Reinvenção: os irmãos Marcos (à esq.) e César na fábrica que produz leite UHT, hoje o carro-chefe do negócio  

“Chegamos até aqui porque saímos da commodity e agregamos valor ao leite”

César Helou, presidente do laticínio Bela Vista

Pode até parecer um conto da carochinha, mas foi com apenas uma casa e uma pequena fábrica de manteiga quase falida que a história do laticínio goiano Bela Vista, hoje o quinto colocado no ranking dos maiores do País, foi construída pela família Helou. Essa história começou depois que o contador Saladi Helou fez, em 1974, uma espécie de escambo um tanto arriscado com o cunhado João Skaf. Helou trocou a casa de classe média no bairro do Brooklin, em São Paulo, onde morava com a família, pela fábrica de manteiga de Piracanjuba, município a 87 quilômetros de Goiânia. A fabriqueta, cuja razão social era laticínio Skaf, funcionava desde 1955 em uma chácara de 12 hectares e vendia seus produtos com o nome da cidade estampado na etiqueta. Hoje, a marca Piracanjuba é responsável pelo faturamento milionário do laticínio Bela Vista, nome com que foi rebatizada a fábrica de Skaf, que, além da manteiga, processa leite longa-vida, creme de leite, leite condensado, leite em pó, queijos e bebidas lácteas. No ano passado, o Bela Vista faturou R$ 800 milhões e deve chegar a R$ 1 bilhão neste ano. “Chegamos até aqui porque aprendemos a agregar valor ao leite, aprendemos a sair da commodity”, diz César Helou, presidente do laticínio. Ao lado do irmão Marcos Helou, César administra o negócio herdado do pai, Saladi, morto em 1985.

A virada nos negócios começou nessa época. Com a herança nas mãos, Marcos e César, formados em engenharia civil e que até então não se envolviam com a atividade do pai, decidiram que era hora de mudar e tocar em frente o lacticínio, em vez de vendê-lo. A partir daí, os irmãos reinventaram a marca Piracanjuba, do planejamento de compra da matéria-prima à entrega dos produtos. “Pegamos a empresa à beira da falência, mas sabíamos que era possível reverter a situação”, diz César. O resultado do esforço da dupla pode ser visto hoje. Os irmãos conseguiram ampliar o negócio, usado como pretexto pelo pai para se mudar para Goiás, de dois mil litros de leite processados por dia para 1,7 milhão de litros. E ainda há espaço para crescer. A capacidade do laticínio permite processar 3,1 milhões de litros de leite por dia.

Na fazenda: o produtor Skaf incrementou o rebanho com 60 vacas holandesas, como essa da Pró-Campo 

 

Tudo que o técnico diz a gente anota e vai executando. Já investi R$ 500 mil na propriedade

Ricardo Skaf, que produz 1,4 mil litros de leite por dia

 

Paradoxalmente, o crescimento da marca Piracanjuba começou a acelerar no início da década 1990, depois que o então presidente à época, Fernando Collor de Mello, abriu o mercado nacional às importações. Com isso, os queijos a preços mais acessíveis e de boa qualidade invadiram as gôndolas dos supermercados. Os irmãos começaram a se sentir encurralados. No entanto, em vez de jogar a toalha, como tantos empresários nacionais, eles resolveram resistir e reinventar o negócio. “Não havia outra saída que não fosse o investimento em uma fábrica maior, para fazer frente aos queijos importados”, diz César. Nessa época, eles já haviam adquirido um certo traquejo nos investimentos e começavam a ficar craques em poupar. Poucos anos antes, em 1986, os irmãos já haviam construído uma pequena fábrica de queijos e manteiga em Bela Vista de Goiás, município vizinho a Piracanjuba. “Foi também nessa época que mudamos o nome do laticínio de Skaf para Bela Vista”, diz César. O laticínio com todas as suas linhas, que ocupa uma ampla construção, é do fim da década de 1990. “Nessa época ainda produzíamos apenas queijo e manteiga”, diz Marcos.

Com a nova fábrica, os herdeiros decidiram que era hora de apostar em outros produtos. “Em 2002, entramos no mercado do leite longa-vida e passamos a captar mais matéria-prima”, diz Marcos. Segundo ele, o trunfo da empresa foi aproveitar o crescimento da produção de leite em Goiás. Nessa época, o setor passou a receber muitos incentivos do governo do Estado por meio de programas de crédito ao produtor rural. De 1990 a 2005, por causa do melhoramento genético do rebanho bovino, a produção de leite em Goiás cresceu quase 70%. Na última década e meia, o aumento tem sido de cerca de 4% ao ano. Em 2011, os pecuaristas entregaram aos laticínios 3,2 bilhões de litros de leite. Com mais leite na praça, o consumo de lácteos também aumentou. “Ao longo desses anos, o crescimento do consumo em Goiás foi de 18%”, diz César. Com o vento a favor, os Helou ampliaram seu negócio. “Além do mercado goiano, passamos a vender a outros Estados.”

O crescimento da demanda e a diversificação regional levaram a Bela Vista a construir novas unidades fora de Goiás. Desde 2008, os irmãos Helou investiram cerca de R$ 100 milhões, volume de recursos que deverá ser replicado nos próximos três anos. Fez parte do pacote a construção de uma fábrica em Maravilha, município catarinense a 620 quilômetros de Florianópolis. O laticínio tem capacidade para receber 450 mil litros de leite, por dia, e custou R$ 35 milhões. Na unidade são processados produtos destinados ao Sul e Sudeste do País. “A aposta foi certeira”, diz César. “Segundo ele, em 2011, a fábrica de Maravilha representou 8% do faturamento total do Bela Vista, e neste ano deve passar a 20%.” Até 2015, serão investidos mais R$ 55 milhões na expansão dessa fábrica, para atingir 1,2 milhão de litros de leite processados por dia.

 Aprendizado: Carvalho (à esq.) diz que a fazenda-modelo tem todas as ferramentas para ajudar os produtores a obter mais leite

 

Também está previsto um investimento de R$ 30 milhões em um laticínio em Governador Valadares, uma das principais bacias leiteiras de Minas Gerais. A construção da unidade que vai processar 300 mil litros de leite por dia começa em julho. “Trabalhamos para ter uma receita de R$ 2 bilhões em 2016”, diz César.

Para atingir esse objetivo, César e Marcos sabem que precisam captar no mercado, além de quantidade, matéria- prima de qualidade. Em Santa Catarina e Minas Gerais, por serem Estados tradicionais na produção de leite de qualidade, a missão é mais fácil. Goiás, porém, tem requerido um esforço além do incentivo financeiro aos produtores, por meio dos bônus pagos por qualidade. “Leite é um produto que necessita de urgência na manipulação”, diz César. “A qualidade é a soma de boa genética da vaca leiteira, higiene na ordenha e segurança na captação.” Por isso, em 2002, o laticínio lançou o projeto Pró-Campo, uma fazenda-modelo que funciona como escola. Coordenado por Luiz Magno de Carvalho, diretor de política leiteira do Bela Vista, o programa oferece aos produtores treinamento, assistência técnica e o apoio de veterinários, zootecnistas e agrônomos. “Na fazenda temos todos os tipos de ordenha, vários tipos de pastagens e diversos sistemas de manejo do gado”, diz Carvalho. “A experiência exibida serve de exemplo a pequenos e grandes produtores.”

Quem passa pelos treinamentos do Pró-Campo consegue produzir leite de melhor qualidade e é recompensado.

Os fornecedores do laticínio recebem prêmios por qualidade, de acordo com a composição do leite: quanto menor a quantidade de bactérias e maiores os teores de gordura e proteína, maior a remuneração. “Quando o produtor entende esse processo, passa a ficar mais crítico com as normas de controle de sua fazenda”, diz Carvalho.

Atualmente, o laticínio conta com 3,2 mil produtores cadastrados. Um deles é Ricardo Skaf, que participa do Pró-Campo desde que o programa foi lançado. Skaf, dono de uma área de 37 hectares, produzia entre 20 e 60 litros de leite por dia, com cerca de 20 vacas em lactação. Hoje, Skaf tem 60 vacas holandesas em produção, um rebanho de 250 animais e entrega ao laticínio 1,4 mil litros de leite por dia. “Tudo o que o técnico diz a gente anota e vai executando”, diz Skaf. “Desde que entrei para o programa já investi R$ 500 mil.” Carvalho diz que Skaf é um exemplo de profissionalização da produção leiteira. “Sem orientação, fica difícil o produtor melhorar a gestão da fazenda.” Para Skaf, além da assistência, o produtor necessita de financiamento para se sair bem na atividade. “Sem essas duas ferramentas não se mexe com leite”, diz Skaf. “Há dinheiro nos bancos, demanda por leite e preço para quem tem qualidade. Só é preciso se organizar.”