Desolação: o produtor gaúcho Paulo Pichinhaki ficou sem água para o gado leiteiro

A imagem é avassaladora. A terra retorcida denuncia que não há mais nada a fazer, o negócio é pensar na próxima safra. Provocada pelo fenômeno conhecido como La Niña, a estiagem que tomou conta do Sul do País, particularmente do oeste do Paraná e de Santa Catarina e do norte do Rio Grande do Sul, desde outubro do ano passado, fez quebrar a safra de verão em 3,3 milhões de toneladas de milho e soja, as duas principais culturas na região, segundo dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), divulgados em janeiro. Mas a situação relatada pelas secretarias de Agricultura dos três Estados afetados pela seca apontava que o quadro pode ser ainda mais grave, com perdas superiores a nove milhões de toneladas de grãos.

“Nunca vi uma seca assim” era a frase mais pronunciada por representantes dos governos estaduais, técnicos das secretarias de Agricultura e também de produtores rurais sulinos, como Neodi Gabardo, de Toledo, município a 536 quilômetros de Curitiba, capital paranaense. Nesta safra, Gabardo plantou 2,6 mil hectares de soja na fazenda Santo Antônio, e a previsão de quebra era de cerca de 55% da colheita estimada em 8,5 mil toneladas. “Todo dia olho para o céu e aguardo pela chuva que parece nunca vir”, diz Gabardo. No fim de janeiro, os produtores já iniciavam uma corrida aos bancos para acionar o seguro rural. Nesta safra, os produtores de Toledo plantaram 65 mil hectares de soja e esperavam colher 230 mil toneladas, 15% a mais que no ano passado. “Com a seca no período de enchimento dos grãos, a quebra de safra deve chegar a 70% na região “, diz Nelson Paludo, presidente do Sindicato Rural do município.

No Paraná, a falta de chuvas se intensificou a partir de novembro. Levantamento do Departamento de Economia Rural (Deral) da Secretaria de Agricultura do Estado prevê prejuízos da ordem de R$ 2,48 bilhões com a perda de 3,9 milhões de toneladas de grãos. Os produtores devem colher 17,6 milhões de toneladas de milho e soja, queda de 18,1% se comparada à estimativa inicial de 21,5 milhões de toneladas. No Rio Grande do Sul, a situação provocada pela seca está causando um desastre ainda maior, com previsão de quebra que se aproxima de 30%. A produção esperada inicialmente de milho e soja, no Estado, era de 15,6 milhões de toneladas e agora não deve passar de 11,1 milhões de toneladas, informou a unidade Estadual da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural (Emater/RS).

A região norte do Rio Grande do Sul, a mais afetada pela estiagem, concentra uma grande quantidade de pequenos e médios agricultores como Jaci Pavoni, da fazenda Pavoni, em Serafina Correa, distante 210 quilômetros de Porto Alegre. Todos os anos, Pavoni cultiva 20 hectares de milho na primeira safra e tira 86 toneladas de grãos. “Neste ano, perdi 80% do que plantei”, diz. Mas a seca castiga ainda mais produtores como Paulo Pichinhaki, dono de apenas 12 hectares em Cristal do Sul. Com a estiagem, o produtor ficou sem pastagem e sem a água do açude para o gado leiteiro. “O leite é a minha única fonte de renda”, diz. “Com a seca, não consigo nem 40% daquilo que ganhava antes.”

Os estragos provocados pela seca também se arrastam por Santa Catarina, em 75 municípios com o mesmo tipo de propriedade: pequenas e médias fazendas, em geral administradas apenas pela família. No Estado, as perdas são estimadas em 17%. A expectativa de colher 5,2 milhões de toneladas de soja e milho caiu para 4,3 milhões de toneladas.

QUEBRA DE SAFRA

Produção de soja e milho no Sul em 2011 (em milhões de toneladas)

● Estimativa inicial

● Após a estiagem

Fontes: Emater/RS, Deral/PR e Epagri/SC

André Pessoa, diretor da consultoria Agroconsult, de Florianópolis, acredita que a quebra de safra nos três Estados ainda pode ser reduzida no caso da soja, desde que a chuva volte a cair com mais intensidade. “Se a chuva voltar a tempo para os produtores colherem a soja das variedades precoces ainda em fevereiro”, diz. “Para o milho não há mais o que fazer, a safra está perdida.”

Previsão: “Quem guardar a safra pode ganhar mais dinheiro nos próximos meses”, diz Pessoa

Em anos de La Niña, é previsível esse tipo de comportamento do clima, de veranico a secas prolongadas e irregulares, como ocorre neste ano. O sul de Mato Grosso do Sul, por exemplo, uma região com alta probabilidade de ser afetada pela La Niña, escapou da estiagem. “Em 2011, a La Niña se comportou de forma inversa: houve chuvas no Sul do País e seca em regiões do Centro-Oeste”, diz Pessoa.

Sorte de uns, azar de outros. No Centro-Oeste, as chuvas na hora certa, que vêm caindo nesta temporada de verão, podem trazer bons negócios aos produtores. O regime de águas na região é satisfatório desde o fim do ano passado.

Por causa disso, os produtores do Centro-Oeste anteciparam a safra de verão que começou a ser plantada no fim de setembro. “Os produtores de Mato Grosso plantaram mais cedo a soja precoce, estão colhendo mais cedo e já no mês de fevereiro entra em campo o milho safrinha”, diz Pessoa.

Em algumas regiões de Mato Grosso, no início de janeiro, chegou a faltar sementes de milho nas revendas. Para o cereal, as perspectivas da safrinha são excelentes, de 6,4 milhões de toneladas em 2012, contra 5,9 milhões de 2011. “Os produtores que conseguirem guardar a safra de soja e milho podem lucrar nos próximos meses”, diz Pessoa, ao explicar que a La Niña também provocou seca na Argentina e deve influenciar a safra americana.

“Os preços das commodities no mercado internacional estão sob pressão.”

Para a Argentina, o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos previa uma safra de soja e milho de 84 milhões de toneladas. Mas, com a seca provocada pela La Niña nas regiões produtoras, não deve passar de 69 milhões de toneladas. Na soja, a previsão de 55 milhões de toneladas na atual safra foi revista para 49 milhões de toneladas. No milho, a estimativa caiu de 29 milhões de toneladas para 20 milhões. “Algumas grandes empresas e tradings argentinas estão prevendo uma safra ainda mais comprometida, de 43 milhões de toneladas de soja e de 18 milhões de toneladas de milho”, diz Pessoa.

O fênomeno deve se repetir ao norte do Rio Grande, onde se verifica um período de escassez de chuvas desde 2011. “Se a La Niña se estender para os Estados Unidos no segundo semestre, poderá também comprometer a produtividade agrícola do país”, diz Pessoa. Segundo a Usda, a previsão para a safra americana de soja, que era de 90 milhões de toneladas já caiu para 83 milhões.