A té o início deste ano, o mercado global de biotecnologia de produtos de Origem Geneticamente Modificada (OGMs) era dominado apenas por americanos, alemães e suíços. A oferta de US$ 43 bilhões, feita pela estatal química China National Chemical Corporation (ChemChina) na compra da suíça Syngenta, começa a acrescentar um novo capítulo nessa história. A Syngenta, que faturou US$ 13,4 bilhões em 2015, é o segundo maior grupo de biotecnologia agrícola e proteção de cultivos no mundo, perdendo apenas para a americana Monsanto. O mercado global de agroquímicos é estimado em US$ 65 bilhões e o de sementes, em US$ 11 bilhões. Em março foi iniciado o período de oferta pública para os acionistas da Syngenta negociarem suas participações na empresa, numa transação que deverá ser encerrada até o final deste ano. O negócio abre um precedente histórico, no qual, pela primeira vez, a China passa a competir em pé de igualdade na área de biotecnologia dominada pelo Ocidente. “Os chineses compraram pronta uma empresa de presença mundial, sem precisar copiar um modelo de negócio”, afirma o economista e especialista em mercado chinês Roberto Dumas, do Insper, de São Paulo. Era o passo que faltava ao país asiático para tornar-se menos restritivo à produção dos alimentos transgênicos e mudar de vez o seu estigma de produtor de segunda   linha. “A China quer ser vista como um país de alta capacidade tecnológica”, afirma Dumas.


Demaré: “a segurança alimentar na China poderá ser melhorada a partir de nossa tecnologia”

A compra da Syngenta faz parte da estratégia da ChemChina de buscar por negócios alinhados aos setores de desenvolvimento de inovações. Com uma receita de US$ 45 bilhões em 2015, a companhia asiática adquiriu nove empresas pelo mundo nos últimos dez anos, das atuais 112 sob o seu comando. Entre elas estão a francesa Adisseo, de nutrição animal, a fabricante italiana de pneus Pirelli e a israelense Adama, até então o único braço agroquímico da chinesa fora de seu país. O presidente da Syngenta, o belga Michel Demaré, disse em um comunicado em fevereiro, logo que foi anunciado o negócio, que a empresa deverá alinhar suas pesquisas às necessidades globais, mas agora especialmente às da China. “Esse país asiático tem uma forte demanda por produtividade”, afirmou o executivo. “A segurança alimentar na China poderá ser melhorada a partir de nossa tecnologia.”

Como controladora da Syngenta, a ChemChina passa a contar com 55 aprovações de plantas geneticamente modificadas para as culturas de milho e algodão, de acordo com o Centro de Conhecimento Global sobre Biotecnologia de Culturas (Isaaa, na sigla em inglês). Com esse arsenal, a empresa asiática quer emplacar a ideia do cultivo dos transgênicos em seu próprio território, uma tarefa que tem sido difícil para as demais empresas do setor, como Monsanto, Du Pont, Bayer, Basf e Dow Agro Scienses. O mercado chinês de sementes e agroquímicos é estimado em US$ 10,6 bilhões, quase 14% do mercado mundial.

EM CASA A China até desenvolveu tecnologias próprias de Organimos Geneticamente Modificados, especialmente no arroz, mas o cultivo comercial do cereal não vingou. Atualmente, de acordo com a consultoria ChinaAg, sediada em Taiwan, o cultivo mais expressivo é o de algodão, em 3,9 milhões de hectares, ocupando 93% da área dessa fibra plantada no país. Há, também, permissões para mamão, tomate, flor, pimenta e álamo. Com a ChemChina no jogo dos transgênicos, a expectativa do mercado é que o governo baixe a guarda para a tecnologia. A soja e o milho transgênicos, por exemplo, não são aprovados para o cultivo e toda a importação de 69  milhões de toneladas, do total de 86 milhões importadas no ano passado, foram destinadas exclusivamente à fabricação de ração animal. Para o ministro chinês de agricultura, Han Changfu, o país precisa de inovação agrícola em seus investimentos. “Precisamos reestruturar e atualizar os modelos de negócios e sistemas de produção, com foco em tecnologia”, disse Changfu no dia 7 de março, durante o 12º Congresso Nacional Popular da China, em Pequim.

Apesar de ser o maior produtor mundial de arroz e estar entre os maiores de trigo, milho, soja, amendoim, algodão, batata e cevada, cultivados em 113,8 milhões de hectares, o país asiático não consegue alimentar a sua população de 1,4 bilhão de pessoas. A grande quantidade de terras de baixa qualidade, aliada a uma série de ameaças, como erosão e estiagem, têm colocado em risco os esforços do país para aumentar a produção. Para o presidente da ChemChina, o executivo Ren Jianxin, a compra da Syngenta abre um cenário promissor para produzir mais alimentos no país, mas também para marcar uma posição no mundo como vendedor de tecnologia e não apenas como comprador de commodities. “Agora teremos um forte portfólio”, diz Jianxin. “Isso vai beneficiar muito os nossos produtores, mas também estaremos em outros países.” Além de China, a Syngenta atua em 89 mercados.