da Embrapa Milho e Sorgo, além de ser vice-presidente da CTNBio no mandato anterior, na gestão do médico bioquímico Walter Colli, época em que foi aprovado o maior número de produtos da história da entidade: 26, de um total de 31 desde 1996. Toda essa experiência certamente será necessária ante as questões polêmicas. A primeira refere-se à liberação do arroz Liberty Link, produzido pela Bayer e que recebeu voto desfavorável da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) em audiência pública realizada no final do ano passado. O novo presidente defende uma revisão do tema por parte da Embrapa. “Seria interessante uma reavaliação do assunto para verificar se o veto é fruto de riscos biológicos ou econômicos.” Outro ponto delicado é a medida da própria CTNBio sobre o fim do monitoramento dos transgênicos no mercado.
125 milhões de hectares é a área de transgênicos no mundo, um mercado de US$ 50 bilhões
A proposta colocada em pauta na última reunião do ano passado atinge a resolução número 5, aprovada em março de 2009, a qual determina o monitoramento constante dos efeitos causados por organismos geneticamente modificados que já estão liberados para comercialização. Com a polêmica, o assunto foi tirado de pauta na última reunião de 2009 e deve voltar à tona durante este ano. “Não houve tempo para discuti-la no ano passado. Faremos tudo com calma, sem pressa.”
Apesar das divergências sobre o assunto, Paiva acredita que a fase inicial das discussões sobre a biotecnologia no País já foi superada. Ele defende que agora é o momento de trabalhar para desenvolver organismos que possam servir como biofábrica de substâncias, como a levedura que permite a produção de diesel usando a cana-de-açúcar, aprovada em 11 de fevereiro deste ano. O produto é o primeiro transgênico desse tipo já aprovado pela comissão. Paiva explica que “esta é só a ponta do iceberg, porque temos uma infinidade de possibilidades”. Mesmo com o crescimento do setor, os transgênicos ainda são vistos com desconfiança em alguns setores.
Por isso, ele acredita que o principal entrave ao desenvolvimento da tecnologia no País ainda é a falta de informação. “Às vezes, pessoas que são contra os transgênicos se aproveitam da desinformação para espalhar dados que possam gerar desconfiança nas pessoas.” Com posições firmes, Paiva enxerga o crescimento do setor. “Esse é o século da biotecnologia. Mas temos que mudar os nossos conceitos porque ela terá impacto cada vez maior em nossas vidas”, pondera. Para contribuir com esse desenvolvimento, o novo presidente reitera a seriedade do trabalho da CTNBio ao analisar cada um dos projetos. “A CTNBio jamais vai abrir a guarda. Analisará cada caso com o mesmo rigor, não importa quanto tempo leve.”