Os fretes rodoviários de carga de grãos devem permanecer pressionados nos próximos meses, mesmo com a colheita da soja se aproximando do fim em parte do País. A avaliação consta do Boletim Logístico de abril da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), que aponta uma combinação de safra recorde, necessidade de liberar armazéns, avanço da segunda safra de milho, diesel mais caro e redução da margem dos transportadores como fatores de sustentação dos preços.

A Conab estimou, no sétimo levantamento da safra 2025/26, produção brasileira de grãos de 356,3 milhões de toneladas, novo recorde caso o volume se confirme. A projeção representa alta de 4,1 milhões de toneladas ante a temporada anterior e acréscimo de 2,9 milhões de toneladas em relação ao levantamento de março. Para a soja, a companhia prevê produção recorde de 179,2 milhões de toneladas. A colheita da oleaginosa havia alcançado 85,7% da área, favorecida pela redução das chuvas em março. No milho, a produção total é estimada em 139,6 milhões de toneladas, com 109,1 milhões de toneladas esperadas na segunda safra.

O quadro logístico, segundo a estatal, já não depende apenas do pico da colheita da soja. Em Mato Grosso, maior produtor nacional de grãos, a Conab afirmou que a demanda por transporte segue “firme e intensa” para dar vazão ao volume estocado e abrir espaço para a colheita do milho segunda safra, “que também promete enorme volume, especialmente a partir de junho”. “Assim, as perspectivas são de persistência do quadro de logística aquecida”, informou a companhia.

O boletim mostra que o comportamento dos fretes em março foi heterogêneo, com queda moderada em algumas rotas e alta em outras, mas sem retorno a patamares baixos. Em Mato Grosso, a rota Sorriso-Santos recuou de R$ 520 para R$ 510 por tonelada entre fevereiro e março, mas ainda ficou 13% acima de março de 2025.

Para Paranaguá, o frete a partir de Sorriso caiu de R$ 500 para R$ 490 por tonelada, com alta anual de 14%. Já em Querência, região de colheita mais tardia no Vale do Araguaia, os preços seguiram em alta: o frete para Santos subiu de R$ 480 para R$ 500 por tonelada; para São Luís, de R$ 480 para R$ 520; e para Barcarena, de R$ 420 para R$ 460.

A Conab atribuiu essa diferença regional ao calendário da colheita. Nas regiões onde a retirada da soja começou mais cedo, como o Médio-Norte de Mato Grosso, houve alívio pontual. Nas áreas mais tardias, como o Vale do Araguaia, a entrada mais recente de carga manteve a relação entre oferta e demanda por caminhões mais ajustada. A companhia também observou que os fretes para pontos de transbordo e terminais tiveram queda maior ou alta mais moderada do que os embarques rodoviários diretos aos portos.

O principal risco, segundo o boletim, é que a alta do diesel reduza a rentabilidade do transporte justamente no período em que o setor precisa manter a frota em circulação. “Neste momento, a inflação do diesel tem achatado a margem das transportadoras”, informou a Conab. A companhia acrescentou que a preocupação é com uma “eventual inflexão no mercado de fretes no médio prazo, diante de uma conjuntura de custos ascendentes”, o que poderia “inviabilizar a operação de uma parcela destes agentes, com potencial para provocar efeitos negativos no longo prazo, como a saída de caminhões da atividade e o consequente aumento no patamar geral de preços de transportes”.

Em Goiás, a pressão aparece de forma mais direta. A Conab informou que o Diesel S10 atingiu patamares sem precedentes em março, com alta média superior a 25% em 30 dias e picos de R$ 7,89 em polos como Rio Verde. Segundo a companhia, transportadoras estruturadas ainda conseguem absorver parte da alta por meio de contratos de escala, mas o autônomo enfrenta perda de margem, o que aumenta a seletividade na oferta de caminhões em praças com grande disponibilidade de carga, como Catalão e Cristalina. “A sustentabilidade deste escoamento nas próximas semanas, dependerá de um realinhamento tarifário”, informou a Conab, ao citar risco de retração da frota autônoma e ameaça à fluidez das exportações e do abastecimento interno. Em Cristalina, com 90% da colheita concluída, o volume de carga superava a oferta de caminhões, e a região foi apontada como a de maior risco de atraso no escoamento no Estado.

A sustentação dos fretes também aparece em outras regiões. No Distrito Federal, a Conab projeta manutenção de preços elevados nos próximos meses, após alta em todas as rotas pesquisadas em março. A rota Brasília-Araguari subiu 12% ante fevereiro, para R$ 153,33 por tonelada; Brasília-Paranaguá avançou 10%, para R$ 366,67; e Brasília-Santos aumentou 7%, para R$ 356,67. Na Bahia, os fretes subiram nas principais praças produtoras, influenciados pelo avanço da colheita, pela redução de prestadores de serviço e pela alta do diesel. Em Luís Eduardo Magalhães, o frete para Salvador avançou 18% no mês, para R$ 290 por tonelada; para Belo Horizonte, 19%, para R$ 340; e para Recife, 18%, para R$ 390.

No Maranhão, o início do escoamento da soja elevou o fluxo de caminhões, sobretudo no sul do Estado. Algumas rotas para o Porto do Itaqui recuaram, mas outras subiram até 23,3% ante fevereiro, principalmente pelo reajuste do diesel após a escalada da guerra no Oriente Médio. Segundo a Conab, o diesel S10 teve preço médio de R$ 6,80 por litro em março, alta de 15,45%, enquanto o diesel comum chegou a R$ 6,81, avanço de 16,01%. Em Mato Grosso do Sul, a pressão foi menos uniforme, mas os fretes seguiram elevados pelo avanço da colheita da soja e pela intensificação dos embarques externos. O Estado exportou 1,227 milhão de toneladas de soja em março, ampliando o uso de rotas de média e longa distância para Paranaguá, São Francisco do Sul e Santos.