01/02/2012 - 0:00
“Por causa do nosso capricho, há mais de uma década o café da Águas Claras é distribuído pela Illycaffé”
Eduardo Barbosa, dono da fazenda
As montanhas de Itapira, a 173 quilômetros de São Paulo, na encosta da Serra da Mantiqueira, saltam aos olhos logo que se deixa a rodovia Engenheiro João Tosello, a moderna SP-147, que corta o Circuito das Águas – um dos roteiros turísticos do interior do Estado – e também leva à fazenda Águas Claras. O cenário ao longo dos nove quilômetros da estradinha de terra batida que liga essa rodovia à fazenda vai revelando aos poucos a arquitetura colonial herdada pelos imigrantes italianos que chegaram à região nos idos de 1860. São imagens que levam a uma viagem no tempo. O arado de tração animal do período pós-colonial na entrada da centenária fazenda Águas Claras marca o início de uma dessas viagens. Ao atravessá- la, se inicia o resgate da memória da cultura cafeeira paulista. São construções horizontais, com pés-direitos altos e grandes janelas de batentes grossos e coloridos, alguns pintados de azul, outros de amarelo ou marrom.
Nos caminhos de pedras batidas estão as casas simples dos colonos e os casarões dos antigos barões do café, as tulhas para guardar a safra colhida, a marcenaria de paredes de taipa de pilão e um imenso terreiro de piso ladrilhado com geométricas lajotas de barro utilizado para a secagem do grão.
Foi nas asas desse tempo que se formaram os cafezais da fazenda Águas Claras, em 1870, o chamado ouro verde brasileiro. Mais de 140 anos depois, o herdeiro da propriedade, o paulista Eduardo Pereira Aranha Barbosa, vem dando continuidade à história da fazenda. Ele faz isso, porém, com um toque de modernidade. Além de produzir o café convencional, ele cultiva grão orgânico, planta frutas, cria vacas leiteiras e recebe muitos turistas. Barbosa diz que nem sonhava um dia ter em suas próprias mãos a administração da fazenda de sua infância. “Comecei a passar as férias escolares e os fins de semana na Águas Claras. Ao lado de meu pai, me apaixonei pela vida no campo.” A fazenda foi comprada pelo pai de Barbosa em 1979, quando ele tinha quatro anos de idade. Naquela época, o advogado na área de construção civil José Roberto Aranha Barbosa – que faleceu em 2001 -, encontrou apenas 30 mil pés de café, em uma área de cinco hectares do total de 354 hectares. “A fazenda havia perdido a sua função original. Meu pai investiu muito no aumento da produção de café”, diz Barbosa. Em 1985, passados seis anos, a Águas Claras já contava com 350 mil pés de café, em 100 hectares.
Atualmente, a fazenda produz 2,2 mil sacas de café que garantem uma receita anual de R$ 800 mil. Por safra, são duas mil sacas da espécie arábica padrão e 200 sacas de café orgânico, colhido em dez hectares. Por ter investido em qualidade, nos dois casos – para o café orgânico e o convencional -, a produção é classificada como tipo três, com 12 defeitos, uma ótima classificação pelas regras do mercado. “Por causa do nosso capricho, há mais de uma década o café da fazenda é distribuído pela empresa italiana Illycaffè”, diz Barbosa. Para se ter ideia, o grão commodity para exportação é do tipo seis, com 120 defeitos. No mercado internacional, o limite padrão aceito vai até o tipo oito, com 360 defeitos.
“Mas o padrão médio do café que o brasileiro está acostumado a tomar tem 900 defeitos”, diz Barbosa. O produtor conta que não foi fácil chegar à atual valorização de sua safra, de R$ 750 por saca de café orgânico, de R$ 700 pela saca do café especial e de R$ 600 pela saca do grão tradicional. Ainda adolescente, na década de 1990, Barbosa precisou de longas conversas com o pai, para convencê- lo a investir em sustentabilidade.
Em 1996, finalmente, o pai disse sim à proposta de mudar completamente o modelo de gestão da fazenda ao unir agricultura sustentável e turismo rural. A primeira parte do projeto incluía restaurar os casarões centenários e adequar toda a propriedade para receber hóspedes. Em 1998, os amplos cômodos de um deles, decorados com peças e móveis dos primórdios da história da fazenda, se transformaram em uma hospedaria com oito apartamentos para acomodar de duas a quatro pessoas, por unidade. Até os banheiros, com azulejos de cerâmica pintados à mão, foram restaurados. Na casa-sede foram restaurados mais quatro quartos, montado um restaurante, uma sala de televisão com lareira, a biblioteca, a sala de estar e uma sala de banhos com sauna úmida e a vapor, ducha e hidromassagem. As antigas tulhas de café passaram a abrigar a recepção, um salão de jogos e um bar com direito a um bom cafezinho tirado na hora e uma coleção de cachaça. “Apostava tanto na ideia de uma fazenda sustentável que logo depois de apresentar o plano de negócios a meu pai fui fazer faculdade de turismo”, diz Barbosa. Hoje, o responsável pela Águas Claras, ao lado de seus 35 funcionários, recebe por ano cerca de mil hóspedes.
1860
A fazenda Águas Claras é fundada
1870
Começa a formação do cafezal
1979
José Roberto Aranha Barbosa compra a fazenda com 30 mil pés de café em cinco hectares
1985
O cafezal chega a 350 mil pés em 100 hectares
1996
Eduardo Barbosa propõe ao pai mudar o modelo de gestão e apresenta um projeto de sustentabilidade
1998
A Águas Claras torna-se uma hospedaria e são abertos mais dez hectares para o café orgânico
2003
Começam a ser colhidos os primeiros grãos de café orgânico
2011
São colhidas duas mil sacas de café arábica padrão e 200 sacas de orgânico, que garantem um faturamento de R$ 800 mil
O maior movimento na hospedaria da fazenda ocorre no período de colheita do café, de maio a setembro, e também no mês de julho por ser férias escolares. Nesses períodos, quando são contratados 150 funcionários para o processo manual de colheita do grão, a fazenda Águas Claras ganha um movimento frenético de gente nas lavouras. Segundo Barbosa, os turistas adoram esse burburinho produtivo. “Uma das atividades propostas aos hóspedes é que eles participem da colheita do café, que em 1998 ganhou um atrativo adicional”, diz.
Foi nesse ano que começaram os investimentos no cultivo do grão orgânico. “Ao contrário do grão convencional, vendido na casca, esse café passa pela torrefação, ganha uma bela embalagem e sai da propriedade com a marca da fazenda.”
O manejo sustentável aplicado ao longo dos anos na fazenda Águas Claras acabou garantindo, além da qualidade, a permanência da família no negócio do café. Barbosa aliou a agricultura de precisão com manejos antigos, como o uso do terreiro para secagem do café e o lavador com função de separar os grãos, um aparato secular que consiste em um tanque de alvenaria, uma calha com saída ramificada e um fundo falso por onde os grãos pesados, e por isso bons, saem. “Com a visita semanal de um engenheiro agrônomo, cheguei à produtividade de 30 sacas de café por hectare”, diz.
Barbosa. A média do Brasil é 18 sacas por hectare. O café da Águas Claras já foi exportado para a França, Itália e Suíça, e ganhou vários prêmios da Associação Brasileira da Indústria do Café (Abic). Por exemplo, o prêmio regional e a terceira colocação nacional, pelo terceiro ano consecutivo, para o café em sachê. “Nossa meta é chegar a 40 sacas por hectare em três anos, sem irrigação, e depois passar para 50 sacas com o cafezal todo irrigado.”
Um projeto em andamento, com as primeiras sacas já produzidas na safra 2010/2011, é o do café do jacu. Fiz uma experiência em um nicho muito promissor”, diz Barbosa.
Na safra experimental, a fazenda Águas Claras colheu quatro sacas do produto. “Os japoneses estão loucos por esse café. Chegam a pagar R$ 3 mil pela saca”, diz. O preço médio de uma saca de café arábica no mercado internacional é de R$ 500. A criatura responsável por essa valorização do grão é uma raça de galinha, no caso a jacu, que após se fartar de café diretamente do pé, solta nas fezes o grão descascado, pronto para ser torrado e servido. Isso é possível porque a moela da ave tritura a casca. “O interessante é que essa galinha só come o grão no ponto ideal da colheita”, diz Barbosa.
A ideia de produzir café do jacu surgiu por causa dos prêmios oferecidos por qualidade. “Vou produzir para disputar concursos especiais para microlotes. Tem café especial que chega a custar R$ 7 mil por saca.” Se depender da natureza da fazenda Águas Claras, já que a ave precisa de área de vegetação abundante, o negócio está garantido. “Um terço da fazenda é de Mata Atlântica nativa, terreno ideal para a criação das aves”, diz Barbosa.
A Águas Claras conta ainda com cinco hectares produzindo cinco toneladas de banana orgânica, por safra, e 15 hectares de pasto onde dez vacas da raça girolanda produzem diariamente sete litros de leite orgânico, cada uma. Com o leite são feitos, por exemplo, o queijo fresco que abastece a hospedaria. Das mãos de Isaías Pedro Marques, o chefe de cozinha e braço direito de Barbosa, ainda saem as geleias e os sorvetes de oito tipos de frutas cultivadas na fazenda, como laranja, lichia, romã e graviola.
Neste ano, com investimento de R$ 10 mil por hectare, a Águas Claras avança em seu projeto de produtos orgânicos e inicia o cultivo de limão e maracujá. “Ainda temos trabalho para mais 100 anos”, diz Barbosa.