Quase 2.000 navios porta-contêineres transportando madeira extraída ilegalmente do Estado amazônico do Pará, onde será realizada a cúpula climática da ONU deste ano, chegaram à Europa e aos Estados Unidos nos últimos anos, mostrou um relatório investigativo de uma ONG ambiental.

O relatório divulgado nesta quinta-feira, 03, pela Environmental Investigation Agency (EIA), sediada em Londres, utilizou imagens de satélite, registros e entrevistas com fontes do setor para rastrear cerca de 53.000 metros cúbicos de madeira em quatro locais do Pará que haviam sido sancionados, estavam sob embargo ou apresentavam outras irregularidades, como mineração ilegal de ouro.

Belém, capital do Pará, sediará a Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas de 2025 — ou COP30 — de 10 a 21 de novembro.

“As descobertas sugerem uma cultura difundida em que acordos corruptos e a manipulação de estruturas legais são generalizados”, disse a EIA, fundada em 1984, no relatório. Foram detectadas irregularidades ou negligência em quase todas as etapas da cadeia de suprimentos, desde a permissão até a colheita e a exportação, segundo o relatório.

Há décadas existem leis nos EUA, na Europa e no Brasil para conter a extração ilegal de madeira, mas as muitas brechas que permitem que o setor ilícito prospere ressaltam a dificuldade de policiar uma floresta continental.

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Em vários casos, a EIA disse que a Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Sustentabilidade (Semas) do Pará renovou ou deixou de remover concessões em que foram registradas infrações, incluindo um caso que foi posteriormente embargado pelo Ibama.

Em uma resposta às perguntas da Reuters, a Semas disse que está “reforçando seus padrões e mecanismos” para avaliar os planos de gerenciamento florestal e está comprometida com a conservação dos recursos florestais, observando que apreendeu mais de 12.000 metros cúbicos de madeira ilegal e embargou mais de 500.000 hectares de terra devido a mineração e desmatamento de fevereiro de 2023 a janeiro de 2025.

“Os casos mencionados no relatório serão analisados e… se forem encontradas irregularidades, os responsáveis serão punidos”, afirmou a Semas.

Espécies ameaçadas

A EIA disse que vinculou 19 serrarias, 16 exportadores e 30 importadores norte-americanos e europeus ao que suspeita ser madeira ilegal, que inclui espécies protegidas e de alto valor, como o ipê e o cumaru, usadas em decks e móveis de luxo, mas que também estão na lista de espécies ameaçadas de extinção da Convenção sobre o Comércio Internacional de Espécies Ameaçadas de Fauna e Flora Selvagens.

O órgão afirmou que empresas como a Sabra International, sediada nos EUA, já haviam sido apontadas como compradoras de madeira ilegal. A Sabra International e várias das empresas importadoras e exportadoras não responderam imediatamente às perguntas da Reuters sobre as alegações.

A EIA também disse que encontrou uma infinidade de sinais de alerta na cadeia de suprimento de madeira. Alguns locais que alegaram produzir madeira mostraram pouca ou nenhuma evidência de extração, indicando que foram usados para lavar madeira extraída ilegalmente, segundo a agência.

Alguns outros locais que forneciam madeira exportada tinham sido multados anteriormente ou submetidos a um embargo por extração ilegal de madeira ou haviam sido denunciados por mineração ilegal, o que exigiria a interrupção das operações de acordo com a legislação brasileira, mostrou o relatório.

Após a colheita, os documentos de origem são facilmente comprados e vendidos para lavar a madeira ilegal, e a EIA disse que entrevistou várias fontes do setor que afirmaram ter subornado funcionários para facilitar o licenciamento ou passar por inspeções.

Um representante anônimo de uma serraria declarou que os documentos para lavar o ipê são obtidos facilmente de outras concessões.

“Todo mundo faz isso”, disse um representante de serraria sobre comprar e vender créditos de madeira.