“O produtor do Distrito Federal tem tanta opção que planta e colhe 365 dias por ano. Uma riqueza”

José Maldaner, das fazendas Pascoal e São Bento

Quando José Canísio Maldaner se instalou em Brasília, em 1984, a vegetação de Cerrado reinava absoluta além do horizonte da capital federal. A dura vida nas lavouras de Selbach, município em região de montanha no Rio Grande do Sul, o levara a se aventurar na nova e promissora fronteira agrícola do Planalto Central. Na verdade, a desbravá- la. Para plantar, Maldaner teve, antes, de derrubar a mata nativa com trator e correntão. As primeiras culturas penavam no solo pobre e ácido da região. “Erramos muito no começo”, diz o gaúcho, hoje com 63 anos.

Passadas quase três décadas, a pujante propriedade de Maldaner comprova que, além dos corredores da burocracia e do poder, o Distrito Federal tem uma moderna e dinâmica economia agrícola. Em suas terras, nas fazendas Pascoal e São Bento, em 700 hectares, colhemse feijão, soja e milho no verão e trigo no inverno. Mais do que ele jamais sonhou quando chegou com a mulher e os três filhos. “O produtor daqui tem tanta opção que planta e colhe 365 dias por ano. Uma riqueza”, diz.

Os números comprovam o que diz o agricultor. Do campo brasiliense, brota a quinta maior produção agrícola do País, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) – há seis anos, ocupava a 24ª colocação. Dados de 2009, os mais recentes (apresentados em dezembro do ano passado), mostram que o chamado PIB da lavoura foi de R$ 541,7 milhões, superando 5.559 municípios – pelo território reduzido, Brasília entra no comparativo municipal. Mais notável é o fato de os produtores terem atingido uma cifra tão alta em apenas 119,6 mil hectares cultivados. A campeã Rio Verde, em Goiás, produz numa área 3,4 vezes maior e seu valor é apenas 24,8% superior. O motivo, conta Cláudio Malinski, engenheiro agrônomo da Coopa-DF, a maior cooperativa de agricultores da capital, é a diversidade de culturas. São 27 variedades de grãos, cereais, frutas e tubérculos que se adaptaram bem às condições naturais favoráveis da região: a altitude, as estações bem definidas – com o verão chuvoso e o inverno seco – e a abundância de água para irrigação. “Por causa do clima, partes de Goiás e Mato Grosso se limitam a plantar soja e milho. Em Brasília, se produz o ano todo esses cereais e com variedades de alto valor agregado”, diz Malinski.

Mas de pouco valeria o clima se o agricultor brasiliense não tivesse acesso à tecnologia. Quando os primeiros produtores de outros Estados desembarcaram no Projeto de Assentamento Dirigido (PAD-DF), em 1976, pouco se sabia sobre como cultivar no Cerrado. Com o tempo e após anos de um processo de correção de solo, os produtores incorporaram o plantio direto, sem aragem, técnica comum no Sul do País, região de onde veio a maioria dos agricultores do Distrito Federal. A terra antes pedregosa e pobre hoje propicia uma das lavouras mais prósperas do País. Dos dez principais produtos da cesta agrícola brasiliense, oito apresentam produtividade superior à média nacional. Em casos como o feijão, a diferença é digna de nota. Cada hectare cultivado do grão no Distrito Federal rende 2.851 quilos, o triplo da média nacional. Na lavoura do milho, um hectare rende 7.529 quilos, 79% a mais que a média brasileira. “Brasília está muito próximo de atingir a média de produtividade dos Estados Unidos, o maior produtor mundial de milho”, diz Cássio Kirchner, gerente regional da Dekalb Norte, divisão de sementes da multinacional americana Monsanto.

“Desde 1986 não se perde uma safra na região de Brasília. É uma terra abençoada”

Valdemar Cenci, da fazenda Farroupilha

Fonte: Produto Interno Bruto dos Municípios – 2009 – IBGE. – último dado disponível / Fonte: Pesquisa Agrícola Municipal 2010 – IBGE

As dificuldades iniciais para se plantar no Cerrado mostraram aos produtores de Brasília que a tecnologia é a chave para extrair da terra o máximo de produtividade. Com o tempo, aprenderam que a ciência era a parceira ideal do campo. Hoje, eles têm laços estreitos com três centros de excelência: a Embrapa Cerrados, em Planaltina; a Embrapa Hortaliças, em Gama; e a Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia, na capital. Algumas das mais produtivas variedades de milho cultivadas na região foram desenvolvidas nesses laboratórios. Só com o grão, os ganhos de produtividade foram de 18% nos últimos seis anos. Muitas dessas pesquisas são financiadas e testadas pelos próprios produtores. “Temos a maior concentração de massa crítica do País”, diz José Roberto Peres, diretor da Embrapa Cerrados. É uma relação de ganha-ganha. Se uma variedade de semente dá certo, os produtores a comercializam para todo o País e a Embrapa recebe royalties. “Brasília logo será referência mundial em produtividade”, diz Peres.

“As pessoas não têm a percepção do potencial agrícola do Distrito Federal”

Leomar cenci, produtor e presidente da Coopa-DF

Um dos recentes casos de sucesso é o trigo. Há 15 anos, o cereal foi incorporado à lavoura como uma cultura de inverno, por ser ideal para rotatividade com outras culturas. Mas uma parceria com a Embrapa ajudou a transformar o grão em negócio. Hoje, 95% das variedades de trigo cultivadas na região têm origem na estatal. A Coopa-DF beneficia três delas e produz mais de 12 mil toneladas de farinha. “As pessoas não têm a percepção do potencial agrícola de Brasília”, diz Leomar Cenci, presidente da Coopa-DF e há 24 anos na região. Nos últimos cinco anos, a cooperativa investiu R$ 1,5 milhão para ampliar sua capacidade de armazenar soja, milho e sorgo para 60 mil toneladas. Nas safras recentes, a produção dos 100 cooperados fez o giro de estocagem chegar a 1,5 milhão de toneladas. “Conseguimos guardar nossa produção e vender quando os preços estão favoráveis”, diz Cenci.

Com o sucesso da agricultura brasiliense, empresas de sementes se instalaram nas redondezas, entre elas a Pioneer e a Monsanto, que fazem da lavoura local um campo de testes. Uma parte importante da produção regional é cultivo de sementes para serem usadas em todo o País. “Somos os maiores exportadores de sementes para Mato Grosso, que não tem clima adequado para o cultivo”, diz Kirchner, da Dekalb. Esse nicho é altamente beneficiado pela irrigação intensiva da lavoura, que tem cerca de 25% de sua extensão com água disponível o ano inteiro. Só na Coopa-DF, são mais de 110 pivôs para irrigação.

Com água, é possível até se aventurar em culturas que, até há poucos anos, eram incomuns no Cerrado, como o café. Há 28 anos no Distrito Federal, Valdemar Valentim Cenci, primo de Leomar e dono da fazenda Farroupilha, de 1.320 hectares, é um dos que apostam na lavoura cafeeira para o futuro. A confiança advém dos recorrentes sucessos que o setor conquistou, aliando experiência, tecnologia e as benesses do clima. “Desde 1986 não se perde uma safra aqui”, conta. “É uma terra abençoada.” Além do café, Cenci produz feijão, milho, soja e trigo em área com cinco pivôs de irrigação.