01/07/2011 - 0:00
Aos 73 anos, o pecuarista José Luiz Niemeyer dos Santos continua polêmico por natureza. Ele afirma que a raça precisa corrigir o peso exacerbado das fêmeas
No dia 11 de junho, José Luiz Niemeyer dos Santos, dono da fazenda Terra Boa, em Guararapes (SP), completou 73 anos. Boa parte dos cumprimentos chegou através da rede social Facebook, onde ele tem 1.021 amigos. O inquieto criador de gado nelore diz que está longe da aposentadoria. Em maio, ele foi o primeiro fazendeiro do País a receber a certificação Global G3, criada, em 2010, pela Associação Nacional de Criadores e Pesquisadores, a ANCP. O processo de certificação Global G3 mede a qualidade da informação gerada na propriedade, os objetivos genéticos e as responsabilidades sociais, ambientais e sanitárias.
A fazenda Terra Boa registrou seu primeiro bezerro PO (puro de origem), em 1965. Mas a criação vem desde 1948, iniciada pelo pai de Niemeyer. Ele diz que seu objetivo sempre foi ter animais de estatura mediana, mas que no País ainda há o culto às fêmeas muito grandes. “Elas eram modelo até a década de 1980. Hoje, estão ultrapassadas”, afirma Niemeyer. Esse foi o motivo para que decidisse abandonar os julgamentos nas exposições agropecuárias.
Para Niemeyer, a avaliação visual no melhoramento genético nunca pode ser abandonada, tanto que ela ocorre nos programas de seleção. “Mas, nos julgamentos das exposições, estão exagerando”, diz. “Há vacas nelore de 900 quilos.” Ele se refere às vacas criadas em baias e superalimentadas, em comparação com as que vivem nos pastos e que na fase adulta pesam, em média, 600 quilos. O criador diz que ouve de gente do meio que há, sim, casos de fêmeas que têm dificuldade em parir os bezerros. “A vaca nelore nunca precisou de ajuda para parir”, lembra. “O nelore nascia com 28 quilos. Hoje, nasce com 40 quilos.”
Do plantel de 500 fêmeas POs, a produção de bezerros chega a 450 animais por ano na fazenda Terra Boa. Após os descartes no processo de seleção, são vendidos cerca de 150 touros e não mais que 20 fêmeas geneticamente superiores. “Se minha meta é produzir touros funcionais, não posso criar fêmeas grandes”, diz. Os produtos selecionados por Niemeyer sempre foram cobiçados. Na Expozebu de 1995, em Uberaba (MG), o criador foi o primeiro a ter uma fêmea disputada a peso de ouro em um leilão. Naquele ano, Helen da Terra Boa saiu por R$ 300 mil, um exagero para os padrões da época. Nos remates que Niemeyer promove, o preço médio dos touros, convertido em arrobas de boi gordo, raramente fica abaixo de 80 arrobas. Como ponto de referência, quem vai para o mercado comprar touros para cobrir fêmeas a campo faz a conta de 40 arrobas por um touro ou a troca de três bois gordos por um touro. Mais que isso só se for para animais superiores.
Niemeyer diz não questionar o papel das exposições. “Elas servem para o marketing da raça. Mas exagerar não é bom”, diz. O principal defeito dos grandalhões é que esses animais exigem mais alimentos e levam mais tempo para ficar prontos para o abate. O caminho é inverso para quem aposta na precocidade e busca criar animais melhoradores, que gerem filhos que possam ser abatidos antes dos 24 meses, pesando 480 quilos.
A fazenda Terra Boa ocupa uma área de 1.780 hectares. Desse total, 360 hectares são reserva legal, registrada em cartório há mais de 15 anos, e 200 hectares são áreas de preservação permanente. A certificação Global 3G também avalia o uso da terra. Nos últimos dez anos, Niemeyer plantou 120 mil árvores e vai gastar mais R$ 800 mil, até 2014, para reflorestar outros 75 hectares. “A regeneração espontânea ocorre, mas se dermos uma mão ela vai mais rapidamente”, diz Niemeyer. O primeiro prêmio que a fazenda ganhou foi em 1958. O pai de Niemeyer recebeu do governo de São Paulo o prêmio de “campeão conservacionista”. Naquela época a fazenda já fazia as curvas de nível nos pastos, hoje uma técnica corriqueira como forma de conter a erosão.
Números da Terra boa
– área de 1.780 hectares
– 1965 foi o ano do primeiro bezerro registrado
plantel de 500 fêmeas POs nascem 450 animais por ano
– 120 mil árvores plantadas em dez anos
prêmio “campeãoconservacionista” em 1958
– em 2011 recebeu a certificação Global 3G