A elevada dependência brasileira de fertilizantes importados voltou ao centro do debate sobre a competitividade do agronegócio. Apesar de ocupar uma posição de destaque na produção mundial de alimentos, o Brasil ainda depende do mercado internacional para abastecer grande parte de suas lavouras com insumos essenciais.

Segundo levantamento da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), 93% dos fertilizantes utilizados no país em 2025 foram importados. O indicador evidencia a exposição dos produtores rurais às oscilações cambiais, aos custos de transporte e às mudanças nas condições de oferta internacional.

O cenário reforça a discussão sobre a necessidade de ampliar a produção nacional, diversificar fornecedores e criar condições para investimentos na indústria brasileira de fertilizantes.

Dependência externa preocupa o agronegócio

O Brasil está entre os maiores consumidores de fertilizantes do mundo. Os produtos são utilizados para fornecer nutrientes ao solo e sustentar a produtividade de culturas como soja, milho e cana-de-açúcar.

A importância desses insumos para a agricultura contrasta com a capacidade limitada de produção nacional.

Dados do Observatório Nacional de Transporte e Logística, da Infra S.A., mostram que a participação das importações no atendimento à demanda brasileira passou de 70% em 2015 para 91% em 2024.

O aumento da dependência ocorreu em um período de expansão do consumo agrícola, tornando o abastecimento nacional mais sensível a acontecimentos fora do país.

Mesmo quando não há falta de fertilizantes no mercado, a necessidade de recorrer a fornecedores estrangeiros pode elevar os custos de produção e dificultar o planejamento das safras.

Câmbio e conflitos internacionais pressionam custos

O preço dos fertilizantes é influenciado por fatores que vão além da demanda brasileira.

A cotação do dólar, os custos de transporte marítimo, as condições logísticas e as tensões geopolíticas podem alterar o valor pago pelos produtores.

Em análise sobre a safra 2026/2027, a CNA apontou que os fertilizantes permanecem em patamares elevados desde o choque internacional de preços registrado em 2022.

A entidade também identificou uma piora na relação de troca para determinadas culturas. Na prática, isso significa que o agricultor precisa entregar uma quantidade maior de sua produção para adquirir o mesmo volume de insumos.

Esse movimento reduz as margens de rentabilidade e pode comprometer decisões de investimento no campo.

Além disso, a concentração das compras em fornecedores externos aumenta a importância de estratégias para diversificar as origens dos produtos.

Produção nacional enfrenta obstáculos

A ampliação da fabricação de fertilizantes no Brasil depende de investimentos industriais, infraestrutura adequada e acesso competitivo a matérias-primas.

O Ministério da Agricultura identifica desafios diferentes para cada segmento.

Na produção de fertilizantes nitrogenados, o custo e a disponibilidade do gás natural são fatores relevantes para a competitividade.

Já os projetos relacionados a fosfato e potássio podem exigir investimentos elevados em mineração, transporte e infraestrutura, especialmente quando estão localizados em regiões afastadas dos principais centros consumidores.

Os custos de energia e as limitações logísticas também afetam a indústria.

O transporte ferroviário insuficiente em determinadas regiões, a dependência das rodovias e os custos portuários dificultam a movimentação de matérias-primas e produtos acabados.

Por isso, o fortalecimento da indústria nacional envolve medidas que ultrapassam a construção de novas fábricas.

Plano Nacional de Fertilizantes busca ampliar oferta brasileira

O governo federal dispõe de um Plano Nacional de Fertilizantes, estruturado para o período de 2022 a 2050.

Entre as diretrizes estão a modernização, a reativação e a ampliação de unidades industriais, além da melhoria do ambiente de negócios para atrair investimentos.

A política também prevê o desenvolvimento de tecnologias, o fortalecimento da cadeia produtiva e a busca por maior competitividade.

A redução da dependência externa, no entanto, é um objetivo de longo prazo.

A implantação de projetos industriais e de mineração exige planejamento, licenciamento, financiamento e condições econômicas capazes de sustentar a produção.

Nesse contexto, a ampliação da oferta nacional precisa ser acompanhada de estratégias para garantir o abastecimento durante o período de transição.

O que muda para o produtor rural?

Para os agricultores, a dependência de fertilizantes importados representa um risco direto ao custo das safras.

Quando os preços internacionais sobem ou o real perde valor diante do dólar, o gasto com adubação pode aumentar, mesmo sem alterações significativas na quantidade aplicada.

Esse impacto é especialmente relevante em culturas que utilizam grandes volumes de insumos.

O encarecimento dos fertilizantes também pode influenciar o planejamento de plantio, as decisões de compra e as margens financeiras das propriedades.

Especialistas e entidades do setor defendem que o enfrentamento desse problema exige uma combinação de medidas: maior produção brasileira, diversificação de fornecedores, investimentos logísticos e melhor gestão de riscos.

O desafio é reduzir a vulnerabilidade do agronegócio sem comprometer a disponibilidade de insumos necessários à produção de alimentos.

Com o avanço da demanda agrícola, a discussão sobre fertilizantes tende a permanecer como uma das prioridades estratégicas para a competitividade do campo brasileiro.