Sede bovina: gado da Campanha Gaúcha sofre com a seca extrema provocada pelo La Niña

Na língua tupi, tupã significa trovão. Não por acaso, os indígenas atribuíram os sons das fortes tempestades às manifestações deste deus. Mas agora Tupã é tecnológico, moderno e rápido como um raio. O Centro de Previsão do Tempo e Estudos Climáticos do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, Cptec/Inpe, acaba de comprar um Tupã; na verdade, um supercomputador X-Cray T-6, investimento de R$ 50 milhões, capaz de realizar em minutos o trabalho de meses dos antigos equipamentos. “É o que há de mais sofisticado no mundo para a meteorologia. O Tupã nos fornece modelos de previsibilidade sazonais para a agricultura, uma arma poderosa para evitar perdas econômicas em consequência da chuva ou da falta dela”, explica Marcelo Selutti, meteorologista do Inpe. Segundo ele, o Tupã consegue uma margem de antecedência de alertas de dez dias. “Neste período, um pecuarista pode levar o rebanho para áreas menos afetadas pelas chuvas ou prover alimentação suplementar nas épocas de seca.”

O computador processa dados de temperatura, pressão atmosférica e velocidade do vento fornecidos por satélites. Para o agronegócio, seria possível obter relatórios de hora em hora para cada região do País e assim definir ações rápidas e específicas para cada cultura, o que é impossível nos dias de hoje. “Atualmente, levamos em conta as médias históricas da temperatura do mar para as previsões trimestrais. Prever com antecedência e com uma margem segura de acerto o comportamento do La Niña, por exemplo, é impossível, já que se trata de um fenômeno sem periodicidade precisa, uma anomalia climatológica instável”, argumenta a meteorologista Priscila Farias, do CPTEC. “Cada incidência de La Niña é cheia de surpresas.” E 2011 é ano dele, que teoricamente representa menos chuva na metade sul do Brasil e mais chuva em sua metade norte. Na prática, porém, ainda é impossível prever seu comportamento e evitar os prejuízos no campo a tempo. O La Niña já está sendo sentido pelos pecuaristas de gado de corte e leite do extremo sul do Rio Grande do Sul, a chamada Campanha Gaúcha.

deus das chuvas: o computador Tupã custou R$ 50 milhões aos cofres do Inpe e é o mais moderno no Mundo

Em um mês, os produtores amargam prejuízos de 50%. As instabilidades climáticas no Estado foram tão intensas que, no mesmo dia em que cinco municípios da Campanha decretaram estado de emergência em consequência da seca, a região metropolitana de Porto Alegre ficou submersa e no noroeste do Estado os produtores rurais comemoravam a ocorrência de chuvas moderadas e a incidência solar, condições ótimas para as lavouras de soja. “Existe uma grande preocupação para os pecuaristas do extremo sul, que estão amargando prejuízos semelhantes aos sentidos pelos produtores de soja da Argentina”, explica o consultor Aedson Pereira, da AgraFN P, de São Paulo. As cidades de Santana do Livramento e Alegrete, detentoras dos maiores rebanhos da região, até agora são as mais atingidas pela seca. As perdas no setor leiteiro foram estimadas em 50%, segundo a Empresa de Assistência Técnica e Expansão Rural do Rio Grande, Emater. Na pecuária de corte, 30% do rebanho está comprometido. “Os bois não engordam e deixaremos de vender gado durante a safra. É alarmante”, lamenta César Maciel, presidente do Sindicato Rural de Santana do Livramento. De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, IBGE, a Campanha Gaúcha detém um rebanho de aproximadamente 1,1 milhão de cabeças de gado. As perdas no cultivo de grãos têm pouco peso, já que o cultivo representa apenas 7% da soja plantada no Estado. “As áreas plantadas com grãos na região são para subsistência e alimentação animal, não chegam a impactar a safra como tem acontecido na Argentina”, garante Pereira. “Ainda não dá para calcularmos o tamanho do prejuízo”, diz Maciel.

O novo e o velho

O novo computador permitirá que o Inpe emita relatórios diários e específicos para a agricultura