Mesmo que o conflito no Oriente Médio tenha horizonte incerto para acabar, o estopim já trouxe efeito para os preços dos principais adubos usados em lavouras no Brasil e pelos Estados Unidos – os dois maiores produtores de grãos do mundo. A diferença, contudo, é a época do cultivo. Neste momento do ano, os produtores norte-americanos estão às vésperas do plantio, quando não podem esperar para comprar adubo. A guerra, portanto, os afeta em cheio.

+ De fertilizantes a carne de frango: veja os setores do agro mais afetados pelo conflito no Irã

Já os brasileiros terão mais tempo. Desde a eclosão do conflito gerado pelos Estados Unidos e Israel ao atacarem o Irã, a tonelada da ureia, um tipo de fertilizante nitrogenado muito usado em lavouras de milho, por exemplo, subiu cerca de 35%, para US$ 650.

Do Oriente Médio saem quase quatro milhões de toneladas ou 40% dos adubos nitrogenados que o mundo consome. Só o Irã responde por 10%. São dados da Associação Internacional de Fertilizantes (IFA, na sigla em inglês). “Se durar dois meses o impacto em preços será muito forte. Mas agora o mico está com os produtores americanos”, reforça Renato Françoso, consultor de fertilizantes da StoneX.

No Brasil, em época de colheita e comercialização, o plantio de maiores volumes de grãos volta a acontecer a partir de julho. Via de regra, nesta época do ano, os agricultores que produzem grãos começam a comprar os fertilizantes que vão ser usados mais adiante.

Para quem precisa comprar o ano todo (vale lembrar que produtores de cana de açúcar e café precisam do mesmo adubo sempre) e para as indústrias misturadoras de adubos locais há dor de cabeça agora. A instabilidade envolvendo o Irã já provocou uma paralisia no comércio global, com vendedores inclusive retirando tabelas de preços de circulação.

Os fosfatados, outro tipo de fertilizantes usados e provenientes da região, também sofreram algum impacto. O maior impacto está na alta de preços de matérias-primas como enxofre e amônia. “O enxofre afeta a cadeia de fosfatados, e pelo Golfo Árabe passam quase 50% de todo enxofre importado no mundo”, disse Aluísio Teixeira, presidente do Sindicato da Indústria de Adubos do Paraná.

O maior volume entre os produtores de grãos, que são o carro-chefe da safra brasileira, é adquirido a partir de maio e desembarca no país na metade do ano. Em 2025, o Irã isoladamente forneceu 180 mil toneladas de ureia para os brasileiros, é um volume baixo.

Contudo, se somados outros países do Oriente Médio, a representatividade cresce para 35% do total consumido na safra passada. Françoso explica que parte da ureia enviada aos brasileiros vem de Omã ou Catar, locais afetados pelo estrangulamento do Estreito de Ormuz nesta semana.

No ano passado, o Brasil importou 100% de sua necessidade de ureia, sendo que 41% desse volume — quase 3 milhões de toneladas — transitou pelo Estreito de Ormuz, informa a Agrinvest. O sócio-diretor da Agroconsult, Francisco Vieira, disse à agência Reuters que a guerra restringirá o fornecimento no curto prazo, elevando preços e eliminando, momentaneamente, as remessas iranianas.

Não há garantias sequer sobre a integridade física das plantas industriais naquela região. Existem tentativas de buscar saídas logísticas que evitem o gargalo do Estreito de Ormuz. A produção poderia escoar pelo Mar Vermelho, enquanto Omã possui terminais afastados da zona de maior conflito. Contudo, a viabilidade econômica dessas operações permanece incerta.

E as exportações?

Se por um lado, para o cultivo da safra, a preocupação ainda é incipiente, por outro, o acirramento das tensões no Oriente Médio preocupa os exportadores de grãos e proteínas. Há riscos reais de cancelamentos de contratos e desabastecimento dos brasileiros, pois o Irã é um comprador estratégico de commodities naquela região. O gargalo logístico, por onde circula grande parte do comércio na área de conflito, transformou-se no centro das preocupações de exportadores.

O setor exportador já avalia alternativas emergenciais, como o descarregamento de cargas em Omã para evitar o ingresso no turbulento Golfo Pérsico. A viabilidade dessa rota ainda é incerta, já que não há garantias de que o volume total de grãos possa seguir por caminhão ou ferrovia até os destinos finais. Caso a logística terrestre se mostre inviável, a alternativa restante para as tradings seria o cancelamento sumário dos embarques programados.

O impacto financeiro já era sentido na semana passada no aumento substancial das apólices de seguro marítimo, reflexo da navegação em águas classificadas como de alto risco. Cargas a granel essenciais, como o milho, dependem obrigatoriamente da passagem pelo Estreito de Ormuz.

A relevância do mercado iraniano para o produtor brasileiro é evidenciada pelos números do último ano, quando o país se consolidou como o principal destino do milho nacional. O Irã adquiriu cerca de nove milhões de toneladas do cereal, o que representa aproximadamente 20% do total embarcado pelo Brasil.

*Com agências