01/01/2011 - 0:00
Como Mário Kimura investiu no cultivo de fungos, inventou os comprimidos medicinais Cogumelos do Sol e construiu um império que inclui fazendas e fábrica
Amor ou ódio: o jeito diferente de Mário Kimura incomoda muita gente, mas lhe rende grandes e bons negócios
As manhãs na tevê brasileira não são as mesmas se ele não estiver presente. Até quem não gosta muito, o espera ainda que para criticar, mas ninguém arreda o pé da poltrona até que Mário Kimura apareça no vídeo vendendo o seu cogumelo. O seu Mário do Cogumelo do Sol angariou uma legião de admiradores e também opositores com seu jeito particular de fazer negócios, mas foi assim que esse nissei nascido em Pereira Barreto (SP) protagonizou um dos grandes cases de sucesso da agroindústria brasileira. Em um sistema totalmente verticalizado, ele cultiva o cogumelo em suas fazendas, beneficia e industrializa comprimidos em fábricas próprias, e vende, atuando como garoto-propaganda do negócio. Investimentos pesados em merchandising o tornaram tão popular quanto o produto. “Isso incomodou muita gente”, diz ele. Sua trajetória é pontuada por tacadas certeiras e inusitadas para conquistar os clientes, que já somam um milhão de pessoas. Há 12 anos, patenteou várias denominações para o Agaricus sylvaticus, e o nome Cogumelo do Sol teve um forte apelo comercial. Hoje, o agronegócio lhe rende R$ 20 milhões/ ano. “Só eu posso usar o nome e daí surgem tantas críticas e imitações.” Mas o preconceito ficou de lado e agora, após 20 anos do início do negócio, o que Kimura quer é expandir seus projetos, que contabilizam R$ 255 milhões: R$ 60 milhões aplicados na fazenda Bela Vista, no sul de Minas Gerais, R$ 45 milhões em Cajuru e Itapira, em São Paulo, e mais R$ 150 milhões em uma fábrica em Taboão da Serra, na Grande São Paulo, projeto que será finalizado em 2016. Até lá, os comprimidos de Cogumelo do Sol já deverão ser exportados para a China e o Japão. O grupo fabrica atualmente 500 mil frascos do comprimido/mês. Em Minas, a produção de matériaprima chega a dez toneladas/dia e em Cajuru foram processadas 250 toneladas de cogumelo no ano. Um quilo de cogumelo seco, R$ 200 no mercado interno e R$ 500 para exportações, rende 35 comprimidos.
Os japoneses foram os responsáveis por fazer Mário Kimura migrar do ramo de turismo para o agronegócio. Agente de viagens nos anos 80, ele tinha uma vasta carteira de clientes do outro lado do mundo. “Um dia, um deles virou meu amigo e ligou pedindo que eu encontrasse para ele esporos de um cogumelo medicinal que nascia na região de Piedade, no interior de São Paulo, e lá fui eu. Cheguei lá procurando cogumelo e só encontrei cebola. Ninguém sabia nada de cogumelo, mas eu achei estranho aquele japonês tão instruído ter me dado uma referência errada e continuei procurando.” Na saga em busca do cogumelo misterioso, Mário conheceu o agricultor Kazumassa Abe, em 1990. “Ele cultivava o tal do cogumelo e então comprei e mandei a encomenda para o Japão.” Kimura acreditava que sua missão junto ao amigo japonês estava cumprida, mas enganou-se, pois a sua história com o cogumelo estava apenas começando. “Um tempo depois ele me ligou dizendo que os cogumelos não se deram bem naquele clima e se eu poderia procurar mais. Fui pesquisar e descobri que o consumo do cogumelo era uma febre no Japão e estava faltando cogumelo no mundo.” Quatro anos mais tarde era o próprio Kimura quem estava produzindo os tais cogumelos em uma fazenda na região de Piedade. “Mandei fazer uma análise lá no Japão e descobri que o cogumelo que dava aqui no Brasil tinha 70% mais propriedades medicinais que os cogumelos de lá. Eu pensei: descobri uma coisa muito boa.”
Como Mário Kimura investiu no cultivo de fungos, inventou os comprimidos medicinais Cogumelos do Sol e construiu um império que inclui fazendas e fábrica
A combinação de clima, solo e umidade da região, fatores responsáveis pelos cogumelos mais ‘ricos’, fizeram Kimura investir cada vez mais no negócio. “Estes cogumelos têm o poder de absorver os nutrientes da terra como uma esponja. As propriedades naturais de solos ricos dão mais valor aos produtos brasileiros”, explica Kimura. De Piedade, ele partiu para a indústria de comprimidos em São Paulo, e em 2006, a aquisição de novas terras. “Enquanto isso, eu investi em propaganda para popularizar o produto. Descobri que onde tem café bom, tem cogumelo bom.” Isso explica o rumo da expansão que o empresário está dando ao negócio na área agrícola. “As terras do sul de Minas, assim como as de Cajuru e Itapira são comprovadamente regiões produtoras de cafés premiados. É lá que vamos expandir as lavouras”, explica o engenheiro químico Denis Abe, filho de Kazumassa Abe, o mesmo homem que forneceu os primeiros esporos para Mário. “No Brasil, temos dificuldade para a pesquisa científica e mão de obra qualificada. Os profissionais que realmente entendem do cultivo são fundamentais para o nosso trabalho e eu não os deixo escapar”, diz Kimura. Mas tantos investimentos não estão voltados apenas para as exportações, mas para uma possível abertura no mercado interno. “Investimos em pesquisas que comprovem a eficácia dos cogumelos medicinais como coadjuvantes em tratamentos médicos. A qualquer momento, o setor farmacêutico e os órgãos responsáveis poderão nos dar o aval para entrarmos no mercado como medicamento fitoterápico.”
O berço dos cogumelos: bagaço de cana, esterco e capim são itens de luxo para o Cogumelo do Sol
Produção em série: em Bela Vista, MG, são beneficiadas até dez toneladas de cogumelos por dia
A falta de pesquisas científicas e a burocracia excessiva são responsáveis por atravancar o mercado. “Muita gente põe em dúvida as qualidades imunoprotetoras do Agaricus sylvaticus porque no Brasil não há incentivo à pesquisa e a falta de informação atrapalha um trabalho sério, de anos. Tudo o que sabemos sobre os benefícios do Cogumelo do Sol vem de pesquisas feitas no Japão, na China e nos Estados Unidos.” Nesses países, o consumo do cogumelo medicinal é alto. “A falta de conhecimento no Brasil e de uma legislação específica dificulta a vida do produtor. No Japão, as embalagens vêm com a inscrição ‘produto natural imunoprotetor’. Aqui, você tem que escrever ‘este produto não tem comprovação científica’. É como uma propaganda contra”, lamenta Kimura. “Mas lá no Japão eles vivem quase 100 anos, né?.”
Limpos e cheirosos: lavados, os cogumelos exalam um cheiro doce e agradável em toda a fábrica
R$ 150 mil na conta de gás: os cogumelos precisam de nove horas “de forno” para virarem comprimidos
Terrinha que vale ouro
A compostagem dá origem a um cogumelo de boa qualidade e, por ser orgânico, o produto tem grande demanda no mercado
1 O composto de bagaço, esterco, capim, de alto valor comercial, é misturado a esporos de cogumelos
2 Os fungos começam a se proliferar com rapidez no composto, que hiberna por 30 dias em câmaras próprias
3 Totalmente brancos e compactos, os cogumelos já podem seguir para o campo e ser cultivados em covas