Presidente da principal associação de criadores de gado do País diz que é hora de repensar modelo produtivo

José Olavo Borges não é o que se pode chamar de um novato no mundo da pecuária. Há 30 anos ele é um importante selecionador de gado e por duas vezes presidiu a Associação Brasileira dos Criadores de Zebu, a ABCZ. De volta ao cargo pela terceira vez, ele olha com entusiasmo o momento atual e acredita que é chegada a hora de a associação ampliar sua base de associados e dar início a um novo ciclo de crescimento. Em pauta, algumas mudanças importantes, que você confere nesta entrevista exclusiva à DINHEIRO RURAL.

 

“A PECUÁRIA MODERNA NÃO É EXTRATIVISTA”

DINHEIRO RURAL – A ABCZ tem feito grande esforço em consolidar a importação de embriões da índia, por que tanto empenho?

José Olavo Borges – O problema do embrião vindo da índia é antigo. Esse é um pleito de mais de 15 anos para a importação de genética indiana. A última importação aconteceu em 1962. De lá para cá não veio mais nada. Se fizer uma análise de todo o gado zebu das Américas do Sul, Central e até dos Estados Unidos com o Bhraman, todo esse material genético é oriundo do Brasil. Para conseguir uma alternativa genética, é preciso se buscar linhagens de sangue na índia. Isso é importante para que aconteça o chamado ‘refrescamento de sangue’, com a entrada de genes diferentes aos que temos aqui. Junto com o Ministério da Agricultura, fizemos uma viagem à Índia para ver se realmente havia um bom material por lá, que pudesse ser introduzido no Brasil. Isso porque o indiano não é muito interessado na carne, então não sabíamos qual o nível dos animais para o nosso negócio. Mas a demora foi muito grande. O governo indiano, por questões religiosas colocou empecilhos, até que conseguimos. Fato é que esses embriões vêm para o Brasil e passarão por uma quarentena na ilha de Cananéia, no litoral de São Paulo, antes de entrar no continente. Depois, poderá ser introduzido no rebanho brasileiro, o que será, com certeza, um ganho importante para a produção de carne no Brasil.

“Queremos mostrar que é possível produzir de forma sustentável, sem agredir o planeta”

RURAL – Ainda assim nos tornamos exportadores de genética. Quem são os nossos principais mercados?

BORGES – A América do Sul é um grande mercado e a América Central tem sido responsável por muitas vendas também. O zebu leiteiro tem sido muito procurado. Ano passado exportamos para 58 países e, pela primeira vez, vendemos para a Austrália, o que reforça a qualidade do nosso rebanho. A carne brasileira é muito aceita e o preço é competitivo. Por isso, o nosso boi produzido a pasto, se torna um bom negócio para que os compra.

RURAL – A genética é apontada como a “salvação” do rebanho para que Brasil ganhe eficiência, mas na “vida real” apenas 7% das crias acontecem por inseminação artificial…

BORGES – Esse número é, realmente, muito baixo, mas a tendência é crescer. Dá para aproveitar muito essa tecnologia, mas ainda falta um pouco dessa cultura para o pecuarista. Nesse sentido que sempre digo que o trabalho da extensão rural é muito importante para levar essas “novidades” até os pequenos. As feiras se tornam importantes para a difusão desses materiais e por isso temos feito tanta questão de aumentar o nosso público nos nossos eventos. Em alguns aspectos, há uma grande caminhada pela frente.

RURAL – Este ano a ABCZ começou a tratar de temas antes “estranhos”, como a sustentabilidade, por exemplo. Por que essa preocupação?

BORGES – Esse é o assunto do momento. Não existe uma fórmula pronta para se produzir de forma sustentável. O Brasil é muito grande, com realidades diferentes, mas temos que atacar os problemas. Isso significa produzir sem agredir o meio ambiente ou reduzir os impactos existentes. Essa é a tendência moderna, que o mundo todo procura encontrar. Temos bons exemplos de que é possível produzir dessa forma e para isso temos promovido palestras com vários casos de sucesso e diversas partes do Brasil. Não queremos fugir da discussão e temos como objetivo encontrar esses caminhos, que serão ou estão sendo cobrados pelos compradores da carne brasileira.

“A aproximação da pecuária com os rigoríficos é necessária e deve ser intesificada”

RURAL – Mas a entrada da ABCZ nessas discussões, do “calor da hora”, é recente…

BORGES – Existe uma preocupação nesse sentido. Todos os anos promovemos um encontro internacional em que cada federação, de cada País da América do Sul e Central se encontram para discutir, principalmente, as aberturas de mercado. Nós sentimos que essas discussões importantes ficavam restritas a esses fóruns com um esvaziamento do produtor. Talvez tenha faltado estímulo e nesta nossa gestão decidimos que iríamos tratar das questões ligadas ao agronegócio, por isso estamos mais próximos desses assuntos. Trazer essas discussões para dentro de nossa casa é a missão. Queremos mostrar que a pecuária moderna não tem nada a ver com aquele modelo extrativista do passado.

RURAL – Mas ainda há muitas críticas do próprio setor produtivo à pecuária extensiva, principalmente pela pouca quantidade de bois por hectare de pasto… BORGES – A pecuária moderna realmente depende disso, de agregar tecnologia ao antigo modelo de produção. Vou citar um exemplo: quem faz um pastejo rotacionado (rodízio de piquetes concentrando mais animais), que envolve uma programação da fazenda, não degrada o solo. Enquanto na outra, o prejuízo é conhecido. Hoje você tem de produzir no menor espaço, com a maior lucratividade. Tem que usar tecnologia.

RURAL –Seja como for, a pecuária de elite não está, ainda, muito distante dos rebanhos comerciais?

BORGES – Esse negócio é como uma pirâmide, com a pecuária selecionadora no topo dessa cadeia. O que tem de acontecer é aproximar os elos. Com essas tecnologias modernas, como a transferência de embrião, fertilização in vitro, conseguimos uma produção grande de animais melhoradores. A pecuária brasileira evolui muito nos últimos 15 anos. Éramos o oitavo produtor de carne e saltamos para a condição de maiores exportadores do mundo. Nós abatíamos animais com cinco anos de idade e agora fazemos o mesmo trabalho aos dois anos e meio. Nesse ponto, o trabalho da genética que está fluindo para a base da pirâmide. A tendência hoje essa: levar essa genética aos pequenos produtores também. Por isso, temos feito empenho que a nossa feira, a Expozebu, sirva como vitrine também para esse público. Temos que estar próximos ao produto final.

RURAL – Nesse ponto, nos últimos anos, também houve mudanças. Pelo menos no que diz respeito aos julgamentos dos animais, ou não?

BORGES – Com certeza. As análises dos jurados hoje em dia estão cada vez mais voltadas para as carcaças desses animais. Claro que não se podem desprezar os padrões raciais, porém, não podemos perder de vista a função de nossa criação que é justamente produzir alimento, baseado em produtividade. Isso começou a se fortalecer há seis anos, mais ou menos. A ABCZ começou a dirigir os jurados para que observassem essas questões com muita atenção. A aproximação com os frigoríficos é necessária e deve ser intensificada. Acho que os frigoríficos ainda estão muito afastados da produção e têm de pagar melhor por uma carcaça diferenciada, bem acabada, de acordo com os melhores padrões. Essa aproximação vai acontecer de forma mais forte e é uma questão de sobrevivência. O caminho é esse: sentar, conversar e remunerar bem.

RURAL – A grande feira promovida pela ABCZ, a Expozebu, neste mês está preparada a tudo isso que foi dito até agora?

BORGES – Sem dúvida. Essas discussões todas são canalizadas justamente para a Expozebu, que é o nosso grande fórum. Nossa feira tem 74 anos de existência, ininterruptamente. Para lá são dirigidos os melhores animais do Brasil, é como se fosse o Oscar da pecuária. Os animais que vencem em Uberaba, são realmente super-valorizados. Além disso, a feira conta com 48 leilões, entre alguns, saem os grandes preços do ano. Afora os leilões, instalamos um “shopping” da pecuária, em que o produtor pode comprar a preço fixo, os animais, embriões, enfim, a genética que está exposta.

RURAL –Mas esse evento sempre foi marcado por reivindicações…

Olavo – Sim é verdade. Tanto que a abertura da Expozebu, sempre conta com a participação de muitas autoridades e é uma espécie de fórum em que o setor faz as suas reivindicações. Este ano, por exemplo, pela primeira vez a bancada ruralista vai utilizar a feira como escritório de trabalho. A Comissão de Agricultura e Pecuária da Câmara e do Senado vai se reunir com mais de 40 participantes e, nesse ambiente, serão debatidos os problemas do agronegócio. É uma sessão, só que em vez de acontecer em Brasília, acontecerá na Expozebu. E isso é muito positivo porque esses representantes poderão sentir o calor do pecuarista, diretamente.

RURAL – Como a ABCZ enxerga a questão da defesa sanitária no País? BORGES – Essa é uma questão que nos preocupa. Há um movimento de alguns estados que pretendem alcançar em pouco tempo a condição de livres de febre aftosa sem vacinação. Temos como exemplo Minas Gerais, Paraná, o próprio Rio Grande do Sul está reivindicando novamente essa classificação. São Paulo eu não sei, mas se os três entrarem, vai querer também. Há, com isso, o medo de que se repita o que aconteceu com o Rio Grande do Sul no passado (foco da doença depois da mudança de condição) e haver um retrocesso nesse caminho. Santa Catarina está aí, firme e forte o que engrandece a nossa pecuária. Mas eu tenho dúvidas. Se ao mesmo tempo pode ser muito bom para as exportações, qualquer retorno da aftosa numa dessas regiões seria um desastre total. É preciso ter muita segurança para se fazer isso.

RURAL – As médias dos leilões ano passado foram robustas teremos novos recordes este ano?

BORGES – Acreditamos que pelo menos vamos repetir essas médias, com projeção de alta. A pecuária entrou numa fase muito boa, puxada pelos preços dos animais de corte, e acreditamos que haverá bons reflexos na pecuária seletiva. O que sentimos era a ausência do pequeno e médio pecuarista. Víamos no mercado a ação de médios e grandes, mas os pequenos não tinham muito acesso à genética de ponta. E a ABCZ agora quer trazer esses pequenos produtores para perto da associação.

RURAL – E o que dizer sobre os novos pecuaristas que entram a cada ano? BORGES – Nos últimos anos tivemos a entrada de grandes empresários no meio. Quer queira, quer não, eles entraram com muito entusiasmo e valorizaram muito esse mercado. Não tem jeito. Hoje o criador de rebanho comercial enxerga que é necessário ter uma boa genética, porque isso dá mais dinheiro para ele, com a melhoria de seu rebanho, com animais sendo abatidos mais jovens. E isso de alguma forma estimula o mercado de elite a produzir animais melhores e melhoradores.