01/04/2012 - 0:00
O colombiano Ramiro De La Cruz, presidente da Dow AgroSciences do Brasil – divisão agrícola do grupo americano Dow Chemical –, é um apaixonado por milho. De La Cruz aprendeu a apreciar os pratos à base do cereal quando era o diretor-comercial da empresa no México, país que tem como uma de suas atrações culinárias o tamal, um parente muito próximo das brasileiríssimas pamonhas. No mês passado, De La Cruz novamente estava às voltas com sua paixão, mas dessa vez para mostrar uma nova geração de sementes transgênicas de milho, tecnologia que a Dow AgroSciences está prestes a colocar no mercado. As novas variedades são resistentes ao ataque de lagartas e prometem um aumento de produtividade entre 10% e 15% nas lavouras. “Essa semente será o nosso principal produto no mercado nos próximos meses”, diz De La Cruz. A tecnologia das novas sementes foi desenvolvida em conjunto com a Monsanto, que no mês passado também apresentou sementes de soja resistentes a lagartas (leia na pág. 36). Segundo os técnicos das duas empresas, tratam-se de projetos e tecnologia diferentes para a proteção das culturas. A Dow mostrou o novo milho em março, em seu campo de testes em Cravinhos (SP).
Campo de testes: De La Cruz, presidente da Dow, mostra em Cravinhos (SP) as novas cultivares lançadas
Segundo a empresa, as novas sementes representam a terceira geração de transgênicos. A primeira geração, de 2008, era resistente ao herbicida glifosato. Na segunda geração de transgênicos, os pesquisadores introduziram no gene do milho uma proteína presente na bactéria BT (Bacillus thuringiensis), que intoxica e leva à morte três espécies de lagartas: a lagarta-docartucho, a broca do colmo e a lagarta elasmo.
As pesquisas que originaram a nova semente, chamada de PowerCore, permitiram a introdução no gene do cereal de mais três proteínas da bactéria BT. Com isso, o produto passa a controlar outras duas lagartas: a lagarta da espiga e a da rosca. “As pesquisas mostraram que quanto maior o número de proteínas inseridas no genoma do milho, menor a chance de as lagartas criarem resistência”, diz Aníbal Esteves, gerente de desenvolvimento de produto. Por isso, a estratégia da Dow foi aumentar a quantidade de genes transgênicos para propiciar um nível maior de segurança às sementes. “É como se o híbrido do milho fosse um resultado matemático”, diz Esteves. Dos cinco genes resistentes, dois são resultado das pesquisas da Dow e três da Monsanto.
No Brasil, nove milhões dos 15,3 milhões de hectares cultivados com o cereal na safra 2010/2011 eram transgênicos. Segundo De La Cruz, ainda é pouco diante do que vem pela frente. A previsão de crescimento do cultivo de milho no País é de 85%, nos próximos dois anos, segundo a Associação Brasileira de Sementes e Mudas. Para Rolando Alegria, diretor de biotecnologia da Dow no Brasil, o aumento da produtividade virá em grande parte do avanço da biotecnologia. “Existe um movimento par a que o País não abra novas áreas de plantio”, diz Alegria. “Então, o caminho só pode ser a produção.”
A redução do uso de inseticidas também vem empurrando os agricultores para o milho geneticamente modificado. Estudos da consultoria Céleres, de Uberlândia (MG), mostram que, no oeste do Paraná, o agricultor que utilizou semente transgênica na última safra gastou 38% menos com a proteção da lavoura, se comparado a seus colegas que ainda plantam o milho convencional. “Outro estudo em Goiás mostrou que os produtores tiveram uma economia de 28% em relação ao milho convencional”, diz Jorge Attie, analista de biotecnologia da Céleres. Para De La Cruz, com as novas sementes a economia pode aumentar. “A Dow tem pesquisado muito quais variedades de sementes que têm essa pegada.” Em 2011, a empresa investiu US$ 600 milhões em pesquisas, 12% do faturamento global. O esforço se justifica. Há cinco anos, a venda de sementes representava apenas 10% dos negócios globais da Dow. Hoje, representa 25% e a expectativa é de aumentar para 30% nos próximos cinco anos.