Há quatro séculos, ao desembarcarem na América, vindos de Portugal e Espanha, muitos cavalos se perdiam de suas comitivas. Dali em diante, a vida selvagem que passavam a ter não dava tréguas. A luta contra a sede, a fome e as temperaturas extremas fez parte da sobrevivência desses equinos e moldou naqueles que formaram a raça crioula, cujo berço no Brasil é o Rio Grande do Sul, qualidades como resistência, habilidade, força e beleza em vigorosos músculos. Não por acaso, muitos apaixonados por cavalos se tornaram criadores aficionados do crioulo. Mariano Lemanski, que administra o Grupo Paranaense de Comunicação, o maior conglomerado de jornais, televisão e rádio do Paraná, é um deles. O empresário se tornou um dos maiores criadores de cavalos crioulos no País, inspirado por uma fotografia estampada na capa de uma revista em 1986. A publicação à época era a Hippus, da Editora Três, que nas décadas de 1980 e 1990 foi o principal veículo de difusão de notícias sobre equinos. “Eu tinha apenas 12 anos e carregava a revista comigo”, diz Lemanski. “Quando olhei, achei coisa de outro mundo aquele cavalo forte, robusto e bonito. Ainda guardo essa capa da revista.” Hoje, na cabanha São Rafael, em Balsa Nova, na região metropolitana de Curitiba, ele cria 400 cavalos crioulos e fatura por ano R$ 2,5 milhões com a venda de animais, prenhezes e com o empréstimo de seus garanhões para emprenhar éguas de outros criatórios, as chamadas coberturas.

A caráter Mariano Lemanski se dedica à raça de seu sonho estampado na Hippus

Lemanski conta que desde criança, ao lado do pai – o gaúcho Edmundo Lemanski, fundador do grupo de comunicações que hoje comanda -, convivia com cavalos mestiços, criados para o lazer na cabanha São Rafael, de propriedade da família. A cabanha foi o cenário da infância do criador e também a escola onde aprendeu a lidar com o animal e com o seu sonho estampado na capa da revista. Foi exatamente um ano depois ver a foto da Hippus que Lemanski conseguiu convencer o pai a participar de um leilão no município de Pelotas, no Rio Grande do Sul, até hoje sede de cabanhas famosas entre os criadores de cavalos. Desse leilão em Pelotas, os Lemanski saíram com sete éguas e um reprodutor. “Enchemos um caminhão de animais e nos tornamos criadores da raça”, diz Lemanski. Foi o início do nosso negócio com equinos.” A partir dali, o pai de Lemanski passou a dividir o tempo entre as atividades da empresa de comunicação e a paixão por cavalos crioulos. De 1990 a 1997, os investimentos em genética, segundo o criador, eram feitos mediante a participação nos principais leilões realizados no País. Uma das compras, nesse período, foi um marco para a época, um cavalo que custaria US$ 500 mil em valores de hoje. “Com aquela compra, passamos a figurar definitivamente entre os grandes investidores nesse negócio chamado equinocultura”, diz.

Atualmente, Lemanski reproduz a rotina e os passos do pai, que morreu no ano passado. Uma vez por semana, o empresário deixa o escritório no grupo de comunicação, despe o terno e a gravata, veste bombacha, camisa, bota e boina, um traje típico gaúcho, e vai para a cabanha São Rafael, que se tornou uma das maiores do País, em área. São três mil hectares onde os equinos permanecem em pastos.

Na cabanha, em meio à natureza, ele divide as atividades entre os setores de reprodução, criação e preparação de animais para as provas de morfologia e funcionalidade. É o que faz, por exemplo, com a égua Pontesuela, que pratica natação em uma raia de 75 metros de comprimento e 2,5 metros de profundidade. As dimensões da “piscina” servem para Pontesuela conservar a beleza robusta da raça. A égua já foi finalista no torneio Freio de Ouro, o mais importante prêmio para provas de cavalo realizadas no Sul do País, e por três vezes ganhou o prêmio de melhor animal da exposição de Esteio (RS), a mais antiga mostra agropecuária realizada no Brasil. “Foi com a genética que meu pai havia comprado e com o manejo dos cavalos a pasto que os negócios foram em frente e começamos a ganhar prêmios”, afirma Lemanski. Os cavalos crioulos da cabanha São Rafael já foram pentacampeões na modalidade funcional, tetracampeões na morfológica, e tricampeões na Copa dos Criadores. Além de inúmeros prêmios freios de prata, bronze e ouro em várias exposições e provas que são exibidos na sala dos troféus na cabanha. Segundo Lemanski, um cavalo campeão pode custar alguns milhões de reais, como CRT Guapo. O garanhão, que pertencia à criadora Cláudia Ribeiro Tellechea, uma das herdeiras da Refinaria de Petróleo Ipiranga, foi avaliado em R$ 5 milhões em um leilão realizado em outubro de 2010. Guapo, o grande campeão das provas de morfologia até setembro de 2011, morreu em outubro, aos 17 anos de idade, mas nem por isso sua proprietária fez um mau negócio ao comprá-lo. “Descendentes desse cavalo devem valer cada vez mais no mercado, para quem aposta no melhoramento da raça”, diz Lemanski. “Como todo criador, nós também estamos em busca de genética reconhecida.”

Para vender seus animais, há 16 anos Lemanski recebe os compradores na própria cabanha para um leilão. No ano passado, 60 equinos foram vendidos por R$ 2,4 milhões. De acordo com o criador, os animais mais baratos saíram por R$ 10 mil, o mais caro chegou aos R$ 500 mil. “Com a receita desse leilão pago toda a festa, a criação e ainda sobra 10%, que invisto na cabanha”, diz. O leilão de 2012 está marcado para março e as despesas com a sua organização devem ficar perto de R$ 800 mil, 60% a mais do que em anos anteriores. “Vou gastar mais porque a data merece uma comemoração”, diz Lemanski, que comemora 25 anos como criador de cavalo crioulo. Segundo ele, até a cenografia do leilão será especial na edição deste ano. “Quem vai definir o que fazer é o Jayme Monjardim, um amigo de longa data”, diz Lemanski. Monjardim, filho da cantora Maysa, é um dos principais diretores de novelas da Rede Globo e também criador de cavalos crioulos há mais de uma década.

De olho nos prêmios: Cladis Martins é a veterinária responsável pela ciência do melhoramento genético dos equinos premiados da São Rafael

Além dos cavalos, Lemanski cria ainda 500 bovinos cruzados da raça angus com animais anelorados, para vender aos frigoríficos, e 400 ovinos para a mesma finalidade. Com as duas atividades são mais R$ 500 mil de receita por ano. “Tenho ainda plantação de pinos iniciada em 2007”, afirma. “Daqui a uns três anos faço esse negócio também dar lucro.” Precisar, na verdade, ele não precisa…