O setor sucroalcooleiro do Brasil já não é o mesmo da época do Proálcool, em 1975, quando os usineiros eram os donos absolutos da produção de açúcar e etanol no País e, com isso, ditavam as regras do jogo. Com o passar dos anos, empresas como a multinacional Bunge, com sede nos Estados Unidos, que prevê investir US$ 2,5 bilhões no setor sucroalcooleiro até 2017, a Raízen – uma joint venture entre a Cosan e a Shell – ou mesmo a brasileira Petrobras passaram a atuar na produção de biocombustíveis e a fazer parte da maior entidade criada no País para representar o setor, a União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica).

A nova configuração do setor, com a entrada de multinacionais fabricantes de alimentos, exigiu mudanças também na estrutura da entidade que representa os usineiros. A partir do mês que vem, a presidência do conselho será ocupada pelo presidente da Bunge no Brasil, o ex-ministro-chefe da Casa Civil Pedro Parente. O cargo era ocupado por Marcos Jank, também presidenteexecutivo da entidade. De acordo com a Unica, Jank continuará sendo o principal representante da entidade. Já o conselho será inteiramente reformulado em março a fim de se adequar ao novo perfil do setor.

“Pedro Parente tem boa relação com os associados e a diretoria da Unica e será peça-chave nesse entrosamento”

Marcos Jank, presidente da Unica

O conselho da Unica é formado por 25 representantes das 132 empresas associadas à entidade. A participação é proporcional ao tamanho de cada empresa. Atualmente, as líderes são a Coopersucar, com seis votos, e a Cosan, com cinco. Segundo uma fonte familiarizada com o tema, a relação entre as duas companhias no conselho não era das melhores, e as diferentes visões sobre como o setor deveria se posicionar no futuro gerou um racha na entidade. Essas empresas, fortes em outros setores, não se sentiam representadas pela Unica. Por isso, a mudança busca dividir as duas funções. Jank continua representando as empresas na interlocução com o governo e negociações com outros países, mas não tem mais a responsabilidade de aparar as arestas entre os próprios associados. A mudança foi definida na última reunião do conselho, em dezembro. Após um longo debate a portas fechadas, que contou com a presença tanto de Jank quanto de Parente, decidiuse então nomear um presidente neutro, que não fosse ligado a uma das duas empresas líderes do conselho ou pertencesse exclusivamente ao setor sucroalcooleiro. A escolha da Bunge, representada por um nome forte e respeitado como Parente, tenta colocar um freio nessa disputa.

Formado em engenharia eletrônica pela Universidade de Brasília (UnB), Parente já atuou em diversos setores do governo – entre outros cargos, foi secretário-executivo do Ministério da Fazenda, ministro do Planejamento e ministro-chefe da Casa Civil no governo Fernando Henrique Cardoso. Nessa época ficou conhecido como “ministro do apagão”, por sua atuação durante o racionamento de energia que atingiu o País. Em 2003, passou a atuar no setor privado e, desde 2010, é presidente da Bunge do Brasil. “Pedro Parente tem boa relação com os associados e a diretoria da Unica e será peçachave nesse entrosamento”, disse Jank. Além da nomeação de Parente, a reunião de março também irá redefinir as 25 cadeiras do conselho, como é feito a cada três anos. Segundo a Unica, a mudança deve refletir a nova configuração do mercado, com o crescimento e a diminuição das empresas do setor, e acomodar os novos players. “É notório que algumas empresas como a Petrobras, Bunge e até a Cargill ampliaram suas atuações no setor sucroalcooleiro e têm direito a uma participação mais efetiva no conselho”, diz Jank.