ESTRATÉGIA: segundo Tortola, a meta é conquistar novos destinos

Fazer das tripas coração, ou quase isso, tem sido o lema da Frangos Canção, empresa paranaense que abate cerca de 160 mil aves por dia. Localizada no mercado cuja concorrência prevê o embate com gigantes como Sadia, Perdigão e agora também a americana Tyson Foods, a ordem é inovar. A mais recente aposta do diretor industrial da Frangos Canção, Ciliomar Tortola, é uma nova fábrica para a produção de uma farinha premium tendo como principal matéria-prima a pena das aves. Os investimentos consumidos até o momento foram de R$ 8 milhões e têm na utilização de subprodutos a sua grande aposta. Em comparação à farinha convencional, que sai por R$ 500 a tonelada, a novidade sai pelo dobro do preço. “Um ótimo negócio”, avalia Tortola.

DE SUBPRODUTO À FARINHA PREMIUM: penas se transformam em ração para salmão

O objetivo é reaproveitar tudo que é produzido, reduzindo ao máximo o impacto ambiental. Os cuidados começam na granja. São detalhes como a instalação de bicos e sensores para reduzir o consumo e fazer o reaproveitamento de água e o uso racional da energia.

“Existem várias barreiras comerciais e a questão ambiental é uma delas. Queremos estar adequados para que não haja problema na hora de pedirmos a habilitação para exportar para a Europa”, diz o diretor industrial. Atualmente, a empresa exporta para 32 países, sendo que os principais destinos são: Japão, Hong Kong, Emirados Árabes, Iraque e Venezuela. Mas a expectativa é abrir mercados como Irã, Coréia do Sul e Rússia a curto prazo e Europa a médio prazo.

Para isso, a Frangos Canção não está poupando esforços. “A questão não é só seguir um modelo, mas ter um diferencial”, diz Felipe Duarte Tada, engenheiro ambiental da empresa. Só para se ter uma idéia, todos os aviários têm um cinturão verde em seu entorno (vide boxe abaixo). Quando os frangos são levados para a indústria, a cama do aviário se transforma em adubo para a agricultura. E o processo de reutilização não pára por aí. No frigorífico, a água usada para lavar as penas, vísceras e resíduos sólidos volta para a indústria para ser usada em fins menos nobres. Além disso, a Frangos Canção conta com digestores de última geração para processar esses subprodutos. Esse equipamento faz o cozimento das sobras do frigorífico, que são usadas para a fabricação de ração. No entanto, nessa etapa são produzidos gases odoríficos, como metano e gás carbono. Para depurálos, usa-se um biofiltro.

R$ 300 MILHÕES é quanto a Frangos Canção prevê faturar neste ano

Por conter muita gordura, uma parte pode ser usada para produzir óleo e biodiesel. Já a parte sólida pode ter dois destinos: voltar para compor a ração ou ser queimada na caldeira. Por falar em energia, a caldeira foi a aquisição mais recente. Ela tem capacidade para produzir 20 toneladas de vapor/hora e será abastecida com bagaço de cana, produto em abundância na região em função das usinas.

“Agora estamos na etapa de tentar receber pelo crédito de carbono que deixamos de emitir. Para isso, estamos nos adaptando às diretrizes da ONU”, diz Rui Cabral, engenheiro químico e consultor da Frangos Canção.

INFRA-ESTRUTURA – A fábrica de subprodutos terá capacidade para processar os restos de 210 mil aves/dia, que é a capacidade máxima da Frangos Canção. No entanto, poderá receber e processar vísceras e penas de terceiros, desde que adquira mais digestores. No momento, por conta da ampliação, a empresa só está processando as penas; as vísceras estão sendo vendidas. Mas o objetivo é que, em breve, todos os subprodutos sejam processados ali. “Cada item, vísceras, penas, pele, será direcionado a uma moega. Assim, sabendo a composição de cada um, poderemos fazer a farinha de acordo com a recomendação do cliente”, diz Tortola. Com isso, a Frangos Canção pretende usar 80% em farinha premium e reaver o investimento da nova fábrica em dois anos. Está para sair um financiamento de R$ 25 milhões do BNDES que será usado para a ampliação da indústria e da fábrica de ração. Nada mal para uma empresa com 16 anos e expectativa de faturar R$ 300 milhões neste ano.

CINTURÕES VERDES

Para abastecer o frigorífico, a Frangos Canção conta com 300 integrados que respondem por 75% da produção. O restante é produção própria. No entanto, para ser aceito como parceiro da empresa, o produtor tem que estar de acordo com as leis ambientais vigentes no Estado. No caso do Paraná, a exigência é de 20% de reserva legal. Além disso, a diretoria recomenda o plantio de eucalipto ao redor das granjas, criando uma espécie de cinturão verde (vide foto). “O eucalipto ajuda a condicionar uma temperatura amena dentro do aviário, criando o que eles chamam de ambiência”, explica Rui Cabral, engenheiro químico e consultor da Frangos Canção. Essa medida é de extrema importância, visto que o norte do Paraná, onde a empresa está localizada, é uma região muito quente. Também é recomendada a construção de lagoas para captação de água da chuva. Atualmente, as granjas abastecem o frigorífico com uma média de 160 mil aves/dia. Mas o objetivo é que a indústria atinja a capacidade máxima, 210 mil aves, em junho do próximo ano.