FAZENDA DE CORTE: os pecuaristas temem que o governo crie um cartório para dizer quem pode exportar

A vida do ministro da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Reinhold Stephanes, definitivamente não anda nada fácil. Desde outubro do ano passado, sua pasta vem enfrentando problemas, que colocam em xeque sua capacidade de gestão e também geram críticas cada vez mais explícitas dos produtores. O primeiro choque aconteceu quando a Polícia Federal conduziu uma mal explicada operação sobre a qualidade do leite brasileiro e o Ministério não reagiu à altura.

Pois bem. Passados dois meses do “escândalo do leite”, surgiu uma crise ainda pior: a da carne bovina, quando a União Européia apertou o cerco contra o Brasil. Em vez de questionar os argumentos dos europeus, o País recuou. E, no dia 13 de fevereiro, numa reunião na Comissão de Agricultura do Senado, Stephanes admitiu que eles tinham razão. “Hoje não tenho dúvidas de que o Brasil exportou carne não rastreada para a Europa.” A afirmação foi comemorada entre os pecuaristas irlandeses, líderes da guerra santa contra a carne brasileira. “Acho que haverá reação da União Européia contra essa declaração”, afirma Padraig Walshe, pecuarista e presidente da Associação de Fazendeiros da Irlanda. O choque entre os ruralistas brasileiros foi tão grande que muitos nem mediram palavras. “Ele deveria pedir demissão e procurar emprego na Europa”, disse Luiz Antônio Nabhan Garcia, presidente da União Democrática Ruralista.

“O erro do Brasil foi assinar um acordo com os europeus comprometendo-se a rastrear todo o gado. Temos de nos ajustar”

REINHOLD STEPHANES: ministro da Agricultura, Pecuária e Abastecimento

Com a suspensão de praticamente toda a exportação brasileira de carne para a Europa, o prejuízo é de US$ 5 milhões/dia. Os europeus determinaram que apenas 300 fazendas brasileiras poderiam vender sua carne, num universo de quase seis mil propriedades. Stephanes recuou diante da gritaria dos europeus, confiando que poderia resolver o problema em pouco tempo. “O erro do Brasil foi ter assinado um acordo comprometendo-se a rastrear todo o gado para exportação”, avalia o ministro. Segundo ele, não há como negar que a rastreabilidade brasileira é precária. Porém, ele diz que, em seis meses, o problema poderá estar resolvido. Para muitas lideranças, a história não é bem assim. O deputado Ronaldo Caiado, da bancada ruralista, afirma que ao aceitar uma lista de 300 fazendas o governo estará criando um cartório de certificação.

“Essas propriedades poderão comprar bois mais baratos de outras propriedades e vendê-los mais caro”, analisa. Quem também não está gostando da atuação de Stephanes é o presidente da Comissão Permanente de Pecuária da Confederação Nacional da Agricultura (CNA), Antenor Nogueira. “Ou o governo abre para todo mundo, ou não faz nada”, avalia. Outro indignado com a situação é o presidente da Federação dos Produtores Mineiros, Gilmar Viana. “Não pode haver discriminação”, diz. Só Minas Gerais apresentou ao Ministério da Agricultura uma lista com mais de 500 propriedades aptas para exportar.

“Não adianta reclamar muito. Temos que abrir novos mercados para a pecuária. Vou em busca de clientes no oriente médio”

PRATINI DE MORAES: presidente da Abiecs

Mas, no dia 16 de fevereiro, o secretário de Defesa Agropecuária, Inácio Kroetz, conseguiu amenizar a situação. Ficou acertado com Bruxelas, na sede da União Européia, que o Ministério forneceria uma lista de 600 propriedades certificadas. “Conforme nosso sistema for se mostrando mais confiável, mais fazendas serão incluídas, até que todos sejam atendidos”, diz. O prazo para que isso aconteça, porém, é longo. Segundo Kroetz, pode demorar de seis meses a um ano, o que ele chamou de uma operação conta-gotas. Mesmo que exista boa vontade por parte da União Européia, o que é algo pouco crível neste momento, muitas propriedades não conseguirão ser incluídas no Sisbov, conforme explica o pecuarista Luís Carlos Tavares, dono de um rebanho de 20 mil cabeças em Mato Grosso. “O Ministério faz exigências que nem ele consegue cumprir”, desabafa. De acordo com Tavares, há mais de um ano ele espera o resultado do georreferenciamento de sua propriedade, um dos itens obrigatórios do Sisbov, sem obter retorno. “Ele consta como pronto, mas eles não enviam.” Sem o documento, Tavares diz que não conseguirá participar do Sisbov. “Não é só colocar brinco nos animais”, pondera.

“Conforme o sistema for se mostrando mais confiável, mais fazendas serão incluídas entre os exportadores”

INÁCIO KROETZ: secretário de Defesa Agropecuária do Ministério

Apesar de existir um movimento contrário à permanência de Stephanes no cargo, nos corredores de Brasília comenta-se ser praticamente impossível a sua substituição. A favor do ministro, há o bom momento da agricultura de grãos, que deve gerar uma safra recorde, neste ano, de R$ 140 bilhões. Além disso, o PMDB, partido que é “dono” da pasta, deve sustentá-lo no cargo. Enquanto isso, o ex-ministro da Agricultura Marcus Vinícius Pratini de Moraes, atual presidente da Associação da Indústria Exportadora de Carnes, diz que o jeito é procurar outros mercados. “Vamos para o Oriente Médio vender carne, porque temos qualidade”, afirma. Segundo ele, não existe nenhum tratado entre Brasil e União Européia quanto à qualidade da carne.

“Eles têm as exigências deles e quem quiser vender para aquele bloco deve se adequar”, revela. Para ele, no entanto, conforme o problema for se resolvendo, os europeus devem ceder. “Caso contrário, o Brasil pode ir à OMC, mas isso é assunto para o governo”, afirma. O que acontecerá nessa novela é difícil prever. Mas Reinhold Stephanes já viveu dias bem melhores.