A TODO VAPOR: a produção artesanal de ovos de Páscoa da Ofner vai crescer 15% neste ano

Abril, que para o poeta americano T.S. Elliot era o mais cruel dos meses, é um momento de celebração para os produtores brasileiros de cacau. É nessa época que eles concluem a colheita iniciada em março e começam sua comercialização, preparando as condições para a safra do ano seguinte. Nesse período, invariavelmente, suas receitas têm um aditivo particular: a demanda dos fabricantes de ovos de Páscoa, um evento sazonal que turbina a atividade, base de uma cadeia que movimenta US$ 7 bilhões por ano, no País, de acordo com a Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira (Ceplac). “Afinal de contas não é toda cultura agrícola que tem um dia especial no ano, comemorado quase que no mundo inteiro”, afirma Júlio Calasans, produtor de cacau na fazenda Joventina, em Travessão, no sul da Bahia, que conta com a data para engordar a conta bancária e planejar o futuro.“É depois dela que decidimos os investimentos para a próxima temporada.” Na Joventina, o cultivo da fruta é tradição que vem de pai para filho. A produção da matéria-prima para a fabricação de chocolate começou na década de 1940, com o avô de Calasans. Segundo o produtor, a colheita esperada deste ano, de 90 toneladas de cacau, plantada em 160 hectares, que representa um aumento de 22,45% ante a produção de 2011, vai direto para os fabricantes. Em dinheiro sonante, isso significa mais de R$ 360 mil – na bolsa de Nova York, que estabelece os preços no mercado mundial, a tonelada do cacau está cotada a algo em torno de R$ 4,2 mil. “Quanto mais ganho, mais invisto em insumos, como adubos e fungicidas, além de mão de obra especializada”, diz Calasans. No Brasil, 40 mil produtores devem produzir, neste ano, 181 mil toneladas de cacau, uma queda de 10% sobre o resultado do ano passado, em função das perdas provocadas pela praga conhecida como vassoura de bruxa. Do total colhido, 73% estão concentrados na Bahia e 23% no Pará. O restante vem de pequenas produções no Amazonas, Espírito Santo, Mato Grosso e Rondônia. “O Pará vem colocando o cacau como item cada vez mais importante em sua pauta”, diz Walter Tegani, secretário-executivo da Associação das Indústrias Processadoras de Cacau (AIPC). Os produtores locais estão investindo constantemente para atender às necessidades da indústria processadora. Segundo Tegani, para suprir a demanda por cacau no País, em torno de 200 mil toneladas por ano, será necessário recorrer às importações.

É o que devem fazer os fabricantes de chocolate, que começaram o ano a todo vapor, empurrados pelas vendas de ovos de Páscoa – terceiro maior produtor de chocolate, o Brasil se transforma no segundo principal consumidor nessa época. A líder nessa categoria é a Lacta, da Kraft, com 37% do mercado, que deverá comercializar 27 milhões de unidades em 2012, um crescimento de 8% em relação ao ano anterior. Em segundo lugar vem a subsidiária da suíça Nestlé, no Brasil, com 23% de participação de mercado, e 17 milhões de ovos produzidos. Correndo por fora, aparecem empresas como a brasileira Ofner, confeitaria em estilo europeu, de São Paulo, que espera um crescimento de 15% na produção para este ano. Ao contrário das líderes, seu forte é a produção artesanal de ovos de Páscoa premium. Sozinha, de acordo com Laury Roman, diretor- comercial da Ofner, vai produzir 70 toneladas de ovos de chocolate, que serão vendidos em suas 21 lojas, localizadas na capital paulista. Desse volume, 40% é cacau puro. “Durante o ano consumimos em torno de 60 toneladas de cacau”, diz Roman. Segundo ele, as vendas de chocolate correspondem a 15% do negócio da confeitaria. “Na Páscoa esse percentual mais que dobra”, afirma Roman.

Cacau para chocolate

181 mil toneladas é a produção estimada em 2012

200 mil toneladas é o consumo da matéria-prima no mercado interno

US$ 7 bilhões é o que movimenta a cadeia cacaueira no País por ano