Uma safra de 62 milhões de toneladas de cana e apenas investimentos privados. Uma grande frustração para produtores e agroindústria se levarem em consideração que a situação poderia ser melhor, com um substancial aumento da produção. Não foi a seca nem o mercado que emperraram esse quadro, mas o governo, que parece ter abandonado um dos maiores projetos do setor, o Canal do Sertão. Lançado há quatro anos, o Canal do Sertão, de R$ 1,2 bilhão, já teria nesta safra a primeira colheita, mas até agora nada saiu do papel.

A obra era um projeto ousado, que daria a possibilidade de plantação de 115 mil hectares de cana em Pernambuco e 35 mil hectares na Bahia e a produção de dez milhões de toneladas de cana irrigada o ano todo. A Companhia de Desenvolvimento do Vale do São Francisco (Codevasf) e a Petrobras investiriam R$ 20 milhões cada uma para o financiamento das obras e a captação de água, e a trading Itochu Corporation aplicaria Projeto Canal do Sertão é engavetado pelo governo e frustra a agroindústria canavieira do Nordeste sumiu O plano mais R$ 20 milhões, com a garantia de comprar todo o etanol produzido, levando-o para o Japão. Por seu turno, o governo federal, através do Plano de Aceleração do Crescimento (PAC) injetaria mais R$ 20 milhões, e o dinheiro restante viria da iniciativa privada, leia-se usinas tradicionais da região. A Itochu e a Petrobras chegaram a assinar um memorando para o início do projeto, em junho de 2007, em Tóquio, ocasião considerada “um marco na economia do Nordeste”, conforme o governador pernambucano Eduardo Campos. Mas até agora o que se vê por lá ainda é a terra seca e nenhum pé de cana plantado. E, pior, ninguém sabe o que aconteceu. “Tínhamos uma proposta consistente para expandir a cadeia produtiva da cana na região”, afirma Renato Cunha, presidente do Sindicato dos Produtores de Açúcar e Álcool de Pernambuco (SindaçúcarPE). “A proposta era muito empolgante, mas perdeu fôlego. Não decolou.”

 

Frustração: Renato Cunha, do Sindaçúcar, aguarda ações do novo ministro

Os usineiros do Nordeste agora aguardam as ações do novo ministro da Integração, Fernando Bezerra Coelho, que é nordestino (mais precisamente, pernambucano de Petrolina) para reavivar o projeto. E pode ser que a cana brote dessas terras logo, com a recém-lançada Secretaria Nacional de Irrigação, segundo o Ministério da Integração.

Através de sua assessoria de imprensa, o ministro confirmou essa possibilidade. No entanto, não soube informar como seria a nova fase e quando ela começa. Na Petrobras, o Canal do Sertão também é assunto desconhecido. A assessoria de imprensa da estatal comunicou que o memorando foi assinado em 2007, um ano antes da criação da Petrobras Biocombustíveis, e por isso não poderia apontar os motivos que levaram a empresa a se afastar do projeto. A Itochu, também em nota, lamentou a morosidade das obras.