Mãe da ideia: Debbie Hirst, consultora de projetos especiais da Globalstar, idealizou o rastreador de bovinos via satélite e online

Siga 300 metros e entre na próxima rua à esquerda. Após o sinal, vire à direita.” Hoje, está muito fácil chegar a qualquer lugar quando as instruções aparecem em uma tela colorida, com direito a viva-voz e a um mapa interativo, no qual um ponto vermelho que pisca é você, dirigindo o seu carro. Os aparelhos de localização via satélite (GPS ou Global Positioning System) se tornaram comuns dentro de veículos nas ruas das cidades e nas estradas brasileiras. As versões disponíveis contam com tela de LCD colorida e narrativa em diversos idiomas. Sofisticação e tecnologia que agora, imagine, poderá ser utilizada no campo. Ou melhor, no gado, no lugar do brinco eletrônico destinado à identificação individual dos animais, utilizado atualmente.

Equipamento: o brinco pesa 114 gramas e foi testado pelo Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de São Paulo

A tecnologia de rastreador de bovinos via satélite e online está chegando ao mercado por meio da americana Globalstar, empresa precursora da telefonia por satélite no País. No sistema, que está em etapa final de validação de campo, os sinais sobre a localização do gado são captados pelos satélites da empresa e encaminhados a centros de processamento terrestre. Na sequência, são transferidos para a internet, onde podem ser visualizados em mapas eletrônicos. “Além da localização do gado, no qual o produtor entra no sistema através de uma senha, o GPS pode ser programado para enviar avisos quando algum animal se desloca para áreas indevidas, criando assim uma espécie de cerca virtual eletrônica”, diz Debbie Hirst, idealizadora e consultora de projetos especiais da Globalstar.

Também apresentado em formato de brinco e pesando 114 gramas, o equipamento é capaz de rastrear os movimentos do gado, permitindo que criadores e redes de supermercados saibam se determinados animais passaram ou não por áreas de preservação ambiental. Aliás, essa é a aposta da empresa: a rastreabilidade, cada vez mais exigida pelos países importadores da carne brasileira e por grandes redes varejistas. De acordo com a consultora, exigências essas que hoje não se têm como comprovar. “Esperamos que, com a tecnologia, problemas como o embargo que a Rússia fez aos produtos brasileiros em junho, possam ser evitados no futuro”, afirma Debbie.

Diferentemente das alternativas existentes no mercado, como o brinco eletrônico com leitura manual do código de barras, o modelo desenvolvido pela Globalstar se comporta como qualquer rastreador de satélite. O brinco funciona como um transmissor que não precisa ser trocado durante toda a vida do animal. Para isso, ele dispõe de uma bateria solar e pode ser reutilizado. O rastreador está programado para enviar ao satélite quatro sinais por dia. “Afinal, nas fazendas mais tecnificadas o gado não vai tão longe”, diz a consultora. “Nelas, os pastos são menores.” Segundo Debbie, o Brasil foi escolhido para o lançamento desse sistema por sua importância no agronegócio mundial e pelo tamanho de seu rebanho bovino. “São cerca de 200 milhões de animais, a maior parte deles criada de forma extensiva.”

A estimativa é de que o custo mensal para a transmissão de dados seja de cerca de R$ 10, por equipamento. Junte-se a isso, o preço do brinco rastreador, que ainda não está definido. O sistema não é barato. Um brinco eletrônico, por exemplo, custa no mercado a partir de R$ 5 e o preço máximo não fica muito além disso. O protótipo da Globalstar foi testado no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de São Paulo (IFSP), no campus de São Roque. “Inicialmente, realizamos o teste com o gado leiteiro. O objetivo foi avaliar se o aparelho poderia provocar mudanças de comportamento, como redução no consumo de alimentos e na produção de leite, ou causar danos físicos aos animais”, diz o professor Francisco Rafael Martins Soto, responsável pelos testes de campo. De acordo com Soto, o aparelho não incomodou os animais. Segundo a Globalstar, o lançamento do produto ocorrerá em aproximadamente seis meses.

Como outras empresas do segmento de telefonia por satélite, no começo dos anos 2000 a Globalstar enfrentou problemas com seu modelo de negócio, o que a levou à falência em 2002. Sua reestruturação foi concluída em 2004. Em 2007, a empresa enfrentou novos problemas, dessa vez com as antenas de seus satélites, que começaram a falhar. A situação levou a Globalstar a se voltar aos produtos baseados somente em transferência de dados. Com o acerto de rota, no ano passado, ela faturou US$ 68 milhões com o desenvolvimento de tecnologias. Atualmente, a Globalstar conta com 44 satélites de órbita baixa (LEO, na sigla em inglês) e planeja lançar outros 18 até o final do ano, para retomar seus serviços de voz e entrar no mercado pecuário.