01/03/2010 - 0:00
Nunca houve na história do agronegócio brasileiro um começo de ano tão dinâmico quanto o de 2010. Num espaço de tempo de menos de 60 dias aconteceram algumas das consolidações mais importantes de que se tem notícia no mercado do etanol. A exemplo do que ocorreu no ano passado no setor de carnes, a cana verde-amarela viu a formação de gigantes mundiais, antecipando o processo de internacionalização do álcool nacional. Após o fim da novela envolvendo a Santelisa Vale, incorporada pela francesa Louis Dreyfus, o grupo Cosan, de Rubens Ometto, formou uma joint venture com a petroleira Shell, uma das maiores distribuidoras de combustível no mundo. A nova empresa nasce com um tamanho de R$ 40 bilhões, alcançando mais de 40 mil postos de distribuição em todo o mundo. O anúncio aconteceu na manhã do dia 4 de fevereiro, quando o presidente mundial da empresa anglo-holandesa, Peter Voser, anunciava os maus resultados da companhia. O lucro caiu 69% – despencando de US$ 31,4 bilhões para US$ 9,8 bilhões. Com isso, mais de mil funcionários perderam seus empregos. Diante de um rosário de lamentações, uma notícia positiva, ao menos para os brasileiros: a empresa finalmente entraria mais agressiva no mercado de etanol e o lugar escolhido era justamente o Brasil. “Podem apostar: vamos fazer do etanol um combustível global”, disse, em Londres, Mark Williams, diretor da Shell para a área de biocombustíveis.
R$ 4 bilhões será o faturamento da eth bioenergia, em 2012
Um dia antes, porém, outra notícia de peso chegou ao Brasil. A Agência Americana de Proteção Ambiental classificou o etanol de cana-de-açúcar como um combustível limpo, que reduz a emissão de dióxido de carbono (CO2) em 61%, quando comparado à gasolina pura. Tal diferença já havia sido comprovada por estudos da Embrapa e confirmada, no ano passado, pelo governo da Califórnia, um dos mais rigorosos em questões ambientais. “Foram as duas melhores notícias da história do etanol brasileiro”, afirmou Marcos Jank, presidente da União da Indústria Canavieira (Unica). “Com a certificação americana e a joint venture da Cosan e Shell, ganhamos o passaporte global para o etanol”, definiu.
Enquanto isso, na cidade de São Paulo, o executivo José Carlos Grubisich, presidente da ETH Bioenergia, empresa do grupo Odebrecht, acertava os últimos detalhes de um negócio que muda a configuração do mercado interno. Ao lado do presidente da Brenco, Philippe Reichstul, ex-presidente da Petrobras, ele acertava o contrato da fusão entre ETH e Brenco, anunciada em 18 de fevereiro. Juntas, as empresas vão produzir três bilhões de litros de etanol e 2.700 gigawatts de energia. “Nos tornamos a maior empresa de bioenergia do mundo em apenas três anos”, disse Grubisich.
As duas empresas nasceram em 2007 com o objetivo de construir uma nova era de usinas, totalmente profissionalizadas e voltadas para a produção de energia – seja na forma de combustível ou em energia elétrica. Tanto é que nas quatro usinas da Brenco, não há produção de açúcar. A própria ETH tem capacidade para produzir apenas 20% de açúcar, servindo só para efeitos de caixa.”Com isso, podemos aproveitar os bons momentos do açúcar, mas sem perder o foco na produção de etanol”, afirma o executivo.
A fusão só foi possível graças a um tropeço da Brenco, que não blindou sua capacidade financeira contra a crise mundial iniciada em 2008. As dificuldades aconteceram e a alavancagem excessiva cobrou a sua conta. “Tivemos problemas de caixa e, para continuar tocando nossas operações, a fusão com a ETH é sem dúvida a melhor saída” disse Reichstul. Na divisão societária, o Grupo Odebrecht, em parceria com a Sojtz Coporate, ficou com uma participação de 65% e os outros 35% com os representantes da Brenco, como o BND ESPar e os fundos Ashmore e Tarpon. Quando todas as usinas estiverem operando, em 2012, a empresa provavelmente irá à bolsa de valores, onde deve começar um novo ciclo de investimentos. Nos próximos 36 meses serão aplicados R$ 3 bilhões, num ritmo de R$ 1 bilhão por ano.
A fusão de ETH e Brenco acontece num momento singular. Nos dois últimos anos, as grandes tradings do mundo chegaram ao Brasil. A Bunge comprou a Usina Moema, de Maurílio Biagi. Em 2007, a ADM formou uma joint venture com o Grupo Cabrera e se prepara para mais aquisições. A Cargill também está no jogo desde 2006, quando comprou a mineira Cevasa, também de Maurílio Biagi. “Isso sem contar a compra da Nova América pela Cosan e outras negociações de peso”, enumera Grubisich. “Esse é um jogo que ficará para empresas grandes”, define. Segundo o que apurou DINHEIRO RURAL, num prazo de dez anos, as três maiores produtoras de etanol terão moagens acima de 100 milhões de toneladas por safra. “É um número possível”, diz o executivo. Com isso, o mercado brasileiro conta não só com a participação das maiores tradings agrícolas do mundo como observa o ingresso das petroleiras. A British Petroleum (BP Gobal) chegou há dois anos numa parceria com o Grupo Maeda, com forte atuação no mercado de algodão.
A briga pela liderança será pesada e cheia de cifras biolionárias. Outras empresas estão chegando ao Brasil, como a indiana Sheree Renuka, que comprou 50,79% das duas usinas do Grupo Equipav, considerada uma das últimas grandes negociações em curso. A estreia dos indianos aconteceu em outubro do ano passado, quando compraram 100% dos ativos do grupo Vale do Ivaí, no Paraná. Com duas usinas na índia, a empresa é uma das maiores importadoras do açúcar brasileiro. Com novos atores, o mercado começa a ter um novo desenho. Pelo menos até a próxima grande jogada.