01/01/2011 - 0:00
Oscilações: quebra na safra indiana abriu mais espaço para exportadores
Um dilema proporcional ao volume que o Brasil exporta de açúcar. Assim pode ser definida a situação do setor sucroalcooleiro em 2010. E o problema já começa na colheita da cana. O longo período de estiagem que comprometeu o rendimento da safra 2010/2011 fez a quebra ser de 7,26% e só em novembro derrubou o rendimento agrícola em 18,71% em relação ao mesmo período de 2009. “A queda na disponibilidade de matéria-prima foi tão grande que o volume de cana processado até o momento é praticamente o mesmo observado em toda a safra passada”, explicou Antonio de Pádua Rodrigues, diretor técnico da União da Indústria de Cana de Açúcar (Unica), ao divulgar os números em meados de dezembro passado. Some-se a isso o fato de os canaviais estarem defasados, complemente com o aumento da demanda mundial de açúcar, a redução na produção e pronto. Está feita a confusão. Com a quebra na safra de cana na Índia, segundo maior produtor mundial de açúcar e maior consumidor do produto, o Brasil precisou ampliar a oferta no mercado, diante da demanda maior. Segundo dados da Unica, no acumulado da safra 2010/2011 foram produzidos 33,02 milhões de toneladas de açúcar. Com esse cenário e a alta dos preços veio o desequilíbrio e o açúcar, que até então tinha preço parecido com o do álcool, obteve valorização de aproximadamente 20%. “Com isso tivemos uma variação entre 10% e 20% na remuneração, das unidades produtoras” afirmou Celso Junqueira, presidente da União dos Produtores de Bioenergia (Udop).
50% é a participação do açúcar brasileiro no mercado mundial, que tem a índia como a maior compradora
A valorização do açúcar sobre o etanol da cana acontece em um momento crucial, em que o Consecana estuda o cenário para rever as porcentagens de remuneração de ambos os produtos para produtores e para a indústria. Essa reavaliação acontece a cada cinco anos e leva em conta aspectos como produtividade, mercado interno e externo, variações no preço, na oferta e na demanda, entre outros. Atualmente, as usinas dividem a receita com os produtores. No Estado de São Paulo, Pádua explica que cerca 50% da safra é destinada à produção de açúcar e 59,5% da receita gerada com a produção vai para o campo, para os produtores.
No caso do etanol, a fatia é de 62,1%. “É importante o equilíbrio nesse repasse da remuneração para que o setor inteiro avance, não só os produtores”, argumentou ele. A determinação sobre a revisão do Consecana ainda não tem data para ser finalizada, mas há a expectativa de que ela saia ainda no primeiro semestre.
Enquanto isso, o setor tem pela frente problemas que prejudicam a produção. A equação entre canaviais defasados e falta de crédito resultou em uma queda na produção e na qualidade da planta. “Os baixos preços pagos pela cana nos últimos três anos inviabilizaram os investimentos na renovação de canaviais”, queixou-se Ismael Perina, presidente da Organização de Plantadores de Cana da Região Centro-Sul (Orplana). Por outro lado, ele explica que, sem esse investimento, fica difícil para o Brasil poder atender à demanda do mercado mundial com maior eficiência. A quebra da safra indiana abriu espaço para outros países aumentarem suas exportações, incluindo o Brasil, que é responsável por 50% do mercado externo. “Mas precisamos reformar os canaviais para continuar produzindo em alta escala e com qualidade”, revelou Pádua. Para a safra 2011/2012, aproximadamente 54% do volume colhido virá de canaviais velhos, com mais de 3,8 anos. Junqueira considera urgente o investimento em tecnologias, para haver a otimização da produção e redução dos custos. “Tem que haver visão estratégica”, concluiu.
Os principais desafios
Conheça alguns dos problemas a serem solucionados
Reforma dos canaviais:
mais de 50% das plantas têm 3,8 anos de idade, enquanto a média é de 3,2 anos
Tecnologia:
falta de investimentos em plantio e colheita mecanizados aumentam o custo no médio prazo
Remuneração:
equilíbrio entre o preço do açúcar e do etanol é importante para manter a boa saúde do setor
Sobe e desce:
com o aumento da demanda e menor colheita de cana, o preço do açúcar disparou e obteve valorização de 20%