01/09/2011 - 0:00
Plantar cana-de-açúcar com a temperatura a 10ºC remete àquela história de marinheiro de primeira viagem, de ideia de jerico de quem está por fora, já que o clima propício para o plantio da gramínea é justamente o quente. Mas, quando o assunto é tecnologia, a modernidade faz do cultivo convencional coisa do passado. Tanto é que, sem medo de jogar dinheiro fora, a usina Diana, localizada em Avanhandava, a 467 quilômetros de São Paulo, de pequeno porte, com capacidade para moer 1,95 milhão de toneladas de cana por ano, sob essa condição climática, investiu quase R$ 90 mil em 35 hectares para testar colmos de cana-deaçúcar. Esses colmos são as “sementes” na formação das lavouras e foram desenvolvidos pela multinacional de origem suíça Syngenta. “Estamos testando a Plene e, se o resultado for positivo, os outros 1,5 mil hectares que cultivamos com cana convencional serão substituídos pela tecnologia nas próximas safras”, diz André Martinez Reis, supervisor agrícola da usina Diana.
“O que era só uma possibilidade se tornou realidade em apenas quatro anos”
Antonio Carlos Nascimento, idealizador da tecnologia Plene
Ao contrário da utilizada na maioria dos mais de oito milhões de hectares destinados à cultura no Brasil, a tecnologia desenvolvida pela Syngenta possui caule de apenas quatro centímetros, tratado contra doenças e pragas, e reduz em cerca de 80% o necessário para o plantio. “Bastam apenas duas toneladas de colmo por hectare”, diz Reis. “No plantio convencional, o colmo mede 40 centímetros e são necessárias pelo menos 12 toneladas por hectare.” As pesquisas que culminaram na nova tecnologia demoraram quatro anos com a produção em escala comercial e as vendas a partir do início deste ano.
Na usina Diana, logo que se chega à área de plantio do canavial que será colhido na safra 2011-2012, já é possível notar as diferenças do sistema Plene para o convencional. De cara, a cor das mudas, que são rosa-choque, sinaliza que se trata de algo diferente. A primeira constatação é o pequeno número de funcionários trabalhando. Dão conta da área de 35 hectares apenas 10 empregados, um quarto apenas do exigido pelo sistema convencional. Ao se olhar mais de perto, a nova plantadora de cana lembra um trator de pequeno porte, de apenas três toneladas, e não as máquinas comumente utilizadas, que pesam, em média, sete. Segundo Reis, um dos motivos que levaram a usina a testar a cana da Syngenta foi a redução de 75% na necessidade de mão de obra.
Em relação ao custo de produção, cálculos feitos por Reis, apontam que eles serão os mesmos do plantio convencional, de R$ 3,5 mil por hectare. “Mas, acredito que se comprarmos a plantadeira, os custos serão reduzidos”, diz. Para o teste da primeira área cultivada, a usina incluiu no contrato com a Syngenta o aluguel da nova máquina plantadora, da John Deere. “Como estamos testando a Plene, vamos aguardar para ver se vale a pena investimentos na compra de máquinas”, diz.
Além da usina Diana, outros grupos sucroalcooleiros já realizaram compras que, juntas, totalizam R$ 400 milhões em pedidos da nova muda de cana. A primeira a assinar um contrato com a Syngenta para a aquisição do produto foi a usina Guaíra, de Guaíra (SP), no final de 2010. Na sequência, logo no início deste ano, foi a vez das usinas do Grupo Guarani, com oito unidades em São Paulo e uma em Moçambique, na África, e também do Grupo São Martinho, que no final de agosto criou com a Petrobrás Biocombustível a joint venture Nova Fronteira, na qual serão investidos R$ 520,7 milhões para transformar a usina Boa Vista, em Quirinópolis (GO), na maior produtora de etanol de cana-de-açúcar do mundo.
A tecnologia Plene foi idealizada pelo pesquisador paulista Antonio Carlos Nascimento, conhecido como o professor pardal da Syngenta no Brasil. De acordo com Nascimento, ele já conhecia a utilização de colmos menores para o cultivo há cerca de 20 anos, mas a inserção de produtos químicos na gema da cana-de-açúcar, para a proteção de suas propriedades germinativas, ainda não havia sido pesquisada. Ao lado dos engenheiros químicos do departamento de inseticidas da Syngenta, José Geraldo dos Santos e Paulo Aramaki, em 2007, Nascimento começou a estudar a viabilidade da técnica.
Os dados apresentados no portal de inovação da empresa, onde a ideia foi lançada, chamou a atenção do conselho de investimentos da Syngenta, que apostou no estudo dos pesquisadores. “O que era só uma possibilidade se tornou realidade em apenas quatro anos”, diz Nascimento. Até chegar ao tratamento dos colmos que serão plantados, a Syngenta primeiro produz as mudas, originadas na biofábrica e multiplicadas nos viveiros da empresa, em Itápolis (SP). Em seguida, depois de desenvolvidas, as mudas são cortadas e tratadas com a tecnologia Plene.
De acordo com Daniel Bachner, diretor global e também diretorgeral para cana-de-açúcar da Syngenta, no Brasil, a empresa injetou, até agora, R$ 119 milhões na construção dessa fábrica, em Itápolis (SP), e na pesquisa e no desenvolvimento da tecnologia Plene, entre 2007 e 2010. Hoje, a Syngenta, que está unificando a área de sementes com a de proteção de cultivos, começa a ver “brotar” o número de hectares, no Estado de São Paulo, onde foram realizadas as primeiras experiências. “Temos 600 hectares comerciais com Plene, que vêm sendo plantados desde abril”, diz Bachner. Na previsão da companhia, até 2015, serão pelo menos 350 mil hectares em todo o País. Apesar da biofábrica da Plene produzir as mudas de cana desde o fim do ano passado, ela ainda não atingiu o máximo de sua capacidade atual de 525 toneladas anuais. Inclusive, sua inauguração oficial está programada para o início de 2012. A nova fábrica vem sendo construída em partes e já conta com um recurso reservado para expansão da ordem de R$ 437 milhões. “Estamos construindo o segundo módulo para, em 2012, dobrarmos a produção de mudas de cana”, diz Bachner. “Vamos investir de acordo com a demanda, até completar nove módulos.”
Nas áreas de testes de cultivo, de acordo com Bachner, foi possível uma redução de custo de produção de 15%, além de reduzir a compactação da terra. “Usa-se um trator leve, uma máquina que já abre duas linhas, que sulca a terra e ao mesmo tempo coloca o fertilizante e a Plene.” Esse método, segundo o executivo, conserva a umidade da cana, aumentando a qualidade da germinação das mudas.
“Já reservamos R$ 437 milhões para expandir a produção das novas mudas de cana” Daniel bachner, diretor para cana-de-açúcar da Syngenta
Depois de embarcar na ideia do professor Nascimento, a Syngenta decidiu apostar também no desenvolvimento de variedades de canade- açúcar, em busca de plantas resistentes a pragas e doenças, seca, salinidade e acidez do solo. “Estamos desenvolvendo as variedades aqui no Brasil, por meio de cruzamentos, o que vai ajudar a aprimorar ainda mais a Plene”, diz Nascimento. A previsão é que os novos produtos cheguem ao mercado dentro de quatro anos. A Syngenta investe globalmente R$ 1,6 bilhão, por ano, em pesquisas e desenvolvimento de tecnologias, o que tem colaborado para dobrar o faturamento da empresa na America Latina nos últimos anos. “Estamos indo, este ano, para os R$ 6,5 bilhões de faturamento e 13% de participação de mercado.” Desse montante, R$ 2,8 bilhões são obtidos no Brasil.
Nova Máquina
A constatação de que a tecnologia Plene mudaria o sistema de plantio levou a Syngenta a trabalhar em parceria com a John Deere, maior fabricante nacional de máquinas agrícolas, no desenvolvimento de um modelo da plantadora. “Começamos com as máquinas de plantio de batata, e depois desenvolvemos seis protótipos”, diz Daniel Bachner, diretor da Syngenta. O resultado foi a plantadora GreenSystem, modelo PP 1102, que custa em média R$ 240 mil, a metade do preço de um equipamento tradicional.
Tecnologia rosa-choque: a cor dos colmos, escolhida pelos pesquisadores, é para mostrar um produto que já vai ao campo tratado contra doenças e pragas
Campo Aberto: da biofábrica, em Itápolis (SP), saem as mudas de cana, que já ocupam 600 hectares comerciais