01/04/2008 - 0:00
BRANSON, DA VIRGIN: sua empresa fez o primeiro vôo de um avião de grande porte com um combustível limpo
No dia 23 de outubro de 1906, Santos Dumont realizou uma das maiores proezas já alcançadas por um homem ao voar com seu 14 Bis sobre Paris. Agora, pouco mais de um século depois, um outro brasileiro também acaba de entrar para a história da aviação: o babaçu. A oleaginosa, já utilizada em larga escala para a produção de biodiesel, serviu de base para a fabricação do bioquerosene que levou um Boeing 747 da Virgin Atlantic de Londres a Amsterdã, no que foi o primeiro vôo comercial da história a utilizar um combustível limpo.
O vôo, realizado no dia 24 de fevereiro, foi uma iniciativa da Boeing, em parceria com a fabricante de turbinas GE, para testar a sustentabilidade das aeronaves utilizando um combustível verde. A experiência deu certo e empolgou muita gente importante, como Richard Branson, presidente da Virgin Atlantic e um dos homens mais ricos do mundo. Entusiasta declarado do bioquerosene, o empresário inglês diz que o teste foi muito satisfatório e garante que sua empresa seguirá apostando nos produtos ecologicamente corretos. “As novas tecnologias ajudarão a Virgin Atlantic a voar apenas com combustíveis limpos muito antes do que se imaginava”, disse ele. “Este vôo prova que poderemos reduzir drasticamente as emissões de carbono no futuro. Estamos orgulhosos por investir em energia limpa.”
Uma das maiores e mais respeitadas companhias aéreas do mundo, a Virgin Atlantic transportou mais de seis milhões de passageiros em 2007. No vôo histórico, no entanto, não levou ninguém a bordo por questões de segurança. Para a realização do teste, apenas uma das turbinas foi abastecida com o bioquerosene, enquanto a outra foi abastecida com combustível convencional. Em uma viagem de quase uma hora, nenhuma anormalidade foi constatada. Sucesso total.
A empresa foi escolhida pela Boeing para os testes devido à sua preocupação com o meio ambiente. Há anos a empresa busca formas para reduzir o impacto ambiental provocado por suas aeronaves. Agora conseguiu e deve faturar alto com a publicidade em torno do feito. “A demonstração serviu para provar que é possível que a indústria aeronáutica planeje seu futuro com novos combustíveis mais limpos e novas tecnologias que reduzam a emissão de carbono”, completa Branson, que não precisou investir nenhum centavo no projeto.
O bioquerosene utilizado no vôo foi fornecido pela Imperium Renewables, empresa norte-americana especializada no desenvolvimento de combustíveis renováveis e maior produtora de biodiesel dos Estados Unidos. Segundo Bryan Young, diretor de novas tecnologias da empresa, ainda não existem planos para sua fabricação em escala comercial e nem novos testes agendados, mas o babaçu segue sendo importado do Brasil para pesquisas. “É um fruto com grande potencial para a fabricação de combustíveis”, diz. “Nós nos dedicamos com afinco ao desenvolvimento deste combustível nos últimos 12 meses.
Agora, esperamos aperfeiçoá-lo ainda mais, para que num futuro próximo possamos abastecer as companhias aéreas com um combustível seguro e com menor impacto sobre o meio ambiente”, completa Young, um dos responsáveis pelo desenvolvimento do bioquerosene nos Estados Unidos.
Entretanto, existe uma grande possibilidade de um outro brasileiro também estar envolvido nesta façanha: Expedito Parente. Inventor do bioquerosene, Parente foi o responsável pelo primeiro teste oficial com o combustível ecológico, em 1984, quando um avião militar voou de São José dos Campos a Brasília. Depois disso, o programa de desenvolvimento esfriou. O cientista brasileiro, no entanto, retomou as pesquisas há pouco tempo, ao que tudo indica, em parceria com a Imperium Renewables. “Nesses 25 anos houve uma evolução muito grande no setor aeronáutico. Então estamos desenvolvendo e testando novamente o bioquerosene nos aviões mais modernos. Estamos mobilizando todo o universo aeronáutico, como fabricantes de aviões, fabricantes de turbinas, distribuidores de querosene e centros de pesquisas aeronáuticos, tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos”, afirmou Parente numa entrevista recente à DINHEIRO RURAL, em novembro de 2007. Procurado novamente, o pesquisador afirmou que, por contrato, não pode comentar o assunto.
Com ou sem a participação de Parente no teste realizado pela Virgin Atlantic, o fato é que o Brasil está se consolidando cada vez mais como pioneiro no desenvolvimento de biocombustíveis para a aviação, seja através dos cientistas, seja através do milagroso babaçu.
“O vôo demonstrou que a aviação poderá utilizar combustíveis limpos e reduzir as suas emissões de carbono”
Richard Branson, presidente da Virgin Atlantic