Montecristo é o nome de uma minúscula ilha italiana. Lá, cabe apenas um pequeno castelo que, durante séculos, foi habitado por uma única família. A ilha inspirou, em 1844, o escritor francês Alexandre Dumas a escrever o romance O conde de Monte Cristo, obra que se tornou um clássico da literatura mundial. Dumas conta a história de um homem que se reinventa o tempo todo, durante toda a sua vida. Da ilha de Montecristo, na Itália, até a cidade de Mogi Guaçu, no interior de São Paulo, são 9,5 mil quilômetros, uma distância que desaparece quando entra em cena o agricultor Georges Balech Junior, um personagem que não pertence à ficção dos romances, mas está muito próximo da arte da reinvenção. Todos os dias, a rotina de Balech Junior o leva até Monte Cristo – não a ilha italiana, mas uma propriedade rural de dois mil hectares, onde ele cultiva laranja, milho, cana-deaçúcar e soja. É a fazenda Monte Cristo.

Monte Cristo: laranjais estão ocupando as áreas dos canaviais

Aos 40 anos, Balech Junior comanda a transformação profunda dos negócios da família. Ele estudou engenharia agronômica, mas não seguiu carreira da forma tradicional, prestando serviços a fazendas alheias. Preferiu fincar pé na Monte Cristo e revolucionar a estratégia herdada de seu pai, Georges Balech, médico de profissão, que faleceu em 2001. Seu plano tem quatro pontos fundamentais. A principal decisão foi colocar a citricultura no centro dos negócios, substituindo a cana-de-açúcar como foco da produção da fazenda. A segunda medida foi expandir e renovar a área que vem sendo cultivada com laranja desde a década de 1990 pela família, em Mogi Guaçu. A terceira decisão de Balech Junior é transferir a produção de soja do interior paulista para Mato Grosso ( ele está à procura de terras) e a quarta – ainda em fase de planos – é abandonar definitivamente a cultivo da cana-deaçúcar. As mudanças iniciadas em 2005 já consumiram R$ 18 milhões em investimentos para adequar a produção da fazenda. “Compramos máquinas, caminhões, arrancamos 50 mil pés de frutas que estavam velhos e plantamos novas mudas de laranja, acabamos com parte do canavial e aumentamos a área de cultivo de milho”, diz Balech Junior. Os novos investimentos da Monte Cristo elevaram a área do pomar para 1,1 mil hectares, cultivados com 700 mil pés de laranja, e para 800 hectares de milho, que deverão produzir nesta safra seis mil toneladas do grão. “Ainda vamos plantar mais 50 mil pés de laranja até o fim do ano e trabalhar para aumentar a eficiência do milharal”, diz.

Segundo o agricultor, os preços altos do milho no mercado são um ótimo estímulo para melhorar a produção. No caso da laranja, Balech Junior diz que pesou na decisão de investir em seu cultivo a posição da Cutrale de garantir a compra total da produção da fazenda Monte Cristo. A Cutrale, com sede em Araraquara (SP), distante 190 quilômetros da Monte Cristo, é uma gigante brasileira da citricultura. Em 2011, o faturamento da empresa foi US$ 844 milhões, o segundo maior do setor no País. “Como temos a venda da safra garantida, produzir laranja é um bom negócio”, afirma Balech Junior. “Nosso projeto é crescer 15% ao ano.” Para cumprir essa meta, o agricultor pretende arrendar fazendas pequenas no interior de São Paulo, com áreas entre 300 e 600 hectares, nas quais é possível cultivar uma média de 200 mil pés da fruta.

Nos próximos dois anos, a previsão de Balech Junior é investir R$ 5 milhões nas propriedades arrendadas e na compra de terras em Mato Grosso, onde pretende cultivar soja. “Estamos em busca de pelo menos quatro mil hectares porque não é possível pensar em investimentos pequenos em Mato Grosso”, afirma. “Na soja, bom negócio é ser grande.” No Estado, a produção da safra 2011/2012 é estimada em 22,1 milhões de toneladas da oleaginosa, cultivadas em sete milhões de hectares, segundo dados do Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea). A área representa 28% do total de soja plantada no País e responde por quase 31% da produção nacional.

Em Mato Grosso, é grande a probabilidade de Balech Junior se encontrar com o também agricultor Giancarlos Bavaresco, 34 anos, dono da fazenda Santo Antônio, em Nova Maringá, município a 370 quilômetros ao norte de Cuiabá. Bavaresco tem em comum com Balech Junior planos de investir no Estado, para os quais conta com a assessoria da AGCO, fabricante americana de equipamentos agrícolas, dona das marcas Massey Fergusson e Valtra. Há três anos, a AGCO criou um programa de gestão de compra de equipamentos para ajudar produtores como Balech e Bavaresco a não errar na escolha de tratores e colhedeiras adequados às suas fazendas. Em Mato Grosso, Bavaresco tem quatro mil hectares cultivados com soja e está dobrando a área plantada para oito mil hectares, na região de Nova Maringá. A intenção é produzir 30 mil toneladas de grãos por safra. Para chegar a essa produção, o agricultor já investiu R$ 9 milhões na compra de terras e maquinário. E, para ter ainda mais renda, vai combinar a produção de soja, na safra, com o cultivo de milho na entressafra da soja, o chamado milho safrinha. “Acho que em Mato Grosso o rodízio de culturas cada vez mais vai ser regra entre os agricultores”, diz Bavaresco. No Estado, a produção total do milho safrinha deverá chegar a 9,8 milhões de toneladas na safra deste ano, volume 40,2% superior ao da colheita passada. “Quero fazer esse número aumentar”, diz Bavaresco, típico representante de uma geração de agricultores que não tem medo de investir no agronegócio e que está tomando conta do País.

“Em Mato Grosso, o rodízio de culturas cada vez mais será a regra entre os agricultores. Voltarei às compras porque meu negócio é crescer”

Giancarlos Bavaresco, da fazenda Santo Antônio, em Nova Maringá (MT)

Assim como o paulista Balech Junior, o gaúcho Bavaresco também é engenheiro agrônomo. “Em 2003, quando terminei a faculdade no Rio Grande do Sul, já sabia que meu destino seria Mato Grosso”, diz. Nessa época, ele contou com a ajuda financeira do pai para comprar o primeiro pedaço de terra. “Hoje, todos os riscos estão por minha conta.” Bavaresco calcula que em oito anos terá seu dinheiro recuperado e, ainda por cima, deixará a condição atual de médio produtor. “Depois disso, volto às compras porque meu negócio é crescer como agricultor”, afirma. “Não vou ser outra coisa na vida.” Ele conta que do pai – também agricultor no Rio Grande do Sul – leva a lição de que cada pé de soja tem o seu valor. “Só assim a sua fazenda crescerá, me dizia ele.” Certa vez, passeando com o pai pela fazenda Santo Antônio, em Nova Maringá, Bavaresco arrancou um pé de soja para ver como estava o desenvolvimento da raiz. O pai o obrigou a fazer um buraco na terra e colocar novamente o pé de soja em seu devido lugar. “Daí ela só deve sair quando estiver pronta para ser vendida, meu filho”, disse o pai.