“Fazer experimentos na fazenda é fundamental para quem quer aumentar a produtividade” Kip Cullers, produtor

Natural da minúscula Purdy, no Estado de Missouri, Kip Cullers esbanja o traquejo típico de um agricultor do Meio Oeste dos Estados Unidos. Tem fala ligeira, carregada do sotaque sulista, e é econômico mesmo quando discorre sobre o assunto de que mais entende: produzir muito em pouca terra. Aos 46 anos, Cullers é dez vezes campeão americano em produtividade de soja – em 2010, defenderá quatro títulos consecutivos. Com a soja, detém o recorde mundial de 173 sacas colhidas num único hectare, marca cravada em 2008. Tais números lhe conferiram celebridade e, por estar sempre na televisão dando entrevistas, ganhou o apelido de “Bon Jovi do campo”, cunhado pela imprensa americana. Famoso por lá, o produtor desembarcou no Brasil, no início de fevereiro, para excursionar pelo Centro-Oeste. Durante uma semana, partilhou com os maiores produtores da região as técnicas de Professor Pardal que fizeram suas lavouras redefinirem os limites imagináveis de produtividade. “O Brasil é a nova fronteira. Tem o melhor clima do mundo. Também pode chegar lá”, vaticinou.

100 sacas por hectare são comuns em talhões comerciais do americano

A dúvida logo suscitada pelos números é sobre como Cullers chegou lá. “O que faço é experimentar. Pego alguns hectares e faço todo tipo de experimentos. Às vezes falho miseravelmente”, relatou. Os experimentos acontecem num pedaço de quatro hectares que o agricultor, há 30 anos, faz de laboratório. Lá, testa novas variedades de sementes geneticamente modificadas, às quais aplica diferentes técnicas de plantio. Utiliza irrigação em abundância nos estágios iniciais da vida da planta – acredita que mantê-la em temperaturas moderadas ajuda a reduzir a perda da florada. Utiliza com frequência esterco de galinha. “Procuro sempre ter um pé de soja de um verdeescuro. Significa que há uma maior concentração de clorofila. Isso eleva os níveis de fotossíntese da planta e sua produtividade também”, explica. Ao fim dos testes, a combinação que resulte em maior produtividade é repetida em escala comercial na lavoura.

A incursão de Cullers pelo cultivo da soja, acredite, foi acidental. Ele cresceu numa propriedade produtora de leite, em Purdy, mas sempre nutriu aversão ao trabalho. Em 2006, ele decidiu destinar uma parcela de seu campo de experimentos e testar os efeitos dos métodos que já aplicava nas lavouras de feijão verde e milho, carro-chefe de sua produção. Num talhão de 16 hectares, plantou 300 mil sementes, de uma variedade com grãos de grande porte. “Com a soja e o milho, maior é sempre melhor”, costuma dizer o agricultor, com a mão pairando a 1,5 metro do chão para indicar a altura que atingem os pés antes da colheita. Ganhou o concurso de produtividade naquele ano e nos dois anos seguintes.

O que chama a atenção na fazenda de Cullers é a superação sucessiva da marca de 100 sacas por hectare no cultivo em maior escala – com mais de 40 hectares -, fora dos campos experimentais. Nos 200 hectares em que atualmente cultiva a soja, Cullers obteve média superior a 100 sacas por hectare. Para efeito de comparação, no Centro-Oeste, região com maiores índices na lavoura brasileira, a média é de 60 sacas por hectare. Ou seja, suas técnicas de manejo rendem três vezes mais soja por hectare do que a média nacional. “Nas propriedades brasileiras, que são muito mais extensas do que a de Cullers, seria muito difícil repetir este nível de produtividade”, analisou o agrônomo André Ramos, gerente de produto e tecnologia no Centro-Oeste da Pioneer Sementes. “Nós acreditamos que os principais fatores para tanta produtividade são os anos de manejo do solo promovidos por Cullers”, disse Scott Dickey, agrônomo da Pioneer que supervisiona a produção de Cullers.

O elevado nível de produtividade na lavoura comercial de Cullers atraiu pesquisadores brasileiros. Agrônomo da Embrapa Soja, em Londrina, Décio Gazzani acompanha com interesse o trabalho do agricultor. Embora cético quanto à existência de um “pulo do gato”, o brasileiro reconhece que o americano consegue aliar produtividade e rentabilidade a partir de seu campo de experimentos. “Ele é cuidadoso, metódico e muito inteligente. Ele só leva para a lavoura comercial os resultados que lhe garantem rentabilidade”, disse. Com base no método de Cullers de reservar uma pequena parcela da lavoura para experimentos, Gazzani lidera um movimento para que a prática seja adotada na lavoura brasileira. A ideia, agora, é trazer Cullers novamente ao Brasil até o início do ano que vem para falar mais sobre suas técnicas. “Ele pode ser um grande fator motivacional”, arremata Gazzani.

Doente por soja

As experiências do rei da produtividade, que é uma espécie de cientista maluco do campo

– A cada ano, quatro hectares de terras servem de laboratório para novas técnicas de produção

– Os grupos de controle são submetidos a diferentes quantias de irrigação, adubagem e defensivos

– Os grupos que apresentarem bons resultados de rentabilidade são testados na lavoura comercial

– Planta as sementes logo depois de abrir as embalagens, por acreditar que a demora implica perda de potencial produtivo

– Faz uso intensivo de esterco de galinha extraído de sua granja, onde cria 25 mil frangos

– Com a soja, Cullers notou que pode obter mais vagens ao irrigar a planta em estágio inicial de crescimento

– Testa, atualmente, como a densidade do plantio da soja afetará sua produtividade